Bem, quer dizer, uma pessoa não vai ao Dolce Vita Tejo (DVT), vai à Primark.
E o que é a Primark? Um síto com coisinhas feiíssimas que estão quase a ser giras, mas que valem sempre muito a pena porque são tão baratas que não gostarmos não há azar. Azar só para o planeta e para as condições laborais de quem faz sabrinas a seis euros, claro. Não deixa de ser engraçado: vamos para Copenhaga dizer que isto é muito importante, ai de quem diga que não é pró-ambiente e depois era giro começarmos a contabilizar a pegada ecológica que deixamos.Comprar seis pares de meias a três euros é o princípio de tudo (e estou a falar mesmo contra mim). Quando se romperam vou metê-las no lixo e quem não o faz é tido por maluquinho. Mas será mesmo? Porquê, quando e como deixámos de comprar as coisas que desejamos MESMO para ter umas que remedeiam porque são baratas?
Vou deixar este post para depois quando isto estiver ainda pior nos lembrarmos que um pijama a cinco euros é sinónimo de muito e maiores gastos. Já para não falar, e não vamos, que muito possivelmente isso também só é possível graças à exploração de umas quatas pessoas para que outras possivelmente da mesma idade tenham a sorte de as usar. Mas não, não vamos falar sobre isso. Deixo só a frase do Warren Buffet, multimilionário que doou 34 mil milhões de dólares a organizações não-lucrativas: "As pessoas pensam que tudo o que conseguiram é apenas o seu esforço, como se por acaso se tivessem nascido no Bangladesh tudo tivesse sido igual". Tem razão. Podia ter-se lembrado mais cedo, claro, mas ao menos lembrou-se. (Este era o ponto 1)
Ponto 2:
Ainda sobre a Primark. A qualidade das coisas é tão má, tão má que, por comparação, a H&M é boa, a Zara é óptima e a Bennetton é luxo. Mas eu estou fascinada com aquilo. Estou mesmo! E comprei coisas (coisas que se escondem!).
Ponto 3:
Qual é a Primark? Tal como muitas outras lojas que desenham roupas para crianças, gosta de vestir a miudagem como se fossem adolescentes. A sério, people, o que têm na cabeça? Incentivos à pedofilia? Frustrações acumuladas? As crianças só são crianças uma vez, portanto, enquanto o são é aproveitar para as vestir do que são. Com xadrez, com vestidos de grandes laços, com meias até ao joelho, com vestidos-bibe, com camisas com golas em folhos, sweat-shirts à Pierrot, sandálias inglesas. A sério, têm tanto tempo para se vestirem como crescidos... Agora, pois claro, que nem tanto ao mar nem tanto à terra. A própria Madalena também veste um legging e também usa o seu casaco de capuz ao género 50 Cent. Só para o caso da miúda sair à mãe, que se lembra de pensar que a sua mãe a vestia à bebé quando as outras miúdas andavam bué radicais (mas isto foi muito mais tarde, não te ponhas com ideias, Madalena).
Ponto 4:
Por que razão tudo aquilo é tão grande? A dada altura concluí que o DVT é um dos monumentos portugueses mais grandiosos que já vi. Cada loja daquelas é maior que a minha casa. Toda. O Amoreiras ao lado é um velhinho AC Santos, um shopping de bairro (bem, é mesmo).
Ponto 5:
O ser humano é do caraças. Uma parte super feliz com as compras, outra furibunda com a invasão estrangeira: por que raios o multibanco de uma marca de café americano, a Starbucks (Mónica, já desbundei e continuo na minha: num centro comercial? Mas admito que o Chiado seja outra loiça), é da Servired espanhola? Achei giro, pessoalmente, foi uma viagem no tempo, mas, sinceramente, tanto bom equipamento do ISEL...
E, finalmente, a derradeira contradição humana: "que porcaria, só gente horrível, aos gritos e adolescentes", eu a pensar, e de repente pecebo que perdi o saco com a prenda (aliás, o presente) da minha prima Elsa (não te preocupes, a tua não é a da Primark!). Tinha-me esquecido dele na casa-de-banho e já o dava por perdido quando lá fui confirmar, uma hora depois, e - tcharan! - estava no mesmo sítio. Bom, não é? Ir ao centro comercial e levantarem-se tantas dúvidas filosóficas!
Parece que a mini aprendeu a correr. Bem, o que ela faz é andar muito depressa, mas ela chama-lhe correr e eu não vou contrariá-la por causa desta ninharia. Mas isto vem a talhe de foice para dizer que o raio da cachopa apanhou uma nova mania (para além daquela de repetir tudo o que qualquer adulto diz): sai da escola e diz "mamã, vamos correr" e, enfim, desata numa correria que eu tenho de estugar o passo para a acompanhar. E isto tudo mas com a gabardine vestida? Um must. Parece o inspector Gadget atrasado para mais uma missão.
- É mais forte do que eu: em onze crianças acho genuinamente que a mais filha é a Manena.
- Estão realmente engraçados. Ninguém se ri (o que também é típico nesta idade) e a Madalena até fez aquele seu ar de má nas fotos "a solo".
- Há quatro fotos a solo, mais uma de grupo e ainda fizeram o favor de mandar mais quatro pequenas tipo-passe ideais para carteiras de avós!
- O modelito escolhido resultou na perfeição. Por um lado parece o pai, com as mangas arregaçadas e aquela carinha que não engana ninguém. Por outro, faz concorrência ao boneco do Farmville com as suas jardineiras cor-de-rosa.
Parece que foi ontem e já passaram dez anos. A tia Ana conduzia o velhinho Peugeot 107, dois lugares, matrícula JF, Avenida da Liberdade acima, vinda do INP onde eu tinha ido ter, depois da Atalanta e, posso não saber o que comi ontem, mas lembro-me de falarmos da divisão do mundo e de como não havia nada mais ilusório do que os planisférios,que punham Portugal (e Espanha) no centro de tudo. Eu, vê bem, imaginava que o preceito era cada um ter o seu mapa-mundi "a começar" no sítio onde morava. (Porque nessa altura acho que ainda não percebia que há gente sem pátria, sem uma terra de onde ser e que não faz e que não se é menos pessoas por isso.) Mas não é assim. Todos os planisférios do mundo começam na Europa porque houve o Tratado de Tordesilhas e nós mandávamos e pronto. É só política.
- Se fosse hoje não seria nada assim, disse ela.
E não é. Dez anos depois já não é. Não podíamos prever que os planisférios iam deixam de ser em papel e iam passar a estar no computador e que ia haver uma coisa totalmente nova (e radical) - o Google Earth - que ia revolucionar tudo. Quando é que nasceu? 2005, 2006?
A precisão da ferramenta impressiona, claro. É o sextante do século XXI. Mas o que mais me impressionou no dia em que abri "aquilo" pela primeira vez, foi perceber que realmente a Ordem do mundo mudou. Agora começa nos Estados Unidos e até conseguimos ver um bocadinho do oceano Pacífico. Que o Tratado de Tordesilhas é história. Que não é por acaso que a primeira aplicação que a Microsoft quer desenvolvida no seu motor de busca, o Bing, são os mapas.
Portanto, uma pessoa pode ter uma União Europeia, pode "inventar" um presidente do Conselho Europeu, uma ministra dos Negócios Estrangeiros, pode ter um presidente da Comissão Europeia, pode ir a Copenhaga mandar postas de pescada sobre o clima, pode invocar-se a antiguidade, a tradição, mil anos de histórias, de fronteiras. Acabou. O mundo começa em San Francisco, como antes começou em Belém. (E já é uma consolação que o nome da cidade se entenda em português!)
Alguém proclamou este grupo como um dos melhores da década.
São mesmo, bem vistas as coisas.
E era só para dizer (armando-me em bué de boa para quem nunca conhece nada de música) que não só tenho o CD como os vi ao vivo. Sim, ao vivo. Razzmatazz, Barcelona (2002).