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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

A que cheira a nossa infância

Sinto-me antiga, porém bué moderna. Tenho a minha educadora de infância no Facebook. E descobri que tem um apelido! 31 anos depois de ter sua  educanda. Sim, eu sou do tempo em que as crianças iam para a escola aos seis anos e só fiz um ano de infantil (o pré-escolar de hoje). Tenho ótimas recordações desses tempos. Uma delas é estarmos todos à volta da professora a tentar tirar-lhe as botas, como se estivessem muito apertadas e fosse muito difícil. Imagine-se: uma pessoa a inventar jogos, plasticinas, desenhos e a criança lembra-se de descalçar as botas à profe! Bom, mas se serve de consolo, também me lembro de gostar muito da plasticina. De ter hepatite e querer muuuuuito voltar para a escola. E lembro-me de muitos colegas. O Gonçalo, com quem ainda mantenho contacto. O Tomé, que reencontrei aos 16 anos numa discoteca. Demorei uns bons cinco minutos a juntar o nome à pessoa. A Carla Sofia, minha bff até aquele ano letivo terminar. A Margarida, que era uma chorona de primeira e entretanto se tornou numa brasa. Recordo-me do refeitório, da louça de plástico e de partir a cabeça naquela coisa de argolas de ferro (?!) que estava no meio do recreio porque me pus às cavalitas da Dália. Até do cheiro me lembro. A Dulce, minha amiga que agora é lá professora, diz que os antigos alunos que hoje têm lá os filhos acham que é o mesmo de sempre. Se me raptassem de olhos vendados e me levassem para a escola saberia exatamente onde estava. De que se lembrarão as minhas filhas?

Os R.E.M. acabaram

A dado ponto dos anos 90 fui uma grande, grande fã dos R.E.M. Tão fã que, poucos vídeos que aqui ponho no site, há pelo menos um desta banda. Eu gostava das músicas deles. Do Losing My Religion, claro, mas especialmente do It's the End of The World As We Know It e do Night Swimming. Gostava, e gosto. Mas agora está tudo diferente.

 

Eu ainda sou aquela miúda que dava os primeiros passos no mercado de trabalho e que depois do concerto do R.E.M se aproximou do Michael Stipe, sentado num sofá do Lux, para lhe perguntar se tinha escrito o Night Swimming por causa do Life After God do Douglas Coupland, embora já não leia tanta esse tipo de literatura tecnológica/industrial nem me apeteça quase nunca ler livros em inglês. Tinha muito medo de nunca encontrar um trabalho e tinha muito medo de ser infeliz na minha profissão. Nisso era bem parecida com toda a geração que hoje sai à rua a reclamar trabalho. Eu também queria trabalhar e achava normal que pagassem pouco a uma pessoa sem experiência. Lembro-me como a mim e a outras pessoas como eu nos chateavam os anúncios (já raríssimos) em que se pediam pessoas jovens com experiência. Como queriam que tivessemos experiência se nunca tinhamos trabalhado?

 

Ainda sou aquela miúda que tem medo de não encontrar trabalho (ou de perder o que tem) e que morre de medo de ser infeliz a trabalhar (e tenho os mesmos amigos com angústias parecidas só que com mais filhos e encargos).

 

Olho à minha volta e passaram 12 anos desde esse dia, o dia em que os R.E.M. vieram tocar a Portugal (tinha uma camisa tão feia nesse dia, lembro-me perfeitamente que a toilette me saiu completamente ao lado), mas já está tudo diferente.

 

Hoje de manhã, por exemplo, ouvi o Fórum da TSF e as pessoas a debaterem (sim, estavam a debater, quem dera que fosse uma discussão) se esta proposta de lei de flexibilizar o despedimento devia ou não ir para a frente. Se devemos ser despedidos porque de hoje para amanhã o nosso trabalho deixa de interessar ao nosso patrão que não tem qualquer obrigação connosco. De um lado diziam "é preciso trabalhar" (como se todos os empregados por conta de outrém fossem parasita e não existissem administrações perdulárias e nepotismo e corrupção). Do outro, "isso é anti-constitucional" (assim, tão simplesmente quanto isto e como se não precisássemos de encarar a crise porque a constituição não deixa). Sensatez nas relações laborais, pedia António Chora, do sindicato dos trabalhadores da Auto-Europa. Eu gostava disso. Mas, so far,  ainda é mais fácil dizer "sensatez nas relações laborais" do que pôr em prática. Sabemos o que vai acontecer: lança-se para o ar o mais dífícil e depois vamos todas atrás a tentar minorar os danos colaterais. Parece que é a isso que se chama "chegar ao consenso" -- como se essa possibilidade existisse.

 

Bom, mas é isto: o mundo como o conhecemos, como a minha geração o conheceu, já acabou. Os R.E.M tinham antecipado as mudanças (não se imaginava é que seriam tantas e tão violentas), posto o dedo na ferida quando falaram desse mundo global que só pensa em consumo, the bull and the bear are fighting their territory; world serves its own needs, listen to your heart bleed para quê continuar? Acabaram ontem, 31 anos depois. Faz sentido.

Onde é que começa o mundo? Abre o Google Earth e verás

Parece que foi ontem e já passaram dez anos. A tia Ana conduzia o velhinho Peugeot 107, dois lugares, matrícula JF, Avenida da Liberdade acima, vinda do INP onde eu tinha ido ter, depois da Atalanta e, posso não saber o que comi ontem, mas lembro-me de falarmos da divisão do mundo e de como não havia nada mais ilusório do que os planisférios,que punham Portugal (e Espanha) no centro de tudo. Eu, vê bem, imaginava que o preceito era cada um ter o seu mapa-mundi "a começar" no sítio onde morava. (Porque nessa altura acho que ainda não percebia que há gente sem pátria, sem uma terra de onde ser e que não faz e que não se é menos pessoas por isso.) Mas não é assim. Todos os planisférios do mundo começam na Europa porque houve o Tratado de Tordesilhas e nós mandávamos e pronto. É só política.



- Se fosse hoje não seria nada assim, disse ela.



E não é. Dez anos depois já não é. Não podíamos prever que os planisférios iam deixam de ser em papel e iam passar a estar no computador e que ia haver uma coisa totalmente nova (e radical) - o Google Earth - que ia revolucionar tudo. Quando é que nasceu? 2005, 2006?



A precisão da ferramenta impressiona, claro.  É o sextante do século XXI. Mas o que mais me impressionou no dia em que abri "aquilo" pela primeira vez, foi perceber que realmente a Ordem do mundo mudou. Agora começa nos Estados Unidos e até conseguimos ver um bocadinho do oceano Pacífico. Que o Tratado de Tordesilhas é história. Que não é por acaso que a primeira aplicação que a Microsoft quer desenvolvida no seu motor de busca, o Bing, são os mapas. 


 


Portanto, uma pessoa pode ter uma União Europeia, pode "inventar" um presidente do Conselho Europeu, uma ministra dos Negócios Estrangeiros, pode ter um presidente da Comissão Europeia, pode ir a Copenhaga mandar postas de pescada sobre o clima, pode invocar-se a antiguidade, a tradição, mil anos de histórias, de fronteiras. Acabou. O mundo começa em San Francisco, como antes começou em Belém. (E já é uma consolação que o nome da cidade se entenda em português!)


 

Facebook

Acho que tenho telemóvel há 11 anos, ainda tive discos em vinil e gravei em cassetes onde ficava a voz dos locutores de rádio porque eu chegava com segundos de atraso ao botão do stop. Achava nessa altura que seria bom inventarem um suporte (embora eu nessa altura não lhe chamasse assim, era mais 'uma coisa') que me permitisso ouvir em repeat as músicas de que gostava. E então apareceram os CD e aquilo parecia o máximo! E que ia ser sempre assim. Agora já mal os compramos e nas lojas o espaço que lhes é dedicado diminui na exacta proporção em que aumenta o que se destina a aparelhos tecnológicos - mp3, consolas, televisões que só lhes falta aquecer comida (lá chegaremos!) - e tudo se passa 'no ar'. Não há suportes, não se ocupa espaço, o que é uma vitória porque assim as nossas casas não têm de ser cada vez maiores e o dinheiro que gastamos a comprá-las e em estantes e armários para arrumar as nossas tralhas pode ser direccionado para coisas mais utéis como viajar e conhecer o mundo.


 


Viajar era uma coisa complicada há 10 anos, mais ainda há 20. Não se andava por aí só porque sim. Bem, com o teu avô sim, mas porque ele é especial. Graças a ele, viajei para mais sítios na adolescência do que na minha vida de adulta. Vi Miami quando ainda não era fashion e experimentei a interactividade antes de lhe poder dar um nome. Toquei em carros que andaram na lua e vi comida liofilizada (ou lá como se diga). Ele diz "quando era pequeno não sabia que existiam aviões quanto mais que ia andar num". Eu nunca pensei que íamos poder mandar mensagens uns para os outros à velocidade de um clique. Ou ter um blogue que actualizo em qualquer parte do mundo e onde posso reunir pedacinhos da nossa vida para que vejas como isto funciona agora. A Internet mudou tudo (e é por isso que estou a escrever este post).


 


A primeira vez que me liguei à Internet foi em 1996. Tive um mail.telepac.pt e a conta do hotmail é de 1997 ou 1998 e ainda fala francês (foi criada durante o Erasmus). É preciso estarmos sempre a actualizar as nossas ferramentas para navegar aqui dentro e a última grande novidade na nossa vida chama-se Facebook. Para que vejas como tenho razão, há pouco mais de um ano, quando curtia os primeiros meses da tua existência, era o hi5 que me deixava fascinada. Continuo de queixo caído. Entre uma e outra rede social (bom conceito!) permitem aquilo que eu pensava perdido para sempre com a chegada dos telemóveis: voltamos a estar todos em contacto. Basta saber os nomes.


Por mais que a tecnologia avance, continuamos (mais do que nunca) a precisar uns dos outros. O que também é engraçado, porque a dada altura, no início dos anos 00 andava toda a gente a perguntar-se se as tecnologias da informação não nos iam afastar cada vez mais uns dos outros. Não estão, acho eu. Só nos estão a fazer encontrar de outra forma. Respiro de alívio. Já pensava assim em 2000. E, valha a verdade, se hoje estou com o papá isso deve-se em parte ao messenger que permitiu que duas pessoas que só se tinham visto uma vez pudessem conhecer-se melhor (mas isso é uma conversa para mais tarde).

 



Dantes quando queríamos falar com alguém precisávamos de ter o telefone fixo, esperar que do outro lado atendessem e que a pessoa estivesse em casa. Tantos passos, consegues imaginar? Agora cada um tem um número, podemos mandar sms para transmitir recados rápidos ou mandar mensagens românticas a toda a hora (tem feito muito pelo amor como podes ver). Precisávamos de listas telefónicas e até de 118 (agora chama-se 1820) para saber se existia registo no nome das pessoas que procurávamos. Eu sou desse tempo ainda, mas já me estou a habituar à vida nova.


 


Há duas semanas precisei de contactar uma pessoa. Era domingo, só tinha o nome da empresa, nada de telefones móveis e muita vontade de fazer o trabalho. Alguém (mais novo, lá está) disse-me: "já viste no Facebook?". Não, não me tinha ocorrido, porque eu ainda vejo isto como brincadeira, mas não é só para isso que serve. Procurei a pessoa, pedi para me aceitar como amiga, deixei o meu número de telemóvel (possível, porque não lhe estou a dar quaisquer dados pessoais ou a dizer onde moro) e duas horas depois o telefone tocou. Lição de vida!


 


O FB (e as redes sociais) mudaram tanto a nossa vida que quando dois adolescentes se conhecem já não trocam telefones, como contava um executivo da HP, Brian Levy, numa conferência em que estive esta semana, falando da sua filha. Quando se chega a casa procura-se. E checka-se a ver se interessa. "Às vezes nem precisas do nome, basta ires ver aos amigos em comum", disse-me o meu colega LFR, que me leva nove anos de diferença (para menos) e está na fase borguista.


 


Brian Levy disse outra coisa que me deixou a pensar: o que conseguiram as novas tecnologias e os conteúdos com que as alimentamos, foi mudar o tempo e o espaço. São as viagens no tempo que sempre pensámos que eram impossíveis. A matéria não viaja no tempo, mas a informação que ela contém sim. A pessoa que sou aqui pode ser replicada do outro lado do mundo em questão de horas. Posso escrever este texto aqui, na nossa casa, no trabalho, de férias ou onde me apeteça. Ou mandar fotos tuas ao papá em questão de minutos para qualquer parte do globo...


 


E isto é só o princípio.


 


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