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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

"Friends"

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A fotografia de promoção da primeira temporada

Fez 25 anos em setembro que a série estreou. 1994. Cavaco Silva ainda era primeiro-ministro. Eu tinha acabado de entrar na universidade e não existia Internet. Pelo menos, não da maneira como a usamos agora. Não ouvi falar de "Friends" até muito tempo depois. Até, vá-se lá saber porquê, a RTP ter decidido comprar o formato e dobrá-lo em português. 
 
Sim, eu lembro-me de ouvir Cristina Carvalhal, a atriz, interpretar uma das personagens. Isso era tão dissonante, tão estranho e fora do lugar que pus de parte de imediato. Eu e muitos. Em Portugal, a primeira tentativa de exibir “Friends” redundou num fracasso e essa petite histoire devia estar em todos os livros onde se fala da série neste país.
 
Avançamos seis anos. Já sou licenciada. Estou em Barcelona e a série passa num canal qualquer. Canal +, 20:00, creio que era. Eu estava obcecada e Elena, reforço de verão da redação naquele 2001, emprestou-me a caixa com os DVD da primeira temporada. Por essa altura, era indiferente ser dobrado. Eu estava muito já muito habituada a seguir séries dobradas. 
 
Avançamos ainda mais: o António e eu passámos noites a ver episódios. Na nossa primeira ida a Londres trouxemos uma caixa com 10 temporadas. 
 
Em 2007, grávida de um feijãozinho que se chama Madalena, passámos horas na NBC a namorar o merchandising da série. Trouxe um livro e um íman. Adorávamos aquelas seis personagens.
 
Em momentos diferentes da série, e da nossa vida, cada um deles - Rachel e Ross, Monica e Chandler, Phoebe e Joey - foi o meu preferido!
 
Este verão, a Madalena começou a ver "Friends". Começou e acabou as 10 temporadas da série, qualquer coisa como 236 episódios! E, tão apaixonada como nós, já está a repetir. 
 
Gostaria de acreditar que foi a nossa influência e que desde útero compreendeu o nosso entusiasmo, mas não. Foi porque as amigas a aconselharam - A Laura, primeiro, a Teresa, depois. Em todo o caso é com alegria (e inegável) orgulho que vos digo que a minha filha mais velha pertence ao exclusivo grupo de 25 milhões de pessoas que sorriem/riem quando ouvem as frases "how you doin'", "I know!" ou "we were on a break". Uma verdadeira fã. 
 
[Escrevi este texto nas notas do computador e a Madalena viu, leu e acrescentou este comentário: 
TOMA MÃE!!!!!!!!!!!!]

Tudo o que pensei na reunião de pais e não tenho onde dizer


Sempre que a Quica começa uma nova etapa, a mãe despede-se de qualquer coisa da infância e descubro que já não vai haver hipótese de fazer melhor. Como ela e as irmãs tiverem feito é como vai ficar. Dá pena. Por saber isto, parece que dá mais vontade de absorver tudo o que acontece. Ontem, ela estreou-se como primeiro-anista e se pudesse partilhava a foto da turma. Estão tão sorridentes, tão confiantes, tão perfeitos (até na timidez de uns quantos).

 

Isso só foi possível porque foram criados a mimos, gargalhadas, sermões, desenhos, avé-marias e pais nossos, brincadeiras na casinha e o enorme desejo de um dia poder ir brincar livremente "para o campo".



Dizem que quando somos pais repetimos coisas felizes da nossa infância. Eu fui muito feliz na escola e com as minhas professoras (elas mal imaginam o impacto enorme que tiveram na minha vida) e procuro semelhante para as minhas filhas.

 

Os professores a auxiliares dos nossos filhos também parecem viver sem imaginar como são importantes. Na correria dos dias, pode não parecer, mas sei que tudo seria muito diferente sem as gargalhadas roucas da Mercês, sem a organização da Benedita - tão boa para a Quica (e até para mim) -, sem o carinho da Inês, sem a classe da Teresa, sem a orientação da Mafalda, sem a Rita, a Guida, a Maria João, a Isabel (e até me devo estar a esquecer de alguém).

 

Esse capítulo chamado pré-escolar, que durou oito anos consecutivos, fechou-se, em definitivo, ontem. Naquele instante em que a câmara fez clique, o 1.º ano começou. Naquelas carinhas está escrito que têm tudo para que isto corra bem. Tenho um pouco de vergonha de dizer isto à vista de todos, mas sou grata e acho que o mundo inteiro deve sabê-lo. Obrigada.

MEC: Minha especial companhia

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Num dia qualquer do início do verão, pus-me a ler a entrevista que Miguel Esteves Cardoso deu ao Público.

Havia qualquer coisa de bizarro nisso de um cronista da casa ser entrevistado para o jornal em que escreve, mas a entrevistadora, Bárbara Reis, agarrou-me logo no primeiro parágrafo com a história da campaínha avariada e da chave da porta que MEC desce por uma corda num cestinho desde o primeiro andar. (Será estratégia piedosa para afastar os indesejados?)

Eram três páginas de entrevista e cheguei ao fim num ápice. Que porcaria de entrevista, pensei. Faltam imensas perguntas importantes! 

Não faltam. Eu é que gostei tanto que leria mais três páginas sem esforço. 

Os dias passaram e as respostas de MEC continuaram a ecoar. Nenhuma má conversa perdura na nossa memória se não tiver qualquer coisa de bom. As boas entrevistas precisam de maturar e o entrevistado,  decerto, concordaria. 

Fiquei a ruminar no que MEC diz sobre a necessidade (e obrigação) de escrever todos os dias, conselho que vale tanto para os bons como para os maus escritores. Sobre os temas que escolhe, sobre o alívio quando morre a celebridade do dia e o assunto se resolve. 

MEC escreve todos os dias, faça chuva ou faça sol, feriado ou dia santo. Escreve sem assunto ou agenda, em busca do que dizer. É obra!  

Pus-me a ler e a ler. Nas férias, as crónicas de MEC foram a minha companhia literária. Terei lido um ano inteiro daqueles pouco mais de 1500 caracteres x 365 dias. Depois o livro que compila muitas outras. 

Quem diz que MEC já não é MEC é cruel. Acharia, talvez, que ele não podia/devia mudar (riscar o mais conveniente).

Quem diz que ele vive entre Colares e a Praia Grande é injusto. Quem nos dera a todos termos horizontes tão largos quanto ele. Nota-se que é ali que vive e que é daí que vê o mundo. E...? 

MEC acha-se um excelente escritor e tem razão. Consegue dizer muito em poucas palavras e parecendo que é fácil. Invejo-o. 

Passei vários anos a ler a coluna do MEC ao sabor do título. Fiz mal. O que escreve vale a pena e não se pode perder pitada.

Isso que chamas "de Mafra", eu chamo de pão

"Mãe, sempre que passamos aqui dizes isso". Estamos a passar na estrada que vai dar à minha antiga escola primária e elas têm razão. Digo sempre: "Era aqui".

A parte má das férias nos sítios onde crescemos é que estamos sempre a ver as coisas antigas onde os outros só observam as novas. Aqui era a pastelaria Solmar (eu acho que era esse o nome, mas a memória pode trair-me). Que lindo trabalho fizeram no Parque de Santa Marta! Como se atreveram a cortar o trânsito nesta rua? Este restaurante é muito bom! E histórico! Depois não é e passo duas vergonhas - a de ter arrastado as crianças e o pai e a de me desiludir. Ah! Mas a Ericeira está cada vez melhor!

A parte boa, mesmo boa, de passarmos férias onde crescemos é sabermos o agora e o antes. Por exemplo, quando ainda havia lugares de estacionamento de sobra no largo ou que n' O Basilinho há de tudo. Compreender por que razão é tão bom sentar no Salvador a beber café - simplesmente porque é onde o meu pai sempre foi no dia de folga (à segunda) beber o seu galão. Ou descobrir que algumas coisas não têm nomes porque se apenas essas existiam para quê dar-lhes outro nome?

Eu era adulta, e bem adulta, quando descobri que o chamo de pão é afinal 'de Mafra'. Lembro a estranheza quando alguém falava de Pão de Mafra: Há um pão de Mafra? Nunca comi, como é possível?

Este fim de semana fui correr à ribeira. E a ribeira, aqui, devia ser a Ribeira, porque nunca conheci outra.

Lá estava a fonte e o tanque - muito pouca rigorsamente chamado de 'rio'. Corre apenas um fio de água, as pias, negras de sujas, são muito mais pequenas do que me lembrava. Também é sempre assim: as coisas da nossa infância são sempre muito mais pequenas do que nos lembramos. Estão a ser devorados pela erva, mas não estão caídos nem tão mal pintados de branco (e barras azuis) que se pense que estão ao abadono (é bom isso), mas já ninguém os deve usar. Quando era pequena ainda se usava lavar a trouxa no tanque.

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Foi no regresso a casa que pensei que a Ribeira teria um nome. Graças ao Google Earth, descobri que se trata do Rio Lizandro - que nem ribeira é. Tão óbvio que serei certamente a única que nunca fez a associação mas, quero acreditar, que necessidade havia de nomear o que era a sua definição?

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Se o que incomoda na série "Euphoria" é a cena do balneário, temos um problema

Euphoria é a série que me faz querer que seja segunda-feira, o dia em que fica disponível um novo episódio. 

(Está na HBO, que tem esta ideia peregrina de ir lançando os episódios uma vez por semana, uma maneira completamente retro de ver programas que gostamos, mas, ao mesmo tempo, libertadora porque eu não ia dormir se soubesse que tinha mais uma capítulo para ver a seguir.)

Euphoria-Teaser-HBO.png

É uma história com adolescentes, co-produzida pelo músico Drake, que estreou a 16 de junho, e fez títulos porque tem uma cena no segundo episódio em que aparecem uns 30 pénis num balneário. Está no quinto episódio e ando desde então para dizer isto: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, então temos um problema. 

Porque Euphoria é sobre identidade de género e identidade sexual - o que é ser homossexual, lésbica, trans e como se vivem estas questões no pátio da escola. É sobre sexo, abusos sexuais, não-ditos, auto-estima, pornografia, pornografia online, auto-mutilação, ansiedade e depressão adolescente. E  mais sexo. Sexo entre adultos e teenagers. Sexo como afirmação. E amor. E muitas muitas drogas. Na verdade, começa assim. Quando Rue, a personagem principal, regressa de um verão passado na reabilitação após uma overdose e entra no 11.º ano. 

E a questão não é o que se conta, é como se conta. Uma coisa é elencar os assuntos, outra coisa é como são apresentados - há uma certa subtileza na maneira como Rue, a narradora, os põe, que constrata com a brutalidade das imagens. Coisas que teríamos visto em filmes para maiores de 18, agora estão numa série de televisão protagonizada por adolescentes (que, atenção, é para maiores de 16). 

Agora que já dei o enquadramento, vou voltar a repetir: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, temos um problema. Há cenas em Euphoria que fazem a série Por 13 Razões parecer fofinha (e não é). Portanto, apesar de ser com adolescentes, não é para adolescentes. Ou, pelo menos, não é a típica televisão para nos fazer sentir contentes e felizes quando somos teenagers. Se é para alguém ficar contente são os adultos. Por já terem passado aquela etapa da vida. Como escreve o crítico da Indiewire, e vou fazer dele as minhas palavras, Euphoria  "é uma série que nunca viu uma história triste que não possa piorar. Há cenas que gostávamos de nunca ter visto, quanto mais pensar". Mas, uma vez vistas, pensamos mesmo nelas. 

E não podemos parar de pensar, por causa da maneira como o autor, Sam Levinson, as conta a partir do format original (de Israel), e que, importa dizer, têm algo de biográfico (Levinson teve problemas com drogas sobre os quais fala abertamente) e, julgo eu, são uma maneira de tirar aquilo tudo do sistema (não sei se tirou os químicos do corpo, mas como terapia isto é do melhor).

Por exemplo, nudes entre adolescentes. Rue põe os pontos nos is. Parem de dizer que não se pode fazer, porque toda a gente o faz. Aprendamos a viver com isso. 

Os problemas com drogas são abordados sem moralidade. Ou pelo menos sem aquela moralidade pais-filhos de "não faças isso, prejudica-te". São drogas, existem, são usadas. Claro que eu sou adulta, vejo o problema. Mas como espectadora também empatizo com a personagem, percebo por que razão o faz. Rue está fucked up (f***** dos cornos, mesmo), mas estou a torcer por ela. E isso, como escreve também a Indiewire, tem que ver com a maneira como a atriz Zendaya o faz. Ela é sempre intensa, e deve ser da maneira como fala, um tom arrastado, uma dor,  um "não quero saber". Está muito longe daquela KC, Agente Secreta da série do Disney Channel, que a tornou conhecida. 

Como Miley Cirus depois de Hannah Montana ou Britney Spears depois do Mickey Mouse Club, Zendaya está a mostrar que é capaz de sair da fantasia. Em certo sentido, é o mesmo que está a fazer o ator Jacob Elordi, o galã de The Kissing Booth (Netflix, 2018), o Can't Buy Me Love da geração das minhas filhas, fugindo dos temas açucarados e entrando na piscina dos grandes. Não sei quão intencional é este casting, mas isso também me interessa e me faz gostar mais da série. Por exemplo, a personagem trans é interpretada por uma modelo trans - Hunter Schafer - que diz que a série é boa porque não se foca na transição, mas nos outros assuntos ("ser trans é muito mais do que isso"). E se esses detalhes acrescentam interesse, não há nada como o universo que ele cria. 

A escuridão, a neblina, os passeios de bicicleta que me lembram sempre o E.T., a edição dos planos... Exatamente como prometia o trailer, mas muito melhor. 

 

 

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