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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Quem quer casar com o inútil?

Destes programas que estrearam ontem - Quem quer namorar com o agricultor? (SIC) e Quem quer casar com o meu filho? (TVI) - só espreitei o segundo e, por pouco tempo (com grande pena). Mas foi uma boa parte. Aquela em que a mãe do candidato diz que a futura nora tem de ser boa cozinheira.Concluí o mesmo que a Pipoca Mais Doce: terá o rapaz alguma deficiência que o impeça de aprender a fazer uns bifes com arroz?

Eu sei que isto é televisão (logo, exagero), mas deixem-me dizer isto claramente: é óbvio que homens assim têm dificuldade em encontrar namorada ou mulher em 2019. Porque só pistoleiras, alpinistas sociais e preguiçosas aceita ser criada para todo o serviço. Nenhuma rapariga em condições (pelos padrões de hoje) se vê neste papel.

Há alguém aí fora???

Retomo o contacto prometendo assiduidade em 2019 e desejando que nos corra tudo bem. A todos nós.
Em 2018 deixei de ler blogues, o que fez com que me esquecesse um pouco que também tinha um para ir escrevendo.
Se calhar só preciso de encontrar gente nova que fale das coisas que estou a passar (adolescência, primária, etc.) para me voltar a entusiasmar com a leitura.
Para a escrita já encontrei motivação. É a do costume: Madalena, Teresa, Francisca.
Por uma razão que já não me lembro, mas que pode bem ter sido apenas nostalgia, fui ler 2012 e 2013 e dei-me conta do bom que era contar coisas pequenas que me levam para esse lugar que já não existe (e onde elas são bebés) ao mesmo tempo que chafurdo em memórias deliciosas. Sim, elas são mesmo queridas. E tudo era mais fácil, então.
2018 foi um ano bom em muitos aspetos, começando no facto de estarmos todos bem de saúde, mas lixado dentro desse espaço reduzido que é a minha cabeça. Muitas dúvidas, muita revolta, muita frustração ao perceber que certas coisas não mudam nem vão mudar. Sobretudo, muito pôr em causa escolhas que sempre me tinham parecido corretas. E expectativas goradas.
Coisas concretas (e importantes para mim) que fizeram parte desses dias, mas que não cabiam aqui, porque eu nem sabia, nem sei, como as dizer.
Passou o ano. É tudo novo. Vamos lá. Está tudo perfeito com as crianças, isso é que interessa. E se não chegarem a génios, porque não querem aprender a tabuada, ao menos hão de ser boas pessoas.

Será por aqui que o gato vai às filhoses?

Esta semana houve ridicularização quanto baste à PETA por querer que deixemos de usar expressões como "matar dois coelhos de uma cajadada" e agora, no final da semana, descobrindo que Portugal foi colonialista, percebemos que espólio dos nossos museus pode ser reclamado por outros países. São dois assuntos totalmente diferentes. Em ambos, porém, há sempre alguém que vem e diz: "esta fúria do politicamente correto..."

A mim nem me importa que se queira higienizar a língua. Como já disse algures por aqui, é essa tomada de consciência para as coisas que dizemos que faz com que hoje se olhe de lado para uma pessoa que usa a palavra "paneleiro", até mesmo maricas. Não me lembro de ver muita gente a chorar por elas. E, no entanto, como se vê, continuo a usá-las. São coisas naturais que nos vão acontecendo. Alguém chama a atenção, alguém ganha noção do valor de certas palavras, alguém começa a não usá-las. Por algo ganharam cargas diferentes o vermelho e o encarnado.

Gosto particularmente deste exemplo, porque sempre associei a rudeza da linguagem ao encarnado e a polidez ao vermelho quando, aparentemente, muita gente vê ao contrário. Só para sublinhar como uma palavra não é apenas uma palavra. [Se fosse, aliás, não havia pais que demoram nove meses indecisos com aquele que vão escolher para os filhos. Ou, pelo contrário, aqueles que põem esforço em despachar esse assunto não lhe dando demasiada carga. Como eu.]

Segundo caso de politicamente correto: o das obras de arte que Angola quer 'reclamar' e outras ex-colónias também poderão querer no futuro (incluindo Portugal que deixou muita coisa pelo mundo). A história não anda para trás. Aconteceu assim e com este passado temos de viver. Mas também não faz mal inventariar tudo o que há e tomar decisões baseadas na ciência. Há casos e casos. Estudemos. Isso também é a História a avançar.

O que aborrece um santo é a pessoa ver-se, nestes casos, e no bendito artigo 13, sempre do lado dos velhos contra maneiras novas de ver as coisas. Põe-me doente ver que estou do lado dos conservadores, e mais doente ainda ver que ninguém se rala com isso. As pessoas entram numa certa idade em que não vale a pena dizer nada, porque já não mudam de opinião. E não mudam porque puseram uns óculos que alguém lhes deu quando andaram na escola e acham que nada mais avançou. É patético, minha gente da geração de 70. É como desprezar os coletes amarelos e entender todos como violentos. Disseram o mesmo daqueles rebeldes estudantes que em 1968 foram para as ruas.

Estamos tão errados ao não tentar perceber ideias novas. 

E só para rematar, veja-se como, por exemplo, a Junta de Investigações das Colónias, nascida nos anos 30 para estudar o que passava por lá - botânica, por exemplo - passou a Junta de Investigações do Ultramar em 1963 e a Instituto de Investigação Científica Tropical, já nos anos 80. Porque isto do politicamente correto da linguagem é uma praga do século XXI. #sóquenão.

 

Wuant. O Artigo 13. O mundo

Estamos velhos. Não entendemos. 

O vídeo: 

Tem imensas incorreções e falsos alarmes, mas um ponto importante: fala do que interessa às pessoas de uma geração mais nova. 

A notícia do DN: O fim da Internet? Como um Youtuber lançou o pânico entre as crianças

A resposta de Wuant:

Again, muitas incorreções, muita coisa pela rama, mas uma coisa importante que andamos a ignorar - uma linguagem, uma abordagem que é aquela que a minha filha precisa. 

Senhor, faz com que eu não seja essa "mãe funkeira" que envergonha as crianças. 

O lugar das raparigas

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Estava tudo a correr bem na Web Summit até que Portugal se intrometeu na narrativa. De repente, alguém se deu conta: numa cimeira tecnológica muito preocupada com paridade (e um amplo painel de mulheres palestrantes), o retrato que fica para a posteridade é de Paddy Cosgrave, António Costa, Fernando Medina e um monte de homens que representam a comunidade de starups portuguesas. Só mais uma prova que não é preciso viver na China para termos um país, dois sistemas.

Talvez algumas pessoas vejam com benevolência estas coisas. Para elas estão preparadas as mesmas frases que se dizem a pessoas om doenças graves cujo desfecho é incerto:

- É o que é.

- Não se muda tudo de um momento para o outro.

- No futuro será diferente.

- É questão de tempo.

São bons comentários, mas não me chegam.

Eis o que preciso:

1) Identificar o problema

A primeira coisa a dizer nestes casos é que não é por acaso que esta fotografia da comunidade de startups portuguesas está cheia de homens. Esta imagem é o resultado dos milhares de anos de história que nos precedem. Não é um problema dos homens, não é um problema de Portugal tão só, é um problema de todos.

2) Nomear o problema

Fosso de género e desigualdade. Essa injustiça horrível que acontece às mulheres só por serem mulheres.

3) Falar do problema

Nenhuma destas pessoas será diretamente responsável pelo machismo, todos contribuímos. E para mudar faz falta um ditado popular: Roma e Pavia não se fizeram num dia. Nem aconteceu do nada que os americanos tenham ficado com o monopólio da tecnologia nem aconteceu do nada que as mulheres achem que não têm jeito para computadores ou matemática. É o resultado de anos e anos de opções.

Algo tão simples como passar horas a jogar computador, coisa muito típica entre os rapazes da minha geração, criou um lastro de interesse e conhecimento que levou muitos para a informática. Rapazes e máquinas pareceu sempre uma combinação 'natural' quando de natural não tem nada.

4) Debater o que está a ser feito para pôr fim ao problema.

E é por isso que acho que devemos tomar a iniciativa consciente de não representar raparigas apenas com lacinhos e tiaras. É preciso dar-lhes as chuteiras, os lápis, os legos, as construções, os kits de computador Mostrar que podem, como os rapazes, estimular zonas cerebrais diferentes das que se usaram nos últimos anos, mas totalmente ao seu alcance.

E, já agora, também podemos, seguindo a mesma lógica das opções conscientes, ouvir pessoas diferentes das habituais sobre o que são homens e mulheres e descobrir ideias novas. Há essa opção e há a do costume, que é deixar na mãos de homens que pertencem a uma elite cultural, social e/ou económica a perorar sobre o que é o bom e o mau feminismo. O bom, adivinhem, é sempre aquele que desculpa, nem que seja só um bocadinho, o infrator.

Ecrãs: essa luta

É uma luta que tenho: convencer as crianças a largarem os aparelhos eletrónicos E que está a enlouquecer outros pais, li hoje no The New York Times. Não se trata tão somente de dizer 'parem com isso', são pais que querem iPolícias e uma outra conclusão séria - afinal, os ecrãs estão a dividir as escolas. Os mais ricos estão deixar a tecnologia para trás enquanto nas frequentadas por alunos mais pobres, os dispositivos estão por toda a parte. Como se chega ao ponto de equilíbrio? Alguém com boas ideias sobre isto?

 

Beijinhos: sim ou não

Parece que a polémica do dia é esta: devemos ou não dizer aos nossos filhos para darem beijinhos? Às vezes, o pior da "internet" é achar-se que para tudo temos de ter uma opinião. Tenho de ter uma opinião sobre este tema? Para ser completamente franca, nem sei muito bem o que costumo fazer.

Penso nas mil situações em que, pequena, não me apetecia dar beijinhos. As pessoas eram-me estranhas, mesmo que fossem da minha família, não gostava. Gostava que me salvassem. Quando crescemos, somos mais espertos. Inventamos desculpas piedosas ou damos o tal beijinho e seguimos em frente. Tantas coisas que, crescidos, aprendemos a suportar.

As crianças devem ou não ser obrigadas a dar beijinho? Não é não também nestas ocasiões?

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Elas crescem

Chamam-me "a menina mãe" (a Francisca) e dizem coisas como "estou determinada" (Teresa) ou "hashtag 'tou chateada" (Teresa) ou querem ir ver o Ed Sheeran (Madalena).

Para implicar com o feminismo tudo serve

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Que a Serena Williams usou o feminismo em vão para se justificar de uma derrota parece claro. Passar disso para lhe chamar a estratégia da vitimização (e assim diminuir a questão), como faz João Miguel Tavares neste texto, vai um passo muito grande. O feminismo não deixa de ser importante porque uma atleta o usa num mau dia.

Além disso, Serena Williams é uma grande, grande atleta. Apenas teve ce enfrentar uma derrota épica em público. Quantos de nós conseguiríamos? Tão poucos que todos os grandes atletas do mundo não enchem um Estádio da Luz.

E embora o comportamento me pareça inaceitável -- mereceu todas as penalizações (pelo conteúdo e pela forma) --, não é isso que diminui a importância do que está em causa: uma sociedade orientada para manter o poder entre certas pessoas, deixando muitas outras, com idênticas capacidades, de fora.

Temos de nos habituar também a isto: o feminismo É um assunto e vai ser mal usado. Não deixa de ser importante por isso.

Mas, já agora, sim, num sentido lato, sim, Serena Williams é uma vítima. Ou melhor, ela é uma flor que teima em nascer no pântano. Quando, em outras situações, Serena diz "eu", quer dizer "nós", como nos poemas de Maya Angelou (estive a ver este esclarecedor documentário).

Serena sobressai num país onde o racismo é um facto. Sobressai num mundo em que as mulheres ganham menos do que os homens. Ela, em concreto, até pode ganhar mais, mas vamos comparar historicamente? Vamos comparar o simples facto de ser preciso salientar as diferenças de salários nesta e em outras profissões?

Lá está. Quando se trata de implicar com o feminismo, tudo serve.

 

|foto: AP, e a Serena continua a levar os melhores modelos para o court|

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