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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Feminista e anti-monopolista, duas boas máscaras para este Entrudo

A Lurdes, uma lourinha sardenta de olhos azuis, minha colega na primária, não usava saias nem vestidos e mascarava-se de cowboy ou zorro. Ficou-me na memória por ser uma exceção. Nos carnavais da minha infância, anos 80 em todo o seu esplendor, os rapazes eram John Waynes, de chapéu e arma de brincar à cintura, ou heróis de capa, mascarilha e espada. Entre as raparigas, destacavam-se as damas antigas. 

Uma dama antiga é hoje um conceito tão anacrónico como um telefone com fios e os cowboys só sobrevivem graças ao Woody do Toy Story. Mas terão as coisas mudado assim tanto?

A minha experiência como mãe diz que não. Existem Lurdes, claro (sou mãe de uma), mas as miúdas continuam a querer mascarar-se de princesas (tenho duas assim) enquanto os rapazes desejam ser heróis - transformer, stormtrooper, ninja. É também o que me diz uma consulta por whatsapp aos pais de amigos das minhas filhas e é o que me devolvem os resultados nas lojas da especialidade onde se podem encontrar disfarces “para menina” ilustrados com uma Ana do Frozen e “para menino” ilustrados com um Homem-Aranha. 

As opções são semelhantes para ambos os géneros, mas as raparigas têm à sua disposição a polícia de saia, a cowgirl de saia ou a guarda inglesa de saia. Três atividades que, em bom rigor, dispensam o desconforto da saia, mas não vamos deixar a imaginação travar-nos. Ou vamos? É que parece que nem no Carnaval conseguimos largar os preconceitos.

A outra constatação é que já não há carnaval sem Disney, como se pode apreciar nos parágrafos anteriores onde pelo menos três vezes foram citadas personagens que a marca explora (verbo usado com intenção). As princesas não se limitam a ser princesas. São louras de vestido rosa como Rapunzel, de vestido amarelo como Bela ou de vestido azul e cabelo branco em trança como Elsa.

A boa notícia é que há uma flor a nascer no pântano. Escondida sob a capa de uma adolescente como tantas outras vive Ladybug, uma heroína de fato de licra que não pede licença ao protagonista masculino, Cat Noir, para salvar Paris dos supervilões - e é um êxito de Carnaval. Passa no teste do feminismo e no das práticas anti-monopólio também. Criada pelo francês Thomas Astruc para a Zagtoon, a única ligação à Disney é ser transmitida no seu canal. Há esperança!

[Este texto foi escrito originalmente para o suplemento 1864 do Diário de Notícias]

 

Está cada vez mais parecido com uma maratona

Pensei que isto nos ia bater aos 40, mas não. Aquele frenesim das celebrações anestesiou as coisas sérias, mas em 2019 foi como pedregulho a cair. Várias vezes, várias pessoas que não se conhecem entre si, amigos da minha idade e com vidas semelhantes (filhos e casa para pagar), fizeram esse balanço e essas peguntas dolorosas: o que sou, o que consegui, para onde vou? São os meus amigos mais corajosos. Foram capaz de pôr em palavras, coisas que tenho a certeza que todos pensamos. O que é isto?

Em muitas coisas isto é parecido com uma maratona. Será este o muro que surge ali pelos 30 quilómetros em que temos muita, muita vontade de desistir? 

Chega um momento na vida  - aquele momento em que achas que aspirar o carro é um programa maravilhoso para um dia de folga - em que a pessoa é obrigada a perguntar-se: és tu ou são os outros? 

Óscares: um vestido cor de laranja, discursos que dispenso e o Brad Pitt

O quase-kaftan laranja brilhante da atriz Maya Rudolph é o meu vestido preferido destes Óscares. Está dito e não mexe mais. Pode haver outros espetaculares - da Penélope Cruz à Janelle Monae - mas fica este com o título e não se fala mais nisso. 

maya-rudolph-oscars-2020-dress-red-carpet-1581293934.jpg

Quando fui à procura do autor (é Valentino), descobri que é capaz de ser o vestido mais controverso da noite. Vai dos que realmente amam aos que acham que Maya Rudolph se perdeu numa bola de espelhos. Já se sabe de que lado estou. 

Sobre gente mal vestida não me apetece dizer nada. Primeiro, porque acordei do lado bom da força. Segundo, porque vejo passadeiras vermelhas há tempo suficiente para saber que o design é apenas uma parte da equação. Há a maneira como a pessoa o usa, como se sente no momento (e com aquela roupa), o cabelo e a maquilhagem e, finalmente, e MAIS IMPORTANTE, a foto. Tudo se joga numa boa ou má foto. Já vi fotógrafos arruinarem carreiras. Eis um caso.

Por outro lado, esta imagem, que nada tem que ver com moda, fez-me sorrir pela legenda que a acompanhava.

Calia Kessler/The New York Times

Florence Pugh hides from her nemesis, Saoirse Ronan. Mulherzinhas é dos poucos filmes com nomeações que vi e o pensamento é inevitável: a quantidade de coisas giras destas que devo estar perder só porque não vi os filmes!  

Também li por aí que esta foi uma passadeira vermelha com mais consciência ecológica a avaliar pelo número de pessoas que escolheram modelos vintage. Até posso estar errada (era preciso abrir o excel e fazer contas), mas diria que isso vem de longe. A já mencionada Penélope Cruz que este ano se apresentou de vintage Chanel já foi vintage outra-coisa-qualquer no passado. E quando vemos o Armani Privé das milhares de lantejoulas de Renée Zellweger percebemos que para a neutralidade carbónica ainda faltam uns passos largos, por mais vestidos clássicos e antigos que ali desfilem.

Sobre modelitos a desfilar na passadeira vermelha também apetece dizer que foi bom ver as sandálias mais baixas (aqui um excel e uma contagem também davam jeito) e algum desplante entre as camadas jovens. Timothée Chalamet está a dividir a Internet por causa do blazer Prada com fecho em vez de botões (Timothée está demasiado informal ou são os polícias da moda que andam com tempo a mais?) e Billie Eilish.

Exhibit A:

timothee-chalamet-attends-the-92nd-annual-academy-awards-at-news-photo-1581296789.jpg

Exhbit B:

Amy Sussman/ Getty

Billie Eilish, que ninguém descobre que está a vestir Chanel, é, claramente, uma pessoa de outra geração. E não é pela referência 'noventona' da roupa, não é pelo cabelo pintado, é mesmo pelas unhas eduardo-mãos-de-tesoura. Mais uma barreira que se quebra: a rapariga cerebral pode usar, e usa, unhas de gel. Já nos tínhamos dado conta com Rosalía, já tinha visto em outras estrelas do hip hop espanhol, este é só mais um exemplo. Miúdas que estão a trazer estéticas completamente novas para o espetáculo. Adoro.

billieilish_ calia kessler_nytimes.jpg

Adoro esta maneira de derrubar muros, melhor que muitos discursos inflamados. E isto é mesmo para dizer que por muito correto que esteja Joaquin Phoenix quando diz que desigualdade de género, racismo e homofobia são uma mesma coisa, injustiça, o contexto grita o contrário do que ele diz. E o contexto é a cerimónia - o gasto de recursos para coser milhares de lantejoulas num vestido, as joias de pedras preciosas obtidas à custa de ecossistemas - mas também a indústria. As acusações de abusos sexuais e laborais, os Óscares que não tiveram mulheres nomeadas como melhores realizadoras, porque se calhar elas não puderam mostrar serviço para isso,  e só existir uma mulher negra nomeada, Cynthia Erivo, pois, possivelmente, os negros não estiveram nos filmes em que Hollywood mais apostou. 

Celebre-se por isso a vitória de Parasitas, um filme sul-coreano que fica para a história como o primeiro não-inglês a vencer na categoria de melhor filme. Quando falamos de lacunas de representação nos Óscares esta também já era muito evidente. Foi bom ver a academia a derrubar esses muros, também.

Fora isso, e sobre o espetáculo, adorei a abertura da Janelle Monae, os não-apresentadores Steve Martin e Chris Rock, Maya Rudolph e Kristen Wii, adorei o Eminem a fazer as pazes com ele mesmo e o Brad Pitt. "Isto para mim era câmara fixa no Brad e a cerimónia ia acontecendo com voz-off". Li no Twitter e assino por baixo.

Brad Pitt, melhor ator secundário

 

 

 

 

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