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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

15E

A espanhola incomodada porque o transporte vai cheio, o monhé que já vendeu um chapéu a uma rapariga, um filho e uma mãe, o trabalhador que alça o sovaco e não devia, o maluco que grita sozinho, a obesa que não se aguenta nas canetas... Há de tudo neste elétrico.

Batizado: o(s) bolo(s)

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Soube quase desde o primeiro minuto que queria ter 3 bolos, um para cada uma de vocês. Também tinha a certeza que não queria pasta de açúcar - acho um desperdício. Vou armada em boa neste assunto porque a tia Olívia é uma craque a fazer bolos e aceitou as minhas sugestões sem reservas. Tinha pensado em três andares, simbolizando as três idades mas ela não encontrou esse molde. Antes este que me pareceu igualmente perfeito. As bonecas vieram depois e adotei-as. Queria ter aquelas típicas cegonhas dos anos 80 mas não encontrei. Só versões modernas que me pareciam bem piores. Acabei por me render a estas meninas. Por ora ficam em casa da vossa avó e só voltam a sair das caixas, como as velas, quando fizerem a Primeira Comunhão. A vossa avó preparou uma surpresa. Um quarto bolo, de café, como este, para me cantarem os parabéns. Gostei muito muito de estar ali com um bolo igual ao vosso. 38 biscas, e três filhas como vocês.

Adoro artistas (cuidado com as imagens explícitas)

O momento alto do dia de ontem foi este: visita guiada à exposição do artista plástico André Saraiva no MUDE (com entrevista e fotos no estaminé do costume). O Museu do Design e da Moda já é, dentro dos museus de Lisboa, um dos mais ativos (ou então sou eu que estou mais desperta para o tipo de coisas que mostram), agora (e até 28 de setembro) tem os melhores trabalhos do graffitter/escultor/realizador/ pintor/ artista em todos os sentidos.

Falar com ele, ver os objetos escolhidos para mostrar, ver bem as obras... Fiquei a pensar que tinha de vos levar à Rua Augusta. 

 

O trabalho do André Saraiva não é para crianças. Sendo um tipo que começou nas ruas e na noite -- a graffitar paredes e a passar tempo em discotecas e bares -- está sempre a provocar os instintios mais básicos das pessoas. A sexualidade (vejam bem os Mickeys contentes de ver a Minnie) ou a ganância. ou a falta de rigor com que tantas vezes olhamos para o que está à nossa volta. Não sendo especialista nem nada, é assim que olho para os posters falsos que ele criou -- os Dream Concerts -- em que junta bandas como Daft Punk e Air ou The Clash e Joy Division. Imaginou esses espectáculos, criou cartazes e colou-os nas ruas. Dizia ele, e vou acreditar no que diz, fizeram-se filas em alguns locais para comprar bilhetes para alguns destes eventos. "Resultou", dizia ele, contente. Acho graça à lata. Em princípio acharia uma completa pulhice que alguém usasse a boa fé dos outros para conseguir os seus propósitos, mas vou dar folga ao artista só para dizer que às vezes realmente falta-nos olhar para as coisas com mais atenção e questionar mais. "Tout va bien?", o slogan da crew de André Saraiva quando o trabalho era ainda e só rua.

 

Mickeys contentes por ver a Minnie

 

Concertos de sonho

 

Tudo resumido, adoro ver o trabalho criativo das pessoas. No caso do André Saraiva, uma personagem e tanto, como provam todos os textos que li sobre ele nos últimos dias, há uma preocupação grande em ser um artista total. É ele que diz que os seus clubes Baron (em Paris, Nova Iorque e Tóquio) e o hotel Amour (em Paris) são parte do seu trabalho. Se tivesse de resumir diria que ele quer ver-se em tudo o que faz. É um pouco egocêntrico, note-se. Mas não é esse um traço da nossa geração?

 

E se esta conversa vai longa (e não disse nem metade do que podia dizer) é porque tenho esperança que um dia, em muitos muitos anos, reste alguma coisa do que aqui fica dita para vocês terem contacto com um artista que me parece importante. E se não for, se por acaso ficar perdido entre os acontecimentos futuros, restará pelo menos este apontamento: estudar o trabalho de André Saraiva. Contém o passado e, a esta altura do campeonato, contém também o presente. É uma coisa engraçada isso também. Às vezes olhamos para os artistas plásticos à espera que nos apontem as pistas do futuro. E isso não existe assim tal qual. Mas muita gente (o Amadeo Souza-Cardoso na década de 10 do século XX) está lá a captar o espírito do tempo.

 

E o que vejo no André Saraiva?

A errância - ser filho de portugueses e nascer na Suécia, crescer em Paris, assentar praça em Nova Iorque - já não como um fado ou uma coisa má que acontece na vida de uma pessoa mas uma circunstância. A prova de que o mundo é global. A prova de que com pouco esforço podemos estar a trabalhar em Londres e não estar assim tão longe. O mundo mudou. Estou a ver isso no desenho do mural que ele vai ter numa parede do jardim Boto Machado, junto à Feira da Ladra. 

 

Junto ao desenho de parte do mural da Feira da Ladra

 

Estou a ver uma vida de transgressão. Sair de casa à noite para pintar paredes (ser multado por isso). Estou a ver um tipo que cultiva aquele ar de quem vive uma vida dissoluta, estou a ver as mulheres que sabemos que tem. Socialites do tipo Gossip Girl, interessandas em ser artistas. Aquela malta de Nova Iorque que está sempre a mostrar as cuecas como se fosse o único statement artístico que as mulheres podem fazer. Estou a ver pessoas que querem tirar da vida o melhor que tem mas não querem fazer esforços porque simplesmente somos humanos e queremos aproveitar do mundo o melhor que ele tem para oferecer. Abaixo os mártires. Se o André Saraiva sofre para criar o seu trabalho, não se nota ou ele não quer que se veja.

 

Agora podia fazer marcha-atrás e dizer que isto é um mundo pré-falência da Lehman Brothers, pré-Lobo de Wall Street, pré-crise financeira, quando estávamos com uma pedra coletiva, achando que tudo se resolvia sempre porque alguém havia de cobrir. Também não sei se isso alguma vez foi realmente assim. Se não somos nós a fazer o totobola à segunda-feira. As coisas eram como eram porque era o era pedido à humanidade. Se calhar era a mão invisível do Adam Smith a fazer das suas, sei lá eu...

 

Mas, pronto, tudo para dizer que a exposição vale a pena e que havemos de lá ir com mais calma. Aproveitar aquele cor de rosa todo!

 

PS: As fotos são da Sara Matos para a Global Imagens.

Sophia

"A Fada Oriana" foi um dos primeiros livros que me recomendaram na biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian. A carrinha estava estacionada no larguinho e o senhor disse-me que ia gostar daquele livro. Achei impossível. Estava mais que manuseado, páginas amarelas, a soltar-se da lombada. Velho e gasto mesmo. Mas devorei cada palavra e letrinha, adorei, pouco me importando em saber quem tinha escrito. Contribuí, pelo contrário, para que ficasse ainda mais gasto. No quinto ano, a professora de português leu-nos "A Floresta", outra maravilha. Não fazia ideia que era da mesma escritora. Percebo bem quando a família diz que a maior homenagem é continuar nas escolas. É mesmo. Surpreende que seja preciso dizer. Que boa é a vida quando o que é obrigação é agradável. Fosse tudo assim.

 

 

PS: A escritora no Panteão Nacional.

O dia seguinte

[Não imagino como será o dia seguinte, nem quero, mas quando vinha para casa no autocarro caiu-me a ficha. No dia seguinte à morte inesperada e cruel de alguém não há nada. Só calcular já custa. Os amigos vão à vida deles, o mundo continua a girar, não há poemas, nem atenções, nem gente a lembrar momentos bonitos, nem respostas... ]

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