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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

O machismo das pequenas coisas

O meu marido está sempre a dizer: jornalismo é escolha. 

 

Jornalismo é escolha. 

Jornalismo é escolha.

Jornalismo é escolha.

 

Escolhemos os assuntos a abordar.

A maneira como abordamos o assunto.

O ponto de vista.

Escolhemos as pessoas com quem falamos sobre os assuntos. 

Escolhemos as pessoas com quem não falamos sobre os assuntos. 

Escolhemos quando o publicamos. 

Escolhemos como começamos o texto.

Escolhemos como terminamos o texto.

Escolhemos a informação que vamos dar. 

Escolhemos a hierarquia dessa informação. 

Escolhemos as fotografias.

 

E foi aqui que me parei estes dias. A escrever sobre feminismo a propósito do trabalho de uma investigadora portuguesa e a censurar-me de usar uma fotografia em que ela aparece com as pernas de fora

A entrevistada tirou fotos com um macação de calções e é uma pessoa muito bonita. Numa das fotos está mesmo sexy, pernas de fora, cabelo penteado para o lado. E eu pus uma foto em que ela está bonita e bem, mas não se vê o corpo inteiro. Porquê? Porque na minha cabeça ela é uma investigadora respeitada e apresentá-la dessa forma retiraria credibilidade ao trabalho dela. Eis a ratoeira: o trabalho dela vale porque vale, e eu sei que vale, e a apresentação dela devia ser a que for. Uma coisa não colide com a outra, a não ser entre mentes mesquinhas, e eu sei disso, porque acompanho o trabalho. E, no entanto, cedi, achando que não me cabia a mim desafiar as regras do que é suposto uma universitária parecer -- sisuda, séria, sem corpo. 

É isso o machismo das pequenas coisas, a que só podemos fugir pensando nele e explicando aos que chegam a este mundo que o rigor científico não sai beliscado pelo uso de calções. 

 

Elas

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Mãe e filha são das Honduras. Passaram um mês em viagem, sabe Deus como, para chegar à fronteira com os EUA e entrar nesse país. Soubemos delas pelas fotografias do norte-americano John Moore que passou dias com a polícia fronteiriça e viu de perto o que é tentar a sorte, ser apanhado, detido, identificado, arriscar a deportação, e, por estes dias, ser separado de um filho.

"Eu só queria acabar com o choro dela", disse Moore, no papel de entrevistado, a propósito destas pessoas que o emocionaram, que o arrancaram do papel de jornalista ou, justamente, o puseram realmente no papel de jornalista (ainda não sei bem). Desconhecemos os seus nomes, detalhe sem importância, já que mãe e filha são, na verdade, rostos da crueldade. 

Os números não são oficiais, nem sequer claros. Alguns jornais falam em mais de 1300 menores, outros em cerca de 2000, o The New York Times escreveu 2300. Alguns viajavam sozinhos, outros foram separados das famílias.

Há outra crueldade. Imaginar, como imagina a secretária de Estado da Segurança Interna dos EUA, Kritjen Nielsen, que há quem 'mande' os filhos numa jornada de meses, às mãos de máfias, porque acha excelente ideia. Porque acha que é boa solução. É o que ela quer dizer quando afirma que "a vasta maioria das crianças ao cuidado da Segurança Interna foi mandada sozinha pelos pais para aqui", não é? É tão fácil estarmos sentados nos nossos sofás confortáveis, com o frigroífico cheio, a certeza de bons cuidados de saúde e educação e acreditar o mundo inteiro vive da mesma forma...

 

 

Rumo aos 42. Dia 18. Aquele cadinho de liberdade

Algures no final de 2017, propuseram-me ter uma abordagem diferente aqui no blogue. Em vez de escrever unicamente sobre o que quero, e à hora que quero, passaria a escrever sobre assuntos concretos. O dia da mãe e o dos namorados, a polémico do dia ou sobre férias e feriados. Isso poderia ter contrapartidas. A bem dizer, eu escrevo por dinheiro e não repudio a ideia. No passado eu poderia ter aberto essa porta. Mas, entretanto, eu fui descobrindo muitas coisas, graças sobretudo ao facto de as ter ido escrevendo. Que é preciso manter uma certa limpeza. Que este é aquele cadinho de liberdade incondicional que a todos nos assiste e que não o posso desbaratar. Tornou-se bem sério o caso. E embora eu escreva cada vez menos e os blogues até estejam em vias de extinção, gosto cada vez mais dele -- aquele sítio onde tudo é possível. Três posts por dia. Um por semana. A cada três meses.

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|Crédito: Senhora das Iguanas, de Graciela Iturbide|

 

Rumo aos 42. Dia 3. Feira do Livro

A Feira do Livro cansa-me. Não gosto particularmente do sítio, tão empinado. São muito stands, não conseguimos ver tudo. Está feito uma feira popular, só faltam os carrosséis. Mas nem me passa pela cabeça falhar ou não levar as miúdas. Elas querem coisas bem diferentes do que se possa pensar. Saltam em cima do livro gigante do Wally, ficar numa cadeira a pintar, gelados. Faz parte, devia saber. Faz parte do que é novidade para quem tem livros em várias prateleiras e visita livrarias todos os meses.

Isto tem a sua graça. Em pequena, ir à Feira do Livro era dos melhores programas do ano. Além de comprar livros que realmente queria, eram muitos -- três ou quatro de "Uma Aventura" ou da Alice Vieira. Uma excentricidade. Nunca me pude queixar. Eu podia tê-los (talvez não TODOS! os que me apetecia, mas os mais do que suficientes), só não havia muitas livrarias. Havia a 77 em Mafra, cheia de Patrícias, mas só lá ia quando passava dias em casa da minha tia. Havia uma pequenina em Sintra, foi lá que descobri "Uma Aventura no Supermercado", e a Ovni na Ericeira. É uma loja que ainda lá está, no Jogo da Bola. Nem sonham, e é pena, mas estão associados a uma das minhas melhores memórias de infãncia. A minha mãe comprar-me uma Anita e depois virmos de autocarro para casa, ela a contar-me a história. (E, a sério, que acho isto genial, porque deve ter sido a única vez que andámos de autocarro. Se há coisa que ela sempre fez foi conduzir, e conduzir bem).

Chegamos a hoje, e a essas contradições da vida do primeiro mundo. Eu queria ter livros por todas as partes, agradeço-os e valorizo-os, ponho-os à disposição das miúdas. Mas por serem hoje corriqueiros, as crianças não lhes prestam a mínima atenção. Dão-nos por adquiridos. Terei de me esforçar muito mais do que antecipava para que eles sejam boas leitoras.

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 |crédito: Dorothy Rees|

Coisas bonitas: The Happy Show

Estas são as minhas filhas, três anjos, cinco minutos depois de entrar em The Happy Show, a exposição do designer austríaco Stefan Sagmeister que está na Central Tejo. Sentaram-se de livre e espontânea vontade a ver o filme. E eu, quando vi a cena, só tive tempo de sacar do telefone e fazer a foto.

IMG_8529.JPG

O que, na verdade, devia ser documentado eram os 50 minutos que precederam esta imagem, quando esta mãe usou todos os truques possíveis para evitar palavras como museu ou exposição. E nunca, em circunstância alguma, "vamos ao MAAT'. Antes: Querem ir ao parque? Claro que vamos ao parque. Está a chuviscar, mas que importa? Andámos meia hora para elas constatarem que não podiam usar os escorregas porque estava tudo molhado. E quando já estavam cansadas (e eu!), convidei-as a entrar no edifício do antigo museu da eletricidade, onde tinha "uma coisa de trabalho para ver", para que pudessem descansar. 

IMG_8539.JPGEis, aqui, a foto definitiva. Percebe-se nelas, nas bocas cheias de pastilha elástica amarela e nas poses de zombie (é mesmo isso) que estavam muito contrariadas.

Às vezes, parece que a melhor maneira de educar as crianças é... bem... não quero dizer enganá-las, mas manipulá-las, vá.

Quanto à exposição, vale bem a visita. De cabeça aberta e, preferencialmente, sem crianças. Para ir pensando nas coisas que Stefan Sagmeister diz e escreve.

MAAT_012.jpg

Por exemplo, ele faz pausas de um ano, de cinco em cinco anos, e farta-se de falar sobre isso.

 

 

 

 

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