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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Descobri a casa dos meus sonhos...

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Localização ideal, o aspeto que gosto, piscina, afastada da estrada q.b., garagem para seis carros, elevador, vedação, terreno de 14 mil metros quadrados, lareira, churrasco e etc. Nem o preço -- 880 mil euros -- me demoveu. A casa perfeita tinha de ser cara, não é?

Demos voltas à cabeça a tentar descobrir onde seria aquela maravilha. E depois, quase como se fosse um sinal, dei de caras com ela nas minhas corridas. O aspeto é ainda melhor do que nas fotos. Simplesmente ideal. Uma vista espectacular para o vale, com o mar ao fundo. Era como estar no meu quarto em casa dos meus pais mas mais perto.

Depois li melhor.

A casa perfeita tem três quartos. Aliás, apenas três quartos. Dois são suites, um tem casa de banho partilhada. Foi um balde de água fria, seguido de revolta: que tipo de casa que custa 880 mil euros tem apenas três quartos? E porque raios dois têm casas de banho e o outro tem de partilhar o WC. E, já agora, partilha com quem? Não é que estivesse (pudesse) fazer uma proposta pela casa mas sonhar não custa. Fiquei tão lixada como se tivesse assinado a escritura.

E como de tudo se pode congeminar uma teoria, concluí que as casas, como tudo, só mostram o que somos. Não foi por falta de dinheiro que a casa não ficou maior. Uma das suites tem 60 metros quadrados. Apetece-me pôr aqui três pontos de exclamação. Aliás, vou pôr: 60 metros quadrados!!! Tem o tamanho de um apartamento. Não tenho nada contra as divisões grandes, mas é preciso que ande tudo em sintonia. De que tamanho tem de ser a sala para andar ao ritmo do quarto? Isso para não dizer que no mesmo espaço se poderiam fazer três quartos com 20 metros quadrados ou, se formos pessoas que gostam realmente de espaço no sítio onde dormem, dois quartos com 30 metros quadrados.

Nem chego a perceber bem para quem foi feita esta casa, mas, suspeito, para uma família de quatro. Se bem que as coisas estão a mudar, muitos prédios e moradias que encontro por aí são feitos assim: a pensar na família que o mundo acha normal - um casal e dois filhos. A nuance agora é o mesmo espaço de casa mas um dos quartos ser "o escritório". Tenho um problema com "o escritório". Geralmente, é aquela divisão onde se guarda a roupa por passa e os livros que não se leem. É uma divisão mental. Sonhamos com uma zona tranquila onde podemos estar com os nossos pensamentos e depois isso não se concretiza porque não temos tempo para lá ir ou não temos assim tantos pensamentos com que estar (o que não tem mal nenhum, mas resulta em desperdício). Tudo detalhes que mostram como somos e deixo à consideração da arqueologia futura.

Mas voltemos à casa dos meus sonhos, em localização ideal e com ar de férias: que fazer se queremos levar convidados? Vão e vêm no mesmo dia, e é se querem, porque apesar de só termos espaço para um casal e dois filhos (e um deles nem tem a sua própria casa de banho), a garagem tem espaço para seis carros. Aqui deixem-me só dizer uma coisa. Esta casa é realmente fabulosa e não tem culpa que tenha três filhas e não caibamos todos ali, mas arranjar espaço para seis carros numa casa construída para 4 pessoas é um bocadinho de consumismo a mais. Ou então estão a contemplar a hipótese de se guardar um trator, o que é perfeitamente razoável tendo em conta que o terreno tem 14 mil metros quadrados e alguém tem de tratar dele. O que me leva ao ponto seguinte.

Não há aposentos com privacidade para uma empregada ou empregado, alguém que possa ajudar a cuidar desta casa? Este é o tipo de pergunta que deixa o meu pai embaraçado com a sua própria filha e, bem sei, de muitas pessoas mas vamos a ver: quem é vai limpar esta maravilha? O meu esposo e eu com as suas mãozinhas, no seu tempo livre? E quando é desfrutamos da piscina? Ter uma casa grande e ninguém para ajudar a mantê-la tem um nome: escravidão. A não ser, claro, que as pessoas gostem de limpar e arrumar e isso seja um real divertimento. Se for assim, ótimo. Problema resolvido e menos dinheiro que se gasta, mas não sendo eu essa pessoa que se diverte milhões a esfregar, lavar e arrancar ervas daninhas, tenho esperança que no dia em que possa dar quase um milhão de euros por uma casa de férias posso também ter quem me ajude a gozá-la em pleno.

Mas continuemos. Não há imagens da cozinha, uma pena, e não é referida a existência de uma lavandaria. Outra estranheza, a meu ver. Uma lavandaria é fundamental. Mas, aqui, já nem estou a falar desta casa, onde não falta espaço para contornar a situação. Quanto mais não seja abdicando do trator! Não, quando falamos em lavandaria o caso é mais grave e merecia uma queixa na Ordem dos Arquitetos. No afortunado mundo dos arquitetos até se lava roupa (e põe-se a máquina na cozinha) mas estendê-la??? Isso já é pedir muito. Nesta mesma casa de onde escrevo, de 2005, foi preciso inventar um estendal. O que é sintoma de qualquer coisa é que a planta de uma casa passe por dezenas de mãos, entre arquitetos, engenheiros, maquetistas, pedreiros, carpinteiros e demais profissionais da construção, e ninguém dê por tão comezinha questão.Será porque as profissões mais qualificadas também já eliminaram estas tarefas da sua agenda? Será por machismo? Será discriminação de género? A prova de que existe um fosso abismal entre classes sociais? [Já agora, antes que me venham com histórias de "falas de fosso entre classes sociais mas queres ter uma empregada", espero que entendam a diferença entre criar um emprego ou sobrecarregar alguém com tarefas domésticas a troco de nada mais do que uma bonita casa].

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