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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Estou a ler um diário e a autora não sabe

Vagueando pelo Rio de Janeiro, avenida Rio Branco acima, a caminho da centenária e afrancesada confeitaria Colombo, para um dissonante chá-e-torradas em clima tropical, parei na livraria Travessa e encontrei os Diários de Susan Sontag (1947-1963).

cia_letras_diarios_1947.jpg

 

Desde que me cruzei com o seu nome, e há ter sido na faculdade ou pouco depois, que me interesso por ela. O que escreve é denso e muito difícil, mas todas as mulheres intelectuais exercem fascínio sobre mim. Tratando-se de Diários achei que seria um texto fácil. E é. Mas o primeiro balde de água fria leva-se logo no prefácio.

Não existe completa certeza que a senhora tenha entregue os diários para serem lidos e uma pessoa fica desconfortável imaginando que está a meter o bedelho onde não foi chamado. "A decisão de publicar e a seleção foram apenas minhas", desvenda o filho, David Rieff, logo nas primeiras páginas. Pelo meio explica que a mãe, doente, lhe perguntou se sabia onde estavam os "cadernos". Esta "conversa", vamos chamar-lhe assim para facilitar, faz presumir que ela queria que os tais cadernos, mais de 100, que estavam no closet da escritora, fossem tratados como tudo o resto. 

Tudo o resto são os papéis de Susan Sontag, que ela escreveu e juntou, o seu arquivo pessoal, entregue por ela, em vida (e relativamente saudável), à Universidade da Califórnia. Mas como justificar a publicação destes textos? A entrega do seu espólio foi feita sem restrições. Qualquer pessoa pode consultar. Se não fosse o filho outra pessoa o faria. Ou não. Poderia dar-se o caso de em vez de terem começado a ser publicados a partir de 2009 (cinco anos após a sua morte), ninguém os tivesse compilado e tratado, ficando assim dependentes dos humores e interesses dos investigadores. Assim sendo, e já que o filho decidiu ter este trabalho e uma vez que já tinha na mão o livro, decidi então que estava justificada a coscuvilhice.

2014_0910_webimages_11_sontag.jpg

Dos seus arquivos

Susan Sontag começou a escrever estes cadernos na adolescência, 14 anos, e embora ainda esteja a ler, posso garantir são as entradas que faz nesta idade as que mais me surpreendem. Estamos nos anos 40 e ela fala com tal liberdade sobre a sua sexualidade. Já me surpreenderia se o fizesse em relação a homens, mas em relação a mulheres? Ela não tinha medo que a mãe lesse os diários?

E depois o que é realmente surpreendente no livro: como ela tem a cabeça tão bem mobilada tão nova. Aos 16 anos já tinha lido mais livros do que eu com 40. Aponta o que quer ler, a música clássica (muita música clássica) que ouve. Ao mesmo tempo, e ainda não li metade (tem sido demorado), tem muita graça ver as interrogações de uma jovem que imagina que pode ir embora sem mais, porque está irritada com os pais. Ou que se angustia com a possibilidade de vir a ser apenas uma professora universitária, achando que a academia não lhe pode dar nada que não faça sozinha. Igualzinha a todos os adolescentes.

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