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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Isso que chamas "de Mafra", eu chamo de pão

"Mãe, sempre que passamos aqui dizes isso". Estamos a passar na estrada que vai dar à minha antiga escola primária e elas têm razão. Digo sempre: "Era aqui".

A parte má das férias nos sítios onde crescemos é que estamos sempre a ver as coisas antigas onde os outros só observam as novas. Aqui era a pastelaria Solmar (eu acho que era esse o nome, mas a memória pode trair-me). Que lindo trabalho fizeram no Parque de Santa Marta! Como se atreveram a cortar o trânsito nesta rua? Este restaurante é muito bom! E histórico! Depois não é e passo duas vergonhas - a de ter arrastado as crianças e o pai e a de me desiludir. Ah! Mas a Ericeira está cada vez melhor!

A parte boa, mesmo boa, de passarmos férias onde crescemos é sabermos o agora e o antes. Por exemplo, quando ainda havia lugares de estacionamento de sobra no largo ou que n' O Basilinho há de tudo. Compreender por que razão é tão bom sentar no Salvador a beber café - simplesmente porque é onde o meu pai sempre foi no dia de folga (à segunda) beber o seu galão. Ou descobrir que algumas coisas não têm nomes porque se apenas essas existiam para quê dar-lhes outro nome?

Eu era adulta, e bem adulta, quando descobri que o chamo de pão é afinal 'de Mafra'. Lembro a estranheza quando alguém falava de Pão de Mafra: Há um pão de Mafra? Nunca comi, como é possível?

Este fim de semana fui correr à ribeira. E a ribeira, aqui, devia ser a Ribeira, porque nunca conheci outra.

Lá estava a fonte e o tanque - muito pouca rigorsamente chamado de 'rio'. Corre apenas um fio de água, as pias, negras de sujas, são muito mais pequenas do que me lembrava. Também é sempre assim: as coisas da nossa infância são sempre muito mais pequenas do que nos lembramos. Estão a ser devorados pela erva, mas não estão caídos nem tão mal pintados de branco (e barras azuis) que se pense que estão ao abadono (é bom isso), mas já ninguém os deve usar. Quando era pequena ainda se usava lavar a trouxa no tanque.

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Foi no regresso a casa que pensei que a Ribeira teria um nome. Graças ao Google Earth, descobri que se trata do Rio Lizandro - que nem ribeira é. Tão óbvio que serei certamente a única que nunca fez a associação mas, quero acreditar, que necessidade havia de nomear o que era a sua definição?

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Se o que incomoda na série "Euphoria" é a cena do balneário, temos um problema

Euphoria é a série que me faz querer que seja segunda-feira, o dia em que fica disponível um novo episódio. 

(Está na HBO, que tem esta ideia peregrina de ir lançando os episódios uma vez por semana, uma maneira completamente retro de ver programas que gostamos, mas, ao mesmo tempo, libertadora porque eu não ia dormir se soubesse que tinha mais uma capítulo para ver a seguir.)

Euphoria-Teaser-HBO.png

É uma história com adolescentes, co-produzida pelo músico Drake, que estreou a 16 de junho, e fez títulos porque tem uma cena no segundo episódio em que aparecem uns 30 pénis num balneário. Está no quinto episódio e ando desde então para dizer isto: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, então temos um problema. 

Porque Euphoria é sobre identidade de género e identidade sexual - o que é ser homossexual, lésbica, trans e como se vivem estas questões no pátio da escola. É sobre sexo, abusos sexuais, não-ditos, auto-estima, pornografia, pornografia online, auto-mutilação, ansiedade e depressão adolescente. E  mais sexo. Sexo entre adultos e teenagers. Sexo como afirmação. E amor. E muitas muitas drogas. Na verdade, começa assim. Quando Rue, a personagem principal, regressa de um verão passado na reabilitação após uma overdose e entra no 11.º ano. 

E a questão não é o que se conta, é como se conta. Uma coisa é elencar os assuntos, outra coisa é como são apresentados - há uma certa subtileza na maneira como Rue, a narradora, os põe, que constrata com a brutalidade das imagens. Coisas que teríamos visto em filmes para maiores de 18, agora estão numa série de televisão protagonizada por adolescentes (que, atenção, é para maiores de 16). 

Agora que já dei o enquadramento, vou voltar a repetir: se o que preocupa é a cena dos 30 pénis, temos um problema. Há cenas em Euphoria que fazem a série Por 13 Razões parecer fofinha (e não é). Portanto, apesar de ser com adolescentes, não é para adolescentes. Ou, pelo menos, não é a típica televisão para nos fazer sentir contentes e felizes quando somos teenagers. Se é para alguém ficar contente são os adultos. Por já terem passado aquela etapa da vida. Como escreve o crítico da Indiewire, e vou fazer dele as minhas palavras, Euphoria  "é uma série que nunca viu uma história triste que não possa piorar. Há cenas que gostávamos de nunca ter visto, quanto mais pensar". Mas, uma vez vistas, pensamos mesmo nelas. 

E não podemos parar de pensar, por causa da maneira como o autor, Sam Levinson, as conta a partir do format original (de Israel), e que, importa dizer, têm algo de biográfico (Levinson teve problemas com drogas sobre os quais fala abertamente) e, julgo eu, são uma maneira de tirar aquilo tudo do sistema (não sei se tirou os químicos do corpo, mas como terapia isto é do melhor).

Por exemplo, nudes entre adolescentes. Rue põe os pontos nos is. Parem de dizer que não se pode fazer, porque toda a gente o faz. Aprendamos a viver com isso. 

Os problemas com drogas são abordados sem moralidade. Ou pelo menos sem aquela moralidade pais-filhos de "não faças isso, prejudica-te". São drogas, existem, são usadas. Claro que eu sou adulta, vejo o problema. Mas como espectadora também empatizo com a personagem, percebo por que razão o faz. Rue está fucked up (f***** dos cornos, mesmo), mas estou a torcer por ela. E isso, como escreve também a Indiewire, tem que ver com a maneira como a atriz Zendaya o faz. Ela é sempre intensa, e deve ser da maneira como fala, um tom arrastado, uma dor,  um "não quero saber". Está muito longe daquela KC, Agente Secreta da série do Disney Channel, que a tornou conhecida. 

Como Miley Cirus depois de Hannah Montana ou Britney Spears depois do Mickey Mouse Club, Zendaya está a mostrar que é capaz de sair da fantasia. Em certo sentido, é o mesmo que está a fazer o ator Jacob Elordi, o galã de The Kissing Booth (Netflix, 2018), o Can't Buy Me Love da geração das minhas filhas, fugindo dos temas açucarados e entrando na piscina dos grandes. Não sei quão intencional é este casting, mas isso também me interessa e me faz gostar mais da série. Por exemplo, a personagem trans é interpretada por uma modelo trans - Hunter Schafer - que diz que a série é boa porque não se foca na transição, mas nos outros assuntos ("ser trans é muito mais do que isso"). E se esses detalhes acrescentam interesse, não há nada como o universo que ele cria. 

A escuridão, a neblina, os passeios de bicicleta que me lembram sempre o E.T., a edição dos planos... Exatamente como prometia o trailer, mas muito melhor. 

 

 

Envelhecer

O meu pai nunca gostou de envelhecer e eu sou como ele. Não se trata de ter mais um ano. Trata-se de ir gastando a energia, perder a pele esticada, o cérebro ginasticado. A idade rouba-nos capacidades. Ou melhor, a idade tira-nos uma capacidade - gostar de coisas novas, de mudar. Ser capaz de mudar de opinião.

Desgostam-me as pessoas da minha idade que aprenderam coisas numa determinada idade e agora não conseguem sair delas como se o mundo não o tivesse feito. 

Nós, as pessoas que vibraram com o aparecimento da Internet, estamos como animais assustados nas redes sociais. Vendo perigos em todas as publicações. 

Uma vez que isolei este como sendo o maior, e mais profundo, problema da geração de 70, estou todos os dias a tentar ser a velha gaiteira de ténis a correr contra o tempo, muito mais interessada em pessoas novas do que nas da minha idade e à procura de teses que confirmem as minhas crenças - não são as máquinas nem a tecnologia, somos nós. Se pudesse complementar com plásticas, fá-lo-ia. 

E, então, eu estava tão solenemente dedicada a depreciar o envelhecimento e o passar dos anos, quando esta manhã, numa longa caminhada, me acompanharam a demógrafa Maria João Valente Rosa e José Maria Pimentel, economista e autor do podcast Quarenta e Cinco Graus (sim, continuo a amar podcasts). Descobri que, apesar deste grande defeito que é envelhecermos para sermos uns casmurros, ter 43 anos em 2019 é realmente como ter 36 nos anos 70. Ganhei sete anos de vida numa hora, nada mau.

Os nossos filhos são mais novos do que nós éramos quando as nossas mães tinham 43 anos (eu tinha 21 anos e estava na universidade, por amor de Deus), nós começámos tudo mais tarde e envelhecer não é uma doença e não vai ser um problema para a sociedade como agora parece ser. 

Ela, Maria João Valente Rosa, é algo pessimista com o que vamos fazer a velhice, pois, de momento, não estamos a dar qualquer resposta, mas  vinha cá espalhar otimismo inconsciente (ignorante, mesmo): somos tantos, queremos tantas coisas, temos expectativas tão longas (chegar aos 70 anos com qualidade de vida, por exemplo), que não vai ser possível ignorarem-nos como parecem ignorar os nossos pais. Vamos estar no trabalho, na publicidade, nos filmes, na literatura. Vamos existir. E, também por isso, vamos ter de ser muito mais flexíveis. Ainda não chegou a hora de calçarmos as pantufinhas. 

 

Uma vez que a idade me tem dado para a desconfiança, duas ou três coisas sobre João Félix

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Vinha cá dizer que me parece realmente estranha esta 'normalidade' à volta da transferência do João Félix para o Atlético de Madrid. O diz-que-disse, os rumores, o Benfica, o Jorge Mendes que empresta o jato para o rapaz ir de férias para Ibiza, tudo. Não há nenhum ser humano cujo trabalho valha 120 milhões de euros e o momento em que dizemos "vale o que o mercado estiver disposto a dar por ele" é aquele em pomos o assunto num plano tão abstrato que só vale a pena dizer isto: escrutínio, escrutínio, escrutínio. Porque da última vez que nos deixámos iludir pelo 'mercado', acordámos com a falência do Lehman Brothers. Não é coisa pela qual me apeteça passar outra vez. 

Há uma frivolidade na maneira como se fala disto - 120 milhões como se fosse coisa pouca. Como se o João Félix, que jogou seis meses na I Liga já tivesse demonstrado cabalmente que pode ser um grande jogador. 

O que se está a passar é problemático a vários níveis, incluindo este: não é só por acharem que o João Félix vai ser um grande jogador que estão a dar este dinheiro por ele. Aposto que há deles aos pontapés na Europa e na América Latina. É porque ele tem aquela qualidade de 'estrela' que interessa. Aquele atrativo que vai fazer dele uma paixão para os adeptos de futebol, para as adeptas, para as adolescentes, até para quem não gosta de futebol mas se pela por uma celebridade. João Félix atrai as câmaras e alguém já percebeu isso. É essa a única - e grande - diferença em relação ao Bruno Fernandes. E estamos todos a participar nisto como participámos com Cristiano Ronaldo (correu bem), como com Renato Sanches (correu mal). 

Gosto de ouvir os comentadores dos programas de desporto falarem do que pode correr bem ou mal - será o país determinante? Ou a cabeça do jogador? É engraçado que ninguém diga que, por 120 milhões de transferência e 6 milhões ano - a margem para falhar é muito pequena. Mais: tenho pena que as pessoas experientes envolvidas nesta transação se mantenham tão longe dos holofotes e não tenham problema nenhum em mandar um rapaz de 19 anos para a frente de batalha. Porque se alguma coisa correr mal, vai ser a cara de João Félix que vou ver nas notícias. Da mesma forma que Ronaldo foi dar a cara pela fuga ao fisco sem preencher o IRS.

Temos de ser exigentes no escrutínio destes negócios que se fazem à custa do nosso divertimento. É preciso dizer com todas as letras que existe um enorme fosso entre o valor do trabalho de um médico, de um cientista, de um advogado, de um jornalista e de um jogador de futebol numa liga milionária. E que tem de existir bom senso.

Não estou a dizer que ele não vale os 120 milhões que querem pagar por ele ou os seis milhões/ano de salário. Estou a dizer que é preciso ter a certeza que este negócio é rigoroso, justo e correto, porque a história diz-nos que em valores tão altos, muitos protagonistas criaram ilusões de impunidade (algumas vezes foram mesmo impunes).

Um mercado livre requer regras e transparência.

Tão boa que até dá vontade de fazer 'nails'

Não é que Malamente seja apenas uma canção que dá vontade de pôr em repeat até ao fim dos dias (que é), é que está lá tudo o que é preciso saber para cristalizar este tempo. E esse pequeno detalhe, a que só dei crédito na semana passada, faz toda a diferença. Por mais ignorantes que sejamos, uma coisa se percebe de imediato: são justificados todos os elogios que fazem a Rosalía,

Foi isto: pus-me a ver este vídeo fulminou-me um raio. De amor, entenda-se.

O tempo mudou. Estas pessoas a quem nós chamamos de millenials estão a conseguir pôr um sentido em coisas como a beleza do toureio sem para isso precisar de um touro. Apanhaste-em logo, Rosalía! Depois, quando inclui as motos e os carros a fazerem peões no polígono industrial, ainda mais amor. Podemos gozar tudo o que quisermos com essa vida suburbana, meio pirosa, chunga, a que o audiovisual nos poupa do cheiro a fritos, mas não a podemos ignorar, como não podemos ignorar as 'nails' dela - podem ser uma arma, foi ela que disse, e está tudo nos versos de Aute Couture. 

O que vem depois disto é procurar o máximo de informação sobre ela. Então, confirma-se: ela cresceu nos arredores de Barcelona, junto ao polígono industrial, nessas cidades carregadas de migrantes, gente que veio de outras províncias de Espanha (agora de outros países também) e se fixou por aqui. É algo tão forte e já tão longínquo que até existe uma palavra para designar estas pessoas que nascem do encontro entre um catalão e um não-catalão, um xarnego. Ela diz que é impossível viver ali e não ser contaminado por outras culturas, a da Andaluzia, nomeadamente. O flamenco, que ninguém nega, mas outros sons - a copla. Há qualquer coisa de La Pantoja em Rosalía e não sou eu que digo, são os especialistas em música que a entrevistaram no programa La Ventana. Ela assente. 

Tem sido um debate longo este. Desde que o disco El Mal Querer apareceu que puristas de todo o género - dos costumes ou da música, não sei bem - reclamam que Rosalía se apropria indevidamente da música, símbologia e poesia flamenca. Afinal, ela é uma paya. Não percebo a raiz destas críticas. Elas têm muito menos eco no espaço público do que os elogios, mas creio que foram associações de mulheres ciganas a dizê-lo. Entre os músicos, pelo menos, só vejo aceitação. Aliás, esta Niña de Los Macarras cantou com Niña Pastori e não sei que mais se pode pedir.

Acusada de apropriação cultural, Rosalía diz: "A cultura não é de ninguém". Rosalía tem personalidade flamenca, como lhe disse o diretor de uma tablao madrileño onde ela se apresentou antes desta loucura toda. Isso devia chegar? Se sim, não é o caso.

Não nos deixemos iludir pelas longas 'nails' de Rosalía e o estilo J. Lo da Amadora. Ela não é um bebita que sobe ao palco a abanar o rabo. Podia, mas não é o caso e apetece dar-lhe crédito. Rosalía, que nasceu em 1993, é uma marrona. Licenciada em Cante Flamenco pela Escola Superior de Música da Catalunha. Consta - talvez seja lenda - que o professor que a ensinou só aceita uma aluno por ano. Foi ela. O mestre garante que ela lhe chegou virgem dos ouvidos no que ao flamenco diz respeito. Cantava jazz e blues, podia ter feito carreira por aí, mas dedicou-se a essa canção complexa - jaleos, palmas, tacones. "Dedicação e paciência", diz ela. Estudar os clássicos como Camaron de la Isla ou Enrique Morente e descobrir que o que chamamos de clássico foi então revolução. E, depois, uns beats eletrónicos que vieram mudar tudo. 

O cúmulo da intelectualidade é sabermos, depois, que El Mal Querer é uma tese de final de curso. Pegar num romance flamenco anónimo do século XIII e reescrevê-lo com o sabor de hoje. Em capítulos. Com cruzes e skates, com anjos e santinhos, mas também a velocidade, o empoderamento e os sons dos motores e dos travões, como se ouve no capítulo Disputa: De Aquí no Sales. 

"É a que mais gosto. Até me dava pudor escrevê-la", diz Rosalía. Autora, compositora, produtora. Um orgulho.

Qual é a letra de Lua?

Faz menos de um mês. A criança, seis anos mal medidos, avessa a ler, contar, reter qualquer arremedo de história, descobriu o truque. Que a cada som corresponde um desenho, e assim começaram a aparecer nos seus desenhos, o nome, a data, frases curtas - a mãe é bonita, a escola é grande, eu gosto do pai. A letra manuscrita é grande angulosa, exige conhecer a terminologia. A letra E é uma argola, o R um castelinho, o P é o pauzinho com mochila e o C é uma lua. 

Às vezes, a vida é assim: um documentário ou série do Netflix atrás de outro

Estive uma semana inteira a pensar na vida e no que não sabemos depois de ver o documentário sobre Michael Jackson, Leaving Neverland (HBO).

Escrevi mentalmente tudo o que queria dizer - de como nem sempre o abuso implica violência e que isso é o que torna tudo mais retorcido; que aquelas crianças foram seduzidas e que isso as faz sentir culpa; como esse caldo as faz ficar em silêncio.

Nessa semana, muitas pessoas diziam-me: "Mas não sabias já?". E bem, sim, eu sabia que ele tinha ido a tribunal acusado de abusos sexuais e que tinha sido ilibado. Já nem me lembrava que tinha havia um acordo judicial de milhões no primeiro caso. Mas não se trata disso.

O que Leaving Neverland me trouxe de novo foi perceber que as crianças gostavam de Michael Jackson, que as mentiras que disseram foram por gostarem de Michael Jackson.

Leaving Neverlando

***

Depois, ela começou a falar-me no documentário sobre o desaparecimento de Madeleine McCann.

E nessa semana não consegui mais parar de pensar na criança e nos pais. Há, logo, aquele detalhe que é como um soco: os pais nunca lhe chamam Maddie. Ela é a Madeleine. Começamos logo isto enganados.

O que se passa com este caso é que parece tão simples que qualquer pessoa pode ter na sua mão a chave do mistério.

Por outro lado, profissionais vários já estiveram envolvidos sem nenhum êxito. Ponho até a possibilidade de esta menina ter saído pelo seu pé, ter caído e ter morrido sem que ninguém se tenha apercebido.

Do que li, e não foi publicada assim tanta coisa em torno do documentário (já que ainda por cima a produtora não o promoveu), foi bastante criticado no Reino Unido por não trazer nenhuma novidade.

Os pais não quiseram falar por considerarem que a sua participação não acrescentaria nada enquanto há uma investigação em curso.

O que "O Desaparecimento de Madeleine McCann" faz é reconstruir a história pelas várias teorias que foram sendo investigadas até aos dias de hoje.

Os pais podem ser culpados (era o que eu pensava antes de começar a ver), mas também podem não ser. Há tantas possibilidade de esta menina ter sido raptada como de ter sido morta pelos pais.

Talvez não tenha novidades para muitas pessoas, mas não me posso incluir nesse grupo tão bem informado.

Eu descobri imensas pequenas coisas:

- Como a imprensa prejudicou as investigações, por um lado; e como foi manipulada, por outro. É como se me espetassem um punhal.

- Como a investigação foi mal conduzida. Há a atrapalhação inicial, mas essa pode acontecer a qualquer polícia do mundo. Devíamos ser mais compreensivos em relação a isto, tendo em conta que quando não há certezas, é preciso apostar numa hipótese e segui-la.

- Já não se pode ser tão compreensivo com a necessidade de encontrar um culpado à força só para apresentar resultados. A dada altura, percebe-se, a PJ já não está à procura de Madeleine, está a querer salvar a sua pele. E, por amor de Deus, eram apenas críticas. Muitas delas justificadas.

Parte do processo está online. É só ir ver o que foi perguntado às inúmeras testemunhas do caso. É só ver que entre 3 e 6 de maio recolheram depoimentos de mais de 100 pessoas. Que em tão pouco tempo é perfeitamente possível ter falhado alguma coisa. Que se devia ter voltado a falar com todas estas pessoas e não apenas com algumas.  

- Finalmente, os pais, e quem os aconselhou (o que não fica claro para mim), na sua tentativa de manter a atenão sobre o desaparecimento da filha acabaram por banalizar a criança, as buscas, o caso. Tornou-se uma ficção baseada em factos reais que era preciso alimentar. Essa parte também prejudicou a investigação.

Debatemos bastante o assunto no jornal, mas não chegámos a nenhuma conclusão. E a criança continua desaparecida quase 12 anos depois. Tira o ar só de pensar. Não devíamos parar de procurar.

Madeleine McCann

***

Entretanto, enquanto andava nisto, o António entretinha-se com After Life, a série da Netflix escrita e realizada pelo Ricky Gervais, que é também o protagonista. Explico-a como ele me explicou: a mulher de um homem morre e deixa-lhe um vídeo com indicações para a vida. Ele sente-me miserável e infeliz, passo-lhe o pior pela cabeça.

After Life, de Ricky Gervais, no Netflix

Para quem vê, é triste e divertido em partes iguais.

Este sábado de manhã, quando terminei, a soluçar, o António não teve a tentação de me gozar. Ele sabe que aquele último episódio vale bem aquelas lágrimas. É verdade e quase todos os dias esquecemos, são as coisas mais banais e pequenas  - uma camisa passada a ferro, a louça lavada ou uma jarra com flores - que nos levam para a frente. São muito grandes, as coisas pequenas.

***

Próxima? Aceito sugestões.

 

Quem quer casar com o inútil?

Destes programas que estrearam ontem - Quem quer namorar com o agricultor? (SIC) e Quem quer casar com o meu filho? (TVI) - só espreitei o segundo e, por pouco tempo (com grande pena). Mas foi uma boa parte. Aquela em que a mãe do candidato diz que a futura nora tem de ser boa cozinheira.Concluí o mesmo que a Pipoca Mais Doce: terá o rapaz alguma deficiência que o impeça de aprender a fazer uns bifes com arroz?

Eu sei que isto é televisão (logo, exagero), mas deixem-me dizer isto claramente: é óbvio que homens assim têm dificuldade em encontrar namorada ou mulher em 2019. Porque só pistoleiras, alpinistas sociais e preguiçosas aceita ser criada para todo o serviço. Nenhuma rapariga em condições (pelos padrões de hoje) se vê neste papel.

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