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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Sobre jornais que fecham, sobre a imprensa, sobre o que sobra e o que falta

Um pequeno grão de pó do universo -- eu -- atreve-se a publicar aqui, ainda que esta seja a sua casa, um conjunto de respostas que deu hoje ao amigo Ricardo, a propósito da grande crise que grassa na imprensa estes dias. Uma crise que demasiadas vezes para o meu gosto, termina em frases como "vão mas é ler jornais", como se acaso o que estivesse em causa fosse o papel dos jornalistas. Apresso-me a dizer que não, não é. Nunca tantas pessoas quiseram saber tanto, puderam saber tanto. Sinto-me mais acarinhada que nunca pelos leitores que, simpaticamente, partilham 100, 200 vezes as coisas que escrevo, porque lhes interessa e porque acham que está bem e merece. Fico contente e agradeço. Nunca me passaria pela cabeça mandar as pessoas fazerem o que não querem. Não vos quero a ler jornais. Mas quero continuar a ser paga para falar com pessoas, interpretar o que me dizem e contá-lo num orgão de informação.

Pergunta sem resposta: quem paga por essa informação que nos chega gratuitamente ao telemóvel no Facebook? Quem paga para eu entrevistar Marcelino Sambé? Quem paga para que eu possa escrever sobre a Josefa de Óbidos? Para ir ao Palácio da Ajuda? Quem paga por todas as coisas sobre o século XVIII que aprendi nos últimos dois anos para poder informar melhor as pessoas que leem o DN?

Mas, bom, o que o Ricardo dizia era isto: "(...) É o melhor ofício do mundo, o de esclarecer os cidadãos. Estamos no tempo dos artigos de fundo, das questões importantes que vão além da espuma dos dias. Dá gozo - e dá, sem lamentos, bastante trabalho. Agora tu, cidadão, antes de vires para o Facebook dizer que o jornalismo português está uma merda, vê lá se compras um jornal um destes dias."

E o que lhe respondi, e aquilo em que acredito, é isto: "(...) Sou toda a favor de que se comprem jornais mas também gostava que, em vez de se andar sempre a chatear o pobre cidadão, se perguntasse às operadoras por que razão não repartem os seus lucros com quem produz conteúdos. Ou perguntar simplesmente por que razão saem dos media quando mais deles precisam".

Em bom rigor, apesar de já ninguém se lembrar, quando eu comecei nisto do jornalismo, o Sapo até tinha uma redação cheia de gente a fazer notícias e a PT acreditava que também tinha de produzir conteúdos, porque as pessoas começaram a ter internet. E, tantos anos passados, percebe-se. Ainda não se sabia muito bem como é que ia ser, mas já se tinha percebido que isto de virmos ao computador à procura de resposta ia ser mesmo "the big deal".

O outro problema é este, e continuo a citar-me: acreditarmos que não havendo papel deixou de haver intermediário, mas o intermediário existe. É 1) o aparelho e 2) a empresa de telecom que nos liga à Internet. Portanto, na realidade, estamos como antes -- o papel e quem vendia jornais.

Quais foram os lucros do Google em 2014? Adoro que as nossas coisas apareçam quando faço uma pesquisa, mas este caminho tem dois sentidos. Que se pesquisaria se não existissem notícias na Internet? É justo e lógico que reclaclemos parte do êxito de uma empresa gigante como é o Google. E o que quero não são palmadinhas nas costas, porque essas não me põem comida na mesa.

De resto, e isso também dizia ao Ricardo, que é um jornalista de mão-cheia, nem tenho assim tanto amor ao papel como nem tenho assim tanto amor aos sites Apenas quero ler coisas boas. E elas vão escasseando porque não há quem pague por elas. Nem quem esteja 100% concentrado em captar receita através do tráfego da internet está a conseguir.

Finalmente, outra pergunta, que tem a ver com o papel dos jornalistas e das administrações de grupos de media em Portugal. Quantas vezes ouvimos os dirigentes queixarem-se porque o trabalho que estavam a fazer não era remunerado por um PT desta vida? E, mais curioso, é sintomático que os dois grupo de comunicação social mais saudáveis em Portugal, Impresa (dona do Expresso) e Cofina (dona do Correio da Manhã), estejam encostados a televisões e que a Altice (antes PT) seja uma boa e querida patrona da SIC e do CM TV.

Mas, num momento tão negro, o que mais conforto me tem dado é ver que no Económico há uma Equipa. Pessoas que estão a remar na mesma direção, apesar da tempestade. É muito raro encontrar-se tal coisa hoje, parece até que não vale muito nestes dias, mas, mais uma vez, a mim importa-me porque acho que é isso que faz a diferença. Da mesma maneira que um conjunto de folhas A4 não faz um jornal, um conjunto de jornalistas não faz uma redação. É preciso mais qualquer coisa. E, parcial que seja a minha opinião, estou a vê-la nos comentários do Filipe Alves e do Tiago Freire, como não vi em outras ocasiões, recentes ou antigas, em outras publicações. É o que faz falta.

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