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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

O Bob Dylan

É. É um choque. Um escritor de canções ganhar um Nobel da Literatura? Importa-se de repetir? Surpreendeu mais do que se Bono Vox levasse o da Paz. E podia. Ainda pode. Mas, pelo menos desta vez, a gente sabe de quem se fala. Sabe quem é, mesmo conhecendo pouco, como é o meu caso. Felizmente, nas últimas 24 horas fizemos um curso intensivo de Dylanismo. 

Fiquei a saber que afinal se chama Robert Zimmerman e o Thomas foi buscá-lo ao Dylan Thomas, o que torna menos parva aquela comparação que é feita no filme (filminho) Mentes Perigosas (aquele em que a Michelle Pfeiffer é uma 'stora' fixe que resgate uma bando de pré-delinquentes da marginalidade à base de literatura).

Tem 75 anos. Já tem 75 anos. Pensei que ia nos 50 e poucos, mas é aquela ilusão... O tempo passou também por ele. 

Faz muito mais parte das nossas memórias do que podia imaginar. Por exemplo, é ele o autor de "Knockin' on heaven's door", descoberta via Guns 'N Roses nos anos 90. 

Percebi que se tem fartado de escrever, e publicar. Há muita obra editada por aí, até traduzida. Até um livro de canções editado pela Relógio d' Água, que é aquela editora que está a ter um ano de glória (são os mesmos que editam Elena Ferrante). 

É refrescante saber que o podemos ouvir imediatamente no Spotify ou no Youtube e que não temos de esperar que as editoras ponham de novo os livros em circulação. Vale a pena lembrar que nos últimos anos, o vencedor tinha sido editado há mil anos, já não havia livros em circulação ou não estava sequer traduzido. Só para vincar que isto da literatura é muito mais aleatório do que possamos imaginar. Autores considerados incontornáveis pela Academia Sueca não estavam disponíveis sequer para o mais erudito dos eruditos portugueses.

Depois, há que ver: já ganhou uma escritora de contos (Alice Munro), já ganhou uma jornalista (desejo muito lê-la e não vou repetir no nome) e agora um escritor de canções. É a diversificação.

Sou sensível ao que dizia ontem o escritor Bruno Vieira Amaral: outro escritor de canções de língua não inglesa poderia ganhar? Uma colega diz que sim. Jacques Brel podia ganhar. Nunca saberemos. 

Há mais críticas ao prémio: seria mesmo necessário dar a um músico que é já sobejamente reconhecido? Bom, e quando não é (já aconteceu) torcemos o nariz às "descobertas" da Academia Sueca. 

Não há volta a dar: o prémio está entregue e a escolha, criticável como tudo, é defensável, como se percebe nesta tradução que a editora disponibilizou ontem. 

Como Uma Pedra a Rolar

Era uma vez tu vestias-te tão bem
Atiravas um cêntimo aos mendigos no teu apogeu, não era?
As pessoas avisavam-te, diziam: «Cuidado boneca, olha que vais cair»
Pensavas que te estavam todos a gozar
Costumavas rir de
Toda a gente que andava por ali
Agora não falas tão alto
Agora não pareces tão orgulhosa
Por teres de andar a cravar a próxima refeição.

Que tal é a sensação
Que tal é a sensação
De se estar sem lar
Como um perfeito estranho
Como uma pedra a rolar?

Andaste na melhor escola, tudo bem, Miss Solitária
Mas sabes que lá apenas te espremiam
E nunca ninguém te ensinou a viver na rua
E agora descobres que vais ter de te habituar a isso
Dizias que jamais te comprometerias
Com o vagabundo mistério, mas agora dás-te conta
Que ele não vende nenhuns álibis
Enquanto pasmas para o vácuo dos seus olhos
E lhe perguntas queres fazer negócio?

Que tal é a sensação
Que tal é a sensação
De se estar por sua conta
Sem um caminho para casa
Como um perfeito estranho
Como uma pedra a rolar?

Nunca te viraste para ver os cenhos franzidos dos malabaristas e dos palhaços
Quando todos eles se chegavam e faziam habilidades para ti
Nunca percebeste que isso não é nada bom
Não devias deixar os outros divertirem-se por ti
Costumavas montar o cavalo cromado com o teu diplomata
Que trazia ao ombro um gato siamês
Não é duro descobrires que
Ele realmente não era o máximo
Depois de te levar tudo quanto pôde roubar

Que tal é a sensação
Que tal é a sensação
De se estar por sua conta
Sem um caminho para casa
Como um perfeito estranho
Como uma pedra a rolar?

Princesa no campanário e todas as pessoas bonitas
Bebem, pensando que têm o sucesso garantido
Trocando toda a espécie de prendas e coisas preciosas
Mas era melhor que fanasses o teu anel de diamantes, era melhor que
o pusesses no prego, querida
Costumavas ficar tão divertida
Com o Napoleão andrajoso e a linguagem que ele usava
Vai ter com ele agora, ele chama-te, não podes recusar
Quando não se tem nada, não se tem nada a perder
Agora és invisível, não tens segredos a esconder

Que tal é a sensação
Que tal é a sensação
De se estar por sua conta
Sem um caminho para casa
Como um perfeito estranho
Como uma pedra a rolar?

--

Em música é assim, e é muito bonita. Nunca esquecer - Dylan é belo. 

 

 

 

 

 

 

 

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