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Quem sai aos seus

Um blogue para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Is anybody out there?

Deixei de escrever regularmente, porque perdi o ritmo (e o músculo). Com as crianças todas na escola "a sério" fiquei (ainda) com menos tempo. No trabalho, mudei de tarefas e passei a ter muita preocupação, o que me consumiu muita energia mental. E deixei de ler blogues, o que também ajudou a não me apetecer dizer alguma coisa. Aprendi muito nos blogues de outras mães, mas esse tempo passou. As miúdas cresceram, suponho que eu também, e o desinteresse instalou-se. Não há dois bebés iguais, muito menos  meninas de 7, 10 ou 12 anos. E, com estas idades, há coisas que não podem ficar num álbum de recordações público. Ou que não me apetecia contar porque eram dolorosas.

Mas, a bem da verdade, talvez a principal razão seja que fui tomada por uma enorme preguiça! Não me apeteceu. E acho também quis usar essa liberdade que o blogue sempre me deu. 

jean_michel_basquiat_006_liberta_1982.jpg

Jean Michel Basquiat, "Freedom" (1982)

 

 

Férias. Dia 1. A organização

IMG_1510.jpgA foto definitiva que documenta a personalidade das minhas filhas.

A que deixa tudo espalhado e de qualquer maneira, a que deixa tudo sobre a toalha de qualquer maneira e a que leva uma malinha e arruma tudo. Enviado do meu iPhone

De que têm mais saudades?

Parece ser a pergunta do momento: De que tem saudades dos tempos antes do confinamento?

A bem dizer, não tenho saudades de nada.

Apesar da loucura das aulas ao mesmo tempo que trabalho, estes têm sido dias de estarmos juntos, e bem, em que temos cozinhado mais e melhor, e de fazer coisas que gostamos como ver séries e ler (no caso do pai, eu não peguei num só livro, shame on me).

Não se pode dizer que tenha saudades de estar na rua. Embora não me ande a apetecer correr, tenho feito boas caminhadas, junto ao Lizandro e na Tapada da Ajuda, sítios maravilhosos, que dão para matar saudades.

Nas últimas duas semanas, já nos encontrámos com os meus pais e com amigos. Estamos a retomar o convívio. Matei saudades de algumas pessoas, pretendo continuar. 

Só muito vagamente me apetece ir almoçar/ jantar num restaurante. Ou dançar. Ou ir ao cinema. 

Apetece-me ir a um museu ver coisas diferentes. Beber uma caipirinha ao ar livre. Não muito mais. 

Lourdes Castro: "Sombras projetadas (com René Bertholo)", 1964

 

 

 

Tem resposta para tudo

Tem sido quase todos os dias assim. A Quica senta-se a fazer as suas aulas, eu estou aqui atrás do meu ecrã ou a ajudar e ela vai dizendo as coisas mais incriveis (e divertidas).

Hoje.
Professora: Acham normal eu estar na savana?
Quica: Cada pessoa escolhe o que escolhe.

Ontem.
- Quica, the car is on the table. Onde está o carro?
- Olha, mãe, eu punha na garagem.

Adoro-a.

 

Teletrabalho e aulas a três crianças. O único milagre que veremos em 2020

Como é teletrabalhar e ter as crianças em casa a estudar? Em anterior post disse que haveria de escrever sobre esse assunto e foi esta semana no DN. Deixo aqui:

"Escrevo sobre como é teletrabalhar e ser mãe de três crianças a estudar em casa, sim, mas só depois de ter revisto o que ficou para trás da escola". Este texto começou assim, esta manhã de segunda-feira, enquanto mandava um olhar furibundo à minha filha mais velha, 12 anos, para que fosse estudar e não demorasse quase uma hora a tomar o pequeno-almoço. Ao mesmo tempo, ligava a do meio, 9 anos, a uma aula síncrona no Microsoft Teams e com a outra mão sentava a de 7 anos, aluna do 1.º ano, no banco para começar a trabalhar ao meu lado na sala. "Tenho mesmo de estar aqui?", perguntou ela. Apetecia-me devolver a pergunta: E eu, tenho mesmo de estar aqui?

Bem sei, caro leitor, que nada tem a ver com os problemas que afligem esta mãe que antes do estado de emergência se sentia culpada por estar pouco com as filhas e agora, com tanto tempo de qualidade, se desgasta com ralhetes porque não sabem a tabuada, dão erros ortográficos ou não sabem os meses do ano. Concordemos neste ponto: já seria difícil ensinar sem ser professor. Mas teletrabalho e ensino a distância é o que teremos de mais parecido com o 13 de Maio em 2020.

À mesma hora que o DN fazia chegar aos vossos computadores e telefones os números de infetados com covid-19 em Portugal, a minha filha do meio entrava sala adentro para me pedir contas: "Não me avisaste da hora e a aula já começou". Nota para mim própria: pôr alarme para ela saber quando tem de entrar na videochamada. Entretanto, e porque não usam a Telescola, a aula da mais nova também já tinha começado! O telemóvel - onde controlo as várias turmas - não parava de vibrar com mensagens dos amigos da mais velha. "Posso ligar? Não dizes nd? Ads! Q estás a fazer?". Lembro-me que ela existe. Aviso-a: a sessão já começou. Zero reação. Era bom que o novo coronavírus tivesse a mesma capacidade de não se mexer.

Segundo o grau de escolaridade, assim são as nossas conversas. No 6.º ano: "Já fizeste?". No 4.º: "Agora não posso ajudar". 1.º ano: "Senta-te e concentra-te". Para todas: "Deixem-me trabalhar". Não resultou com Cavaco Silva, mas pode ser que resulte hoje.

Além de jornalista, por estes dias sou cão de fila da adolescente precoce que gostaria de passar o dia a ver YouTube, procuro libertar a de 9 anos como se acreditasse que ela é capaz de fazer isto tudo sozinha e ainda tento ensinar qualquer coisa à pequena, aluna do 1.º ano.

Venho cá reclamar um pouco de atenção e mimo para o primeiro grau de escolaridade. É triste - e frustrante - ter uma criança que está quase-quase a ler e que agora não temos tempo para acompanhar como deve ser, e como merece. Sinta agora, caro leitor, a nuvem negra a abater-se sobre esta conversa: todo o trabalho que a minha filha fez desde setembro, e que muito lhe custou, está empatado. Em suspenso! Como a economia, sabemos que voltará ao trilho, mas não será com um estalar de dedos. Entretanto, quem já estava em melhores condições, evolui mais. Mas nenhuma criança pode ficar para trás.

Seria muito mais fácil se me pudesse queixar dos professores. Se pudesse dizer que mandam trabalhos a mais e que são muito exigentes. Ou que não ligam nenhuma. Não posso, em sã consciência. Os trabalhos que pedem são adequados às idades, capacidades dos alunos e necessidades. Há um método de trabalho, há apoio, há muita disponibilidade, incluindo num domingo à noite e, finalmente, muita compreensão para a situação em que cada família se encontra. Nós também pusemos bastante da nossa parte para que resulte - dispositivos eletrónicos, rotinas, conversas (alegadamente) motivadoras, mais calma do que é normal e até a impressora a funcionar.

Simplesmente, não conseguimos estar em dois sítios ao mesmo tempo.

 

Coronavírus: qualquer coisa boa

David Hockney’s “A Bigger Interior With Blue Terrace and Garden,” from 2017.

Que o novo coronavírus seja um recado da natureza a pedir-nos para irmos mais devagar parece-me tão parvo como acreditar que água benta cura, mas há coisas boas a retirar deste período de isolamento para quem, como nós, o está a viver com saúde e em família (as miúdas estão em casa desde 13 de março, eu desde 14 e o pai desde 16).

Queria passar mais tempo em casa com as crianças mesmo que elas não me ligassem nada. Agora passo.
Discutíamos porque nos demorávamos a despachar para sair de casa. Já não acontece.
Eu queria cozinhar mais, e melhor, para todos. Agora posso.
O pai chegava tarde e não jantava connosco. Agora não acontece.

As coisas más da quarentena estão amplamente documentadas e também as sinto quase todas na pele e no coração, literalmente (matéria para outro post), mas as miúdas cresceram nestes dias, como se fossem as férias, e concluo que o amor, e cuidar de quem gostamos, ajuda a medrar. 

 

 

Notícias abertas: fazer o bem matando os jornais todos os dias mais um bocadinho

A pandemia ainda não era pandemia e Portugal tinha apenas uns 40 casos mal medidos, quando, passeando pelo Twitter, reparei num post que elogiava a decisão do jornal Público de abrir as notícias online por "serviço público".

Naquele momento que agora parece tão longínquo mas que não terá mais de um mês, eu também não achei mal. Pelo contrário. E como marketing, então, achei brilhante - o jornal abria as notícias e, mais do que isso, falava sobre isso. Bravo! Que decisão magnífica, pensou a jornalista que trabalha no Diário de Notícias. Quem me dera que nos tivéssemos lembrado disso.

Dias depois, dizem-me que a paywall tinha caído. Todas as notícias sobre coronavírus estavam agora acessíveis a toda a gente - mais uma vez, "serviço público". Mais uma vez, coro de elogios nas redes sociais. Mas, de repente, a cidadã que já pagava mensalmente a sua assinatura do Público, pensa: "Espera lá! Por que raios estou a pagar 4,99 euros/mês por aquilo que está a ser dado a toda a gente?". Não deveria ser ressarcida?

Mandei um mail para as assinaturas. Responderam que tinham prestado a melhor atenção ao meu mail, mas que estavam a fazer "serviço público". Devolvi a resposta dizendo que se tivessem prestado a melhor atenção ao meu mail saberiam que não estava contra a decisão, mas que achava (e acho) que devia pagar o correspondente. Porque antes do coronavírus, eu já achava que o Público prestava um serviço que me interessava e pelo qual estava disposta a pagar. Estou - ainda - à espera de resposta, sendo  certo que agora começam, de novo, a fechar artigos relacionados com coronavírus.

À medida que os dias foram passando, foi crescendo em mim a convicção de que estava a ser prejudicada. E estou. Claro que há artigos fechados para assinantes, a opinião continua apenas acessível a quem paga, mas, infelizmente, eu também só estou interessada em covid-19. Então, por que raios estou a pagar? Esta é, aliás, uma pergunta que se deve fazer não só a este jornal  como a muitos outros que determinam o que deve ou não ser de livre acesso aos leitores. Mais uma decisão errada. Não há outra maneira de dizer.

A gota de água foi o editorial do diretor, Manuel Carvalho, uma carta aos leitores e leitoras, apelando ao sentido cívico dos leitores no primeiro fim-de-semana de quarentena: "O propósito desta carta é chamar a sua atenção e apelar ao seu sentido cívico para constatar os perigos que corremos. Com centenas de postos de venda fechados, com as receitas publicitárias em queda acentuada, o futuro do PÚBLICO precisa mais do que nunca do apoio dos seus leitores. Do seu apoio". Isto depois de se ter borrifado para esta leitora depois de já ter ficado com o meu dinheiro. Francamente! Mas, fiquei assim a saber devo fazer caridade quando compro o jornal e não ir à procura de um jornal que me informe. 

Apesar do coro de aplausos à abertura de notícias, certamente de quem já não as pagava (o que é triste), era importante refletir sobre estas decisões, sobre a situação difícil em que os jornalistas vão entrar a partir de agora porque as receitas publicitárias entraram "em queda acentuada". Era bom até perder cinco minutinhos a pensar nestas decisões comerciais de dar 'borlas' que nunca passariam o crivo de um regulador da concorrência, e que poderiam até ser manchete de jornal. 

O jornalismo é sempre necessário, nem mais nem menos do que agora. A diferença é que perante a avalanche de dados, informação e esta situação tão peculiar em que nos vemos privados de tantos direitos (a coberto da 'boa causa') precisamos de ser ainda mais atentos e vigilantes. Precisamos até de sermos mais a trabalhar.

Uma notícia é trabalho de artesão: demora tempo, exige conhecimento, experiência acumulada, resistência, levar pancada e chatear mesmo quando o ambiente geral é de "vamos todos para casa fazer o bem, cantar à janela e fazer desenhos". É preciso valorizarmos realmente o lugar do jornalismo, o serviço que prestamos aos outros, como escreveu Diogo Queiroz de Andrade. Diogo, que fez parte da anterior direção do Público, diz que falar em serviço público é em hipocrisia, uma opinião que não partilho. Tenho a certeza que quem faz isto se move por boas intenções, mas, como o articulista lembra, a informação é tão necessária como a a comida (e o papel higiénico!) e não deixámos de pagar por eles. Nem pelos medicamentos. Nem pela internet. Nem pela televisão por cabo. 

Talvez seja bom lembrar que o dinheiro nem sempre é sujo. Por vezes, é apenas necessário. 

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