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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Último dia no Marquês

Tinha 22 anos quando entrei naquele edifício pela primeira vez. Ia toda contente: três meses de estágio, que me pareceram imenso (mal calculando como era irrelevante o trabalho do estagiário). Pareceu-me bom prenúncio. Todos os domingos, quando passava no Marquês de Pombal, dizia à minha mãe que o DN ia ser o primeiro sítio onde ia trabalhar. O segundo ia ser o Expresso. Não podia adivinhar que este havia de sair do centro da cidade muito antes do Diário de Notícias.

Lembro-me do fumo, das pessoas começarem a trabalhar tarde, do Luís Delgado, que vinha todas as tardes escrever a sua crónica da página 2, no tempo em que as pessoas iam escrever às redações, do José David Lopes, com quem aprendi tantas coisas, de só existir um computador com ligação à Internet. Lembro-me muitíssimo bem da porta que me ficou na cabeça. Com uma giratória tão linda, a que me ficou na memória foi a que dá acesso à redação.

IMG_1420.jpg

Voltei ao 266 da Avenida da Liberdade no dia 21 de abril de 2004, embora, como ela diz, para nós sempre foi o 111 da Rodrigues Sampaio. A incansável, e pragmática, Luísa recebeu-me nesse primeiro dia no 24horas com computador, mail, login e tudo pronto para começar a teclar. Lembro-me muitas vezes desse gesto. Pela simpatia e pela responsabilidade. Se me acolhiam tão bem, tinha de corresponder com trabalho. Subi ao 5.º andar e por lá fiquei até julho de 2009. Foram os melhores dos tempos, foram os piores dos tempos. Todos temos um sítio, o meu é este.

Quando voltei de férias, nesse ano, fui para o DN, quando as artes e os media estavam juntos. De novo, os piores dos tempos, os melhores dos tempos. Num cantinho pouco iluminado, costas com costas com o Internacional. Depois ao lado da Sociedade. Encostada a um pilar. Finalmente, ao lado da secretaria de redação, pertinho da janela.

Aprendi tudo sobre jornalismo neste edifício extraordinário, meço cada sílaba e acho pouco, e hoje foi o último dia.

Foram 12 anos a correr para o Marquês, a apreciar mais e mais aquele edifício feito para ser redação, cinco andares por fora, mais três subterrâneos, prémio Valmor em 1940. Impressionada com os painéis do Almada ou a passar por eles sem os ver, sempre com medo de ficar entalada na porta giratória, sempre a lembrar-me do Clark Kent. Orgulhosa das nossas letras góticas. "São como as do New York Times", disse-me uma rapariga americana que entrevistei este verão no Primavera Sound. Devia ter-lhe dito que estavam em grande numa das principais praças da capital.

IMG_1414.jpg

Empacotei 12 anos de trabalho numa caixa de 40x40 centímetros e colei uma etiqueta, a 92. Sou a filha que vê os pais desmancharem a casa onde cresceu. Onde fiz a primeira manchete, onde as minhas filhas nasceram, onde me ri tanto, onde vivi angústias, onde chorei, onde conheci pessoas maravilhosas. Fiz amigos que duram até hoje, maiores do que qualquer prédio de betão, por mais premiado que seja. Sinto nostalgia, não tristeza (passámos por três despedimentos, sei bem a diferença).

A partir de segunda estamos nas Torres de Lisboa, mas para quem nos lê não vai fazer diferença nenhuma. Continuamos nos quiosques e no nosso site. Os jornais são as pessoas que os fazem. E nós continuamos cá.

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