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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Última hora: vamos continuar a ser homens e mulheres

Pessoa que ande pelas redes sociais perguntar-se-á que sentido tem lutar pela igualdade de género. Quero juntar-me a essas pessoas. Deixem-me cá pensar se alguma vez aconteceu alguma coisa num passado recente -- grande, pequena ou de médio formato -- pela qual foi preciso as mulheres lutarem que me faça pensar que todos os gestos contam a caminho de um mundo em que as minhas vão ser tão bem pagas quanto os rapazes e terão a mesma igualdade de oportunidades. Não sei... Assim, de repente, apanharam-me desprevenida... Não sei bem... Só me consigo lembrar de...

Votar. Casar com quem quero. Usar calças. Andar com um homem na rua e ele não ter de ser meu marido e não ficar "falada". Contracetivos. Divórcio. Conduzir. Fumar. Poder não andar com um lenço na cabeça. Não saber cozinhar ou costurar e isso não ser o fim do mundo (se bem que em certos universos ainda é). Viajar sem ter de pedir autorização a um homem. Viver sozinha. Estudar. Ter opinião.

Os mais importantes direitos já foram conquistados, estão legalmente consagrados, mas, coisa importante, as mulheres ainda recebem menos do que os homens e as mulheres ainda fazem mais tarefas domésticas. Para este dado não preciso de estatística ou link, basta-me olhar para a minha casa e para o que vejo nos meus amigos. É outro assunto que me interessa. Numa excelente, e duradoura, reportagem do Público na Suécia, uma especialista em igualdade género explicava que a divisão do tempo com a vassoura, a louça e o pano do pó era essencial para fazer crescer o salário das mulheres. Afinal, não basta mandar os homens para casa com um mês de licença. É preciso explicar que não vai aparecer um duende para aspirar, apanhar a roupa e dobrá-la, antecipar que é preciso almoçar e antever que o frigorífico não se enche sozinho... Para lá dos próprios cuidados infantis.

Como já disse, ou tentei, vá, quero dizer as palavras certas porque me interessa muito como as palavras podem provocar um contágio positivo na nossa vida. E quando digo palavras, quero também dizer desenhos, fotografias e o que represente mulheres e homens. Embora só muito recentemente me tenha dado conta desta subtileza, é verdade que estamos habituados a associar os rapazes e as raparigas exatamente como nas capas dos livros da Porto Editora. Mesmo que todos resultados escolares nos digam que as miúdas têm tão bons resultados como os miúdos, onde é que estava o lápis? As máquinas -- foguetão, navio -- estavam do lado deles. As raparigas estavam resumidas a seres que dançam e comem. Chega até a ser triste a verdade daqueles desenhos, tendo em conta como nos pressionam para sermos magras como bailarinas e como a comida, e as dietas, são um assunto comum entre mulheres.

"Homens e mulheres são diferentes", dizem-me. Como se essa evidência não estivesse à minha frente. Sim, somos. Mas são as pessoas que têm género, não as coisas que elas fazem. Uma mulher não é mulher pelos saltos altos e pelos lábios pintados. Um homem não é homem por não se depilar (chega a ser divertido dizer isto tendo em conta que muitos miúdos tiram os pelos). O mundo para lá do nosso umbigo diz-nos isso mesmo. A minha amiga Marisa, desde Cabo Verde, dizia que os homens neste país são imunes à ditadura das cores. Aqui já foram um dia, nos anos 80. Há 20 anos, que homem se atrevia a dizer que queria ser cozinheiro? Desafios diferentes nos esperam. Elas têm de encontrar lugar entre máquinas, eles na domesticidade.

O meu marido dizia que se está a caminhar para uma uniformização. E eu digo, não. A uniformização (e catalogação) é o que temos hoje, e, felizmente, em muito menor escala. Eu, na verdade, só quero ampliar a diversidade. E, mais do que isso, não me limitar a dizer que acredito na diversidade, como fez a Porto Editora quando o debate se instalou para, sob a "recomendação" em forma de ameaça do governo, mudar de opinião e retirar os livros do mercado, com a sombra dos contratos de manuais escolares a pairar. Um pouco de proporção, por favor. Basta assinalar as boas e más práticas, não? É como o Chico Buarque, no fundo. Embora ache que o homem não é nenhuma vaca sagrada que não possa ser alvo de nada mais do que elogios, não me sinto à vontade para falar do que ele escreve. Mas há, definitivamente, cantores que cantam poemas machistas. Anselmo Ralph é o primeiro nome que me vem à cabeça. Não me passa pela cabeça censurar o homem nem muito menos deixar de bater o pé ao som de Curtição, mas é machista e é bom ter isso em mente. Como alguém cuja opinião prezo me dizia: tendo a desculpar a arte. É uma boa maneira de pôr a coisa. Arte é ficção. E a sua principal utilidade é simular o mundo. Da mesma forma, não espero que não retratem com violência o que se passava nas arenas romanas com gladiadores só para não irritar peles sensíveis. É o que é.

Quanto ao debate de género, nada temam, boas pessoas. Somos como somos e, apesar do muito que já mudámos, nunca deixámos de ser homens e mulheres, de nos juntarmos, de nos multiplicarmos.

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