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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Às vezes, a vida é assim: um documentário ou série do Netflix atrás de outro

Estive uma semana inteira a pensar na vida e no que não sabemos depois de ver o documentário sobre Michael Jackson, Leaving Neverland (HBO).

Escrevi mentalmente tudo o que queria dizer - de como nem sempre o abuso implica violência e que isso é o que torna tudo mais retorcido; que aquelas crianças foram seduzidas e que isso as faz sentir culpa; como esse caldo as faz ficar em silêncio.

Nessa semana, muitas pessoas diziam-me: "Mas não sabias já?". E bem, sim, eu sabia que ele tinha ido a tribunal acusado de abusos sexuais e que tinha sido ilibado. Já nem me lembrava que tinha havia um acordo judicial de milhões no primeiro caso. Mas não se trata disso.

O que Leaving Neverland me trouxe de novo foi perceber que as crianças gostavam de Michael Jackson, que as mentiras que disseram foram por gostarem de Michael Jackson.

Leaving Neverlando

***

Depois, ela começou a falar-me no documentário sobre o desaparecimento de Madeleine McCann.

E nessa semana não consegui mais parar de pensar na criança e nos pais. Há, logo, aquele detalhe que é como um soco: os pais nunca lhe chamam Maddie. Ela é a Madeleine. Começamos logo isto enganados.

O que se passa com este caso é que parece tão simples que qualquer pessoa pode ter na sua mão a chave do mistério.

Por outro lado, profissionais vários já estiveram envolvidos sem nenhum êxito. Ponho até a possibilidade de esta menina ter saído pelo seu pé, ter caído e ter morrido sem que ninguém se tenha apercebido.

Do que li, e não foi publicada assim tanta coisa em torno do documentário (já que ainda por cima a produtora não o promoveu), foi bastante criticado no Reino Unido por não trazer nenhuma novidade.

Os pais não quiseram falar por considerarem que a sua participação não acrescentaria nada enquanto há uma investigação em curso.

O que "O Desaparecimento de Madeleine McCann" faz é reconstruir a história pelas várias teorias que foram sendo investigadas até aos dias de hoje.

Os pais podem ser culpados (era o que eu pensava antes de começar a ver), mas também podem não ser. Há tantas possibilidade de esta menina ter sido raptada como de ter sido morta pelos pais.

Talvez não tenha novidades para muitas pessoas, mas não me posso incluir nesse grupo tão bem informado.

Eu descobri imensas pequenas coisas:

- Como a imprensa prejudicou as investigações, por um lado; e como foi manipulada, por outro. É como se me espetassem um punhal.

- Como a investigação foi mal conduzida. Há a atrapalhação inicial, mas essa pode acontecer a qualquer polícia do mundo. Devíamos ser mais compreensivos em relação a isto, tendo em conta que quando não há certezas, é preciso apostar numa hipótese e segui-la.

- Já não se pode ser tão compreensivo com a necessidade de encontrar um culpado à força só para apresentar resultados. A dada altura, percebe-se, a PJ já não está à procura de Madeleine, está a querer salvar a sua pele. E, por amor de Deus, eram apenas críticas. Muitas delas justificadas.

Parte do processo está online. É só ir ver o que foi perguntado às inúmeras testemunhas do caso. É só ver que entre 3 e 6 de maio recolheram depoimentos de mais de 100 pessoas. Que em tão pouco tempo é perfeitamente possível ter falhado alguma coisa. Que se devia ter voltado a falar com todas estas pessoas e não apenas com algumas.  

- Finalmente, os pais, e quem os aconselhou (o que não fica claro para mim), na sua tentativa de manter a atenão sobre o desaparecimento da filha acabaram por banalizar a criança, as buscas, o caso. Tornou-se uma ficção baseada em factos reais que era preciso alimentar. Essa parte também prejudicou a investigação.

Debatemos bastante o assunto no jornal, mas não chegámos a nenhuma conclusão. E a criança continua desaparecida quase 12 anos depois. Tira o ar só de pensar. Não devíamos parar de procurar.

Madeleine McCann

***

Entretanto, enquanto andava nisto, o António entretinha-se com After Life, a série da Netflix escrita e realizada pelo Ricky Gervais, que é também o protagonista. Explico-a como ele me explicou: a mulher de um homem morre e deixa-lhe um vídeo com indicações para a vida. Ele sente-me miserável e infeliz, passo-lhe o pior pela cabeça.

After Life, de Ricky Gervais, no Netflix

Para quem vê, é triste e divertido em partes iguais.

Este sábado de manhã, quando terminei, a soluçar, o António não teve a tentação de me gozar. Ele sabe que aquele último episódio vale bem aquelas lágrimas. É verdade e quase todos os dias esquecemos, são as coisas mais banais e pequenas  - uma camisa passada a ferro, a louça lavada ou uma jarra com flores - que nos levam para a frente. São muito grandes, as coisas pequenas.

***

Próxima? Aceito sugestões.

 

Rumo aos 42. Dia 1. Call for entries

Delpozo_03.jpg

Há três anos (o tempo passa!) abri um #rumo aos 39, uma espécie de aniversário prolongado que consiste em fazer uma coisa boa todos os dias até à data propriamente dita - 26 de junho, para aqueles que ainda não informei. Este ano vou retomar esta magnífica tradição, abrindo as ideias à comunidade (e a todos os que queiram conviver).

Hoje tenho um almoço, há uma nítida sobreposição de eventos no dia 12, mas, tirando isto, está tudo em aberto. Aceito convites para todo o tipo de confraternizações e/ou formas de celebrar a vida.

|Foto: Maria Svarbova|

Coisas bonitas: The Happy Show

Estas são as minhas filhas, três anjos, cinco minutos depois de entrar em The Happy Show, a exposição do designer austríaco Stefan Sagmeister que está na Central Tejo. Sentaram-se de livre e espontânea vontade a ver o filme. E eu, quando vi a cena, só tive tempo de sacar do telefone e fazer a foto.

IMG_8529.JPG

O que, na verdade, devia ser documentado eram os 50 minutos que precederam esta imagem, quando esta mãe usou todos os truques possíveis para evitar palavras como museu ou exposição. E nunca, em circunstância alguma, "vamos ao MAAT'. Antes: Querem ir ao parque? Claro que vamos ao parque. Está a chuviscar, mas que importa? Andámos meia hora para elas constatarem que não podiam usar os escorregas porque estava tudo molhado. E quando já estavam cansadas (e eu!), convidei-as a entrar no edifício do antigo museu da eletricidade, onde tinha "uma coisa de trabalho para ver", para que pudessem descansar. 

IMG_8539.JPGEis, aqui, a foto definitiva. Percebe-se nelas, nas bocas cheias de pastilha elástica amarela e nas poses de zombie (é mesmo isso) que estavam muito contrariadas.

Às vezes, parece que a melhor maneira de educar as crianças é... bem... não quero dizer enganá-las, mas manipulá-las, vá.

Quanto à exposição, vale bem a visita. De cabeça aberta e, preferencialmente, sem crianças. Para ir pensando nas coisas que Stefan Sagmeister diz e escreve.

MAAT_012.jpg

Por exemplo, ele faz pausas de um ano, de cinco em cinco anos, e farta-se de falar sobre isso.

 

 

 

 

Coisas bonitas: uma voz de velho a dizer coisas novas

Apanhou-me desprevenida. Eu ia a caminho das Torres de Lisboa, sem bateria, sem podcasts, e deixei-me enredar na voz de velho que dizia coisas de gente nova. Falava de música, de palavras e o entrevistador - António Macedo - sabia tudo sobre ele. Havia outra coisa: ele falava bem, um leque enorme de palavras, nada obscuras, apenas pouco usadas. Nunca me canso de pessoas assim. Falava do encontro musical com Nuno Rafael, a Márcia. Era um homem velho, sim, mas dizia coisas novas. E tinha de ser alguém que todos conhecemos.

Mas só no fim daquilo tudo -- 10 minutos  de caminho -- é que percebi. Era o Sérgio Godinho.

Sérgio Godinho tem um disco novo e eu comecei a gostar dele mesmo antes de ouvir as canções. Eu não ia procurar nada sobre ele se não tivesse vindo ter comigo. E ainda bem que veio. Agora sou eu que não me canso de o procurar. 

 

 

(Adoro este vídeo)

Coisas giras que os meus amigos fazem... Tipo, livros!

O primeiro jornal que comprei por iniciativa própria foi o "Independente". Tinha um artigo sobre os pivôs da televisão, assunto que aos 17 anos já me interessava muito. Lembro-me perfeitamente da capa dessa revista. Chamava-se "Talking Heads". Quando folheei aquelas páginas foi como se abrisse perante mim um mundo novo. Eu pegava no jornal semana após semana, lia as coisas do Carlos Quevedo e pensava "Mas que país é este de que ele fala?". Ele e os outros. Nunca mais tive essa sensação com nenhum jornal e comprei-o religiosamente todas as sextas-feiras, mesmo quando o folheava uma vez e outra e já não encontrava nada que achasse que merecia ser lido. Como tudo, o interesse desvaneceu-se, um dia rendi-me ao "Expresso", depois a outros jornais mas mantive guardadas durante anos as revistas do "Independente". Uma delas, com uma reportagem de Laurinda Alves sobre um grupo de pescadores que perdeu a vida num naufrágio em pleno Tejo, foi resgatada, anos depois, quando o "Tarde Demais", de José Nascimento, estreou. O filme era sobre esta história. Portanto, tenho um cantinho bem grande guardado no meu coração para o "Independente".

E é sobre o jornal que vai sair um livro escrito por um amigo e editado pela Matéria Prima. O Filipe (Santos Costa), aquele tipo que escreve lindamente sobre política no "Expresso" aos sábados, viaja até aos anos polémicos do "Indy" (em parceria com a Liliana Valente) numa altura em que o seu diretor é vice-primeiro ministro do País. A prosa chama-se "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos" e o lançamento é quinta-feira, às 18.30, na Fnac do Chiado. João Miguel Tavares e Ricardo Araújo Pereira fazem a apresentação, o que também é sempre de realçar porque pode dar-se o caso de darem algum espetáculo.

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Ainda da série "coisas giras que fazem os meus amigos", a Catarina Guerreiro, que trabalha no "Sol" e conheci no 24horas (vou sempre escrever o nome do defunto assim: junto e em itálico), também vai lançar um livro. Chama-se "O Fim dos Segredos" (Esfera dos Livros) e fala da Opus Dei e da Maçonaria. Tremam, boas almas! É apresentado no dia 18 de novembro, também na Fnac do Chiado, também às 18.30. Boa escolha, a propósito: a seguir podemos dar um salto à Sephora.

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 ... E outros dois livros que estão no mercado e podiar estar em nossa casa (não achas, querido esposo?)

"A Minha Europa", o novo livro de Maria Filomena Mónica, com fotos do arquivo pessoal (tiradas por António Barreto) e "Lembras-te Disto?", de Pedro Marta Santos e Luís Alegre. Vai-se a ver e pode ser uma desilusão, que isto de cavalgar o vintage e a infância é chão que já deu uvas, mas, bom, uma pessoa deve dar uma chance. A mim, basta que me falem em perneiras, trinaranjus e Cindy Lauper. Também são da Esfera dos Livros. Não porque tenha algum contrato com eles, mas porque me mandam mails e costumo gostar do que editam.

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Coisas bonitas: como as sapatilhas de ballet são feitas

Esta notícia sobre o bailarino português Marcelino Sambé levou-me aos bastidores do departamento de sapatilhas do Royal Ballet de Londres, descobrindo, primeiro que custam uma fortuna e são feitos à mão, que existe uma pessoa que se ocupa de tal trabalho e que num mesmo espetáculo uma bailarina pode usar três pares.

PS: É este ano que vou ver um bailado com a Teresinha.

Coisas bonitas: Capicua


Capicua, "Vayorken"


Ando a ouvir isto na rádio há que tempos e não sabia o que era. Descobri no fim-de-semana a adorável Capicua, senhora capaz de fazer música a partir de tópicos da sociologia (diz que é sociologa ela própria), e autora deste 'Vayorken', que não é mais do que a palavra que usava em pequena para se referir a nova Iorque (obrigada, dr. Google). Gostei. Gosto. Está em repeat.

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