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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

T'estimo Barcelona

1. Atentados terroristas são atentados terroristas. São maus em Londres, Paris, Bruxelas ou em qualquer lugar, mas em Barcelona... Barcelona é a cidade onde vivi três anos, aquele sítio de onde me sinto um bocadinho. Embora a cidade de 2000-2003 já não seja a mesma, há coisas que se mantêm. Quando leio os nomes das ruas, sei realmente para onde vão, o que lá acontece, como se chega. Impressiona-me. A parte chocante é imaginar que coisas destas podem acontecer às pessoas que conheço. Mandei mensagens. Entre as respostas e as marcações de "seguro" via Facebook, parece estar tudo tranquilo, mas depois há aqueles que não dizem nada. Lembro aquelas pessoas com amigos e família em Londres, quando um louco esfaqueou gente numa zona de restaurantes. Sentiam angústia e, ao mesmo tempo, não queriam acreditar que algo pudesse ter acontecido. "Ah, de certeza que não se passa nada". É o que penso. Ah, eles são dali, é quinta-feira, deviam estar a trabalhar, não iam descer as ramblas, zona mais turística de todo o sempre, num dia de semana.

Marta, antiga colega de trabalho, conta-me no chat que por um mero acaso estava em Barcelona hoje numa zona um pouco acima das Ramblas. Telefonaram-lhe a perguntar se estava tudo bem, a contar o sucedido. Ficou assim justificada a quantidade de agentes policiais que começou a ver. Tentaram sair o mais depressa possível, mas foi tarde demais. Demorou três horas a fazer um caminho que habitualmente se percorre em 60 minutos. "E com um susto..." Não estamos no olho do furacão, mas impressiona porque podíamos ser nós. Nestas alturas leio sempre alguém dizer que estes crimes atentam contra o nosso modo de vida. Parece-me uma explicação demasiado simples, mas a consequência, tenho a certeza, é essa. Começa naquele segundo pensamento que temos marcando uma viagem (e se?) e continua quando vamos a um festival de música e percebemos que há polícia por todo o lado e que é mesmo para ser assim. Temos de ver polícias vestidos de polícia para nos sentirmos seguros. 

2. Estou a fazer atualizações nos La Vanguardia de dois em dois minutos. As autoridades pedem sangue e, ao mesmo tempo, pedem que não se mostre sangue -- "Por respeto a las víctimas y a sus familias, por favor, NO compartas imágenes de heridos en atropello de #Ramblas de Barcelona" -- e, pequeno que pareça este pedido, é tão importante não amplificar os feitos dos terroristas. É preciso parar de alimentar este voyeurismo de beira de estrada por mais tentador que seja. 

3. Talvez soe estranho dizer isto, preciso de "escrever alto", mas o que mudou mesmo nestes anos -- desde o 11 de setembro, valha a verdade -- foram as redes sociais, esta informação ao minuto, os canais de notícias, a internet no telefone. Havia Al Qaeda, havia ETA. Eram terroristas, mas essas coisas, pelo menos até às Torres Gémeas, quando tudo aquilo aconteceu em direto perante os nossos olhos (a quantidade de gente que diz que pensou que o segundo avião fosse uma imagem de repetição do primeiro ataque), eram um pouco longíquas. Em 2000 ou 2001, mas seguramente antes do que se passou em Nova Iorque, eu estava a jantar em casa com duas amigas quando sentimos um estrondo na rua. Foi uma coisa de segundos, passou, continuámos a conversar, não falámos mais sobre isso. A televisão estava apagada, os nossos telefones eram nokias, não tinham alertas. No dia seguinte, levantei-me para ir trabalhar às 07.00 e fiz o percurso do costume até à Diagonal. Encurtava sempre caminho por um prédio com arcadas e nessa manhã fiz o mesmo apesar de haver fita policial à volta. Ninguém me disse nada, eu nem pensei, ia distraída, não havia grande confusão. Foi quando cheguei ao trabalho que percebi que tinha explodido uma bomba. Em outra ocasião, um carro armadilhado matou um polícia municipal na Diagonal. Eu tinha medo, nunca na vida tinha estado tão perto de uma coisa assim. Uma colega disse uma coisa horrível, que nunca vou esquecer. Que vivia ao lado do Hipercor atacado pela ETA em 1987. Lembrava-se da confusão, mas muito pior do que isso. "Morerram vizinhos meus". 21 pessoas no total. Foi o ataque mais mortífero, o último até ontem. "Tens de viver com isso", disse ela. 

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