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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Há um mundo maravilhoso lá fora

No final de fevereiro fui de Lisboa ao Minho num autocarro cheio de arquitetos revisitar os projetos do arquiteto Fernando Távora. Távora, para quem está a leste ou não se preocupa muito com estas coisas, foi professor na faculdade de Belas Artes do Porto, deu aulas a Álvaro Siza e convidou-o para trabalhar com ele no seu atelier, como, anos mais tarde, este fez com o jovem Eduardo Souto de Moura. Siza e Souto Moura venceram o mais importante prémio de arquitetura que existe no planeta Terra nos dias que correm. O Pritzker. Sempre que escrevo Pritzker sinto um orgulho enorme. Este é o país que nunca conseguiu ter uma Miss Universo ou vencer um Festival da Eurovisão mas já conseguiu que duas pessoas fossem eleitas como aquelas que mais diferença fazem na arquitetura mundial. O que eles conceberam, consideraram os jurados deste prémio, é fundador. Marca um antes e um depois na maneira como vivemos. Sinto um orgulho enorme em ser portuguesa nestas alturas. Já sentia, e senti ainda mais à medida que ia do Porto para Ofir, de Ofir para Viana do Castelo, de Viana do Castelo para Ponte de Lima, de Ponte de Lima para Salvador de Briteiros (onde é que isso fica mesmo?), encontrando as raízes de uma maneira de fazer que inspirou dezenas de arquitetos no século XX e ainda no século XXI. É esmagador entrar na Quinta da Conceição, em Matosinhos, e ver (ver mesmo, com olhos de ver) como se podem juntar as ideias de Corbusier, um francês, num aparentemente simples pavilhão de ténis, numa das primeiras piscinas de Siza Vieira, no uso de um claustro com vários séculos e num jardim magnífico de que podemos disfrutar sem pagar um cêntimo. Isto existe em Portugal, e quando digo que este trabalho mudou a minha vida, digo-o porque este é o tipo de coisas que quero que as minhas filhas conheçam e saibam sobre o seu país e o mundo onde vivem.

***

Este trabalho mudou a minha vida também porque me enche a cabeça de ideias e História, me explica que as coisas são como são, embora o sejam também por alguma razão. Há sempre um contexto que nos explica o mundo onde estamos e, como bem dizem os bons professores que temos, quanto mais conhecermos do mundo, melhor o manejamos, melhores decisões tomamos. É a única atitude política que me interessa nos dias que correm. Saber o suficiente para tomar decisões conscientes. Podem ser boas ou más, mas são tomadas em consciência. Uma consciência que só nos pode levar no caminho do que está certo.

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A arquitetura é uma arte da paciência e nestes dias em que falamos tanto de como Lisboa pode ser destruída na sua autenticidade porque não estamos a saber combinar o interesse de quem vem de fora com a oferta que temos, percebo, a 100%, como não podemos simplesmente "deixar andar". Uma cidade carece de planeamento. Talvez não muito planeamento, mas algum planeamento, porque não podemos mudar ruas a toda a hora, não podemos refazer o Cais do Sodré todos os anos, não podemos inventar campus universitários de hoje para amanhã. Uma cidade é de todos, e os arquitetos têm sobre os seus ombros a responsabilidade de reunir as necessidades de todos e torná-las vivas. É um trabalho magnífico, invejo-os. Podem realmente mudar a vida de um país inteiro e fazem-no, a maior parte das vezes de maneira anónima, altruísta. Távora fê-lo de imensas maneiras. No seu trabalho, nas suas aulas (muitíssimo), no seu legado riquíssimo e, estranhamente, pouco valorizado.

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Estou muito chata com isto, porque pensei muito no muito mundo que encerram todas as coisas à nossa volta. As coisas grandes, como os Jerónimos, mas também as coisas pequenas. Porque é que as nossas casas são como são? Porque é que comemos com garfos e não com pauzinhos? É essa riqueza que gostaria que as minhas filhas compreendessem. Não sei se lhes consigo explicar, mas é isso que quero. Quero fazer a diferença nas suas vidas.

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Agora diretamente para vocês, minhas filhas que um dia poderão ler isto com olhos adultos, quero mostrar-vos as únicas coisas que realmente importam -- a cultura e a história. Quero que pisem a rua conscientes do muito que andámos para aqui chegar e que tudo tem um porquê. Citando a Cláudia Vieira, que tanto me ajudou ao longo dos anos a construir este blogue: "Não se pode fazer comunicação sem conhecimento, sem muita cultura geral. Algo que sempre guardei do meu professor de criatividade e história da publicidade". Ela di-lo para o seu trabalho, eu acho que vale para tudo. E faz-me sentido falar dela, porque esse sempre foi o propósito deste blogue (mesmo que às vezes não pareça). Ser um gabinete de curiosidades para o vosso mundo -- o mundo de casa e das vossas infinitas gracinhas e conquistas, e o mundo grande de lá fora. Já passei a fase das fraldas. Hoje, a minha interrogação como educadora é esta: como fazer do conhecimento algo muito apetecível? Como dizer-vos que todas as experiências, de aprender a andar de bicicleta a ver um episódio da "Princesa Sofia" ou apresentar uma aula sobre o cavalo marinho (como a Madalena fez na segunda-feira) são fragmentos de uma história maior que vos servirá tanto no futuro como saber escrever, falar inglês ou fazer contas de dividir.

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À falta de outros instrumentos, deixo o link para o texto sobre o Fernando Távora e uma fotografia do fotojornalista Leonardo Negrão (Global Imagens). Uma foto das escadas que o arquiteto criou para o Instituto Politécnico de Viana do Castelo. São ambas (a foto e a obra arquitetónica) poesia e sapiência. Anos de experiência, viagens e trabalho. Como é bom ser pessoa e poder, com o nosso cérebro, fazer estas coisas.

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