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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Se o que incomoda na série "Euphoria" é a cena do balneário, temos um problema

Euphoria é a série que me faz querer que seja segunda-feira, o dia em que fica disponível um novo episódio. 

(Está na HBO, que tem esta ideia peregrina de ir lançando os episódios uma vez por semana, uma maneira completamente retro de ver programas que gostamos, mas, ao mesmo tempo, libertadora porque eu não ia dormir se soubesse que tinha mais uma capítulo para ver a seguir.)

Euphoria-Teaser-HBO.png

É uma história com adolescentes, co-produzida pelo músico Drake, que estreou a 16 de junho, e fez títulos porque tem uma cena no segundo episódio em que aparecem uns 30 pénis num balneário. Está no quinto episódio e ando desde então para dizer isto: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, então temos um problema. 

Porque Euphoria é sobre identidade de género e identidade sexual - o que é ser homossexual, lésbica, trans e como se vivem estas questões no pátio da escola. É sobre sexo, abusos sexuais, não-ditos, auto-estima, pornografia, pornografia online, auto-mutilação, ansiedade e depressão adolescente. E  mais sexo. Sexo entre adultos e teenagers. Sexo como afirmação. E amor. E muitas muitas drogas. Na verdade, começa assim. Quando Rue, a personagem principal, regressa de um verão passado na reabilitação após uma overdose e entra no 11.º ano. 

E a questão não é o que se conta, é como se conta. Uma coisa é elencar os assuntos, outra coisa é como são apresentados - há uma certa subtileza na maneira como Rue, a narradora, os põe, que constrata com a brutalidade das imagens. Coisas que teríamos visto em filmes para maiores de 18, agora estão numa série de televisão protagonizada por adolescentes (que, atenção, é para maiores de 16). 

Agora que já dei o enquadramento, vou voltar a repetir: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, temos um problema. Há cenas em Euphoria que fazem a série Por 13 Razões parecer fofinha (e não é). Portanto, apesar de ser com adolescentes, não é para adolescentes. Ou, pelo menos, não é a típica televisão para nos fazer sentir contentes e felizes quando somos teenagers. Se é para alguém ficar contente são os adultos. Por já terem passado aquela etapa da vida. Como escreve o crítico da Indiewire, e vou fazer dele as minhas palavras, Euphoria  "é uma série que nunca viu uma história triste que não possa piorar. Há cenas que gostávamos de nunca ter visto, quanto mais pensar". Mas, uma vez vistas, pensamos mesmo nelas. 

E não podemos parar de pensar, por causa da maneira como o autor, Sam Levinson, as conta a partir do format original (de Israel), e que, importa dizer, têm algo de biográfico (Levinson teve problemas com drogas sobre os quais fala abertamente) e, julgo eu, são uma maneira de tirar aquilo tudo do sistema (não sei se tirou os químicos do corpo, mas como terapia isto é do melhor).

Por exemplo, nudes entre adolescentes. Rue põe os pontos nos is. Parem de dizer que não se pode fazer, porque toda a gente o faz. Aprendamos a viver com isso. 

Os problemas com drogas são abordados sem moralidade. Ou pelo menos sem aquela moralidade pais-filhos de "não faças isso, prejudica-te". São drogas, existem, são usadas. Claro que eu sou adulta, vejo o problema. Mas como espectadora também empatizo com a personagem, percebo por que razão o faz. Rue está fucked up (f***** dos cornos, mesmo), mas estou a torcer por ela. E isso, como escreve também a Indiewire, tem que ver com a maneira como a atriz Zendaya o faz. Ela é sempre intensa, e deve ser da maneira como fala, um tom arrastado, uma dor,  um "não quero saber". Está muito longe daquela KC, Agente Secreta da série do Disney Channel, que a tornou conhecida. 

Como Miley Cirus depois de Hannah Montana ou Britney Spears depois do Mickey Mouse Club, Zendaya está a mostrar que é capaz de sair da fantasia. Em certo sentido, é o mesmo que está a fazer o ator Jacob Elordi, o galã de The Kissing Booth (Netflix, 2018), o Can't Buy Me Love da geração das minhas filhas, fugindo dos temas açucarados e entrando na piscina dos grandes. Não sei quão intencional é este casting, mas isso também me interessa e me faz gostar mais da série. Por exemplo, a personagem trans é interpretada por uma modelo trans - Hunter Schafer - que diz que a série é boa porque não se foca na transição, mas nos outros assuntos ("ser trans é muito mais do que isso"). E se esses detalhes acrescentam interesse, não há nada como o universo que ele cria. 

A escuridão, a neblina, os passeios de bicicleta que me lembram sempre o E.T., a edição dos planos... Exatamente como prometia o trailer, mas muito melhor. 

 

 

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