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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Veneza

#1

Lá diz o povo e com razão, não há fome que não dê em fartura. Depois de uma semana no Brasil, passei os últimos quatro dias em Veneza. Uma canseira que esta minha vida de jetsetter tem sido. Mais uma vez, em trabalho. Desta vez, a propósito da inauguração em junho de 2017 da Casa da Arquitetura, em Matosinhos, e para o encerramento da Bienal de Arquitetura, com Álvaro Siza a passar o testemunho ao artista plástico José Pedro Croft, que representa Portugal na Bienal de Artes Plásticas. Passei a manhã de sábado na ilha operária de Guidecca.

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A caminho de La Guidecca. De vaporetto, quase a perder S. Marcos de vista   

Era lá que estava o pavilhão de Portugal, nada mais nada menos que uma espécie de barracão montado em torno de um edifício de Siza que ficou por terminar nesta zona há 10 anos. Enquanto esperávamos o arquiteto, liguei os dados (nesta cidade não havia wi-fi em lado algum) e sou atropelada pela notícia: Fidel morreu.

Quando me perguntarem "onde estavas quando o líder/ditador (riscar o que não interessa) cubano morreu?" posso encher o peito e dizer: com Álvaro Siza, o maior arquiteto deste país, uma das pessoas mais queridas com quem já falei profissionalmente.

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Depois da visita pela exposição, pedimos para conversar um pouco melhor com o arquiteto. Num café pequenino, nós sentados, Siza, 83 anos, a beber água e a minha cara de parva a pensar se lhe devia pedir um autógrafo ou uma selfie, como tinham feito antes de mim dezenas de estudantes.

O incrível é isto: a cada pergunta, e perante a nossa estupefação, ele pegava na caneta e garatujava o caderno para explicar melhor o que dizia. Não o meu, infelizmente. Se fosse, já tinha postado aqui, emoldurado e pedido a avalição técnica de um perito de arte.

Pessoa mais querida e disponível para ouvir os outros o Siza. Não quero agora endeusar o senhor, isso leva sempre por maus caminhos (vide Fidel Castro), mas mostra sempre uma grande disponibilidade e um grande amor pelo seu trabalho. É admirável. Por exemplo, na preparação para a exposição encontrou-se com os moradores destes bairros de habitação social começados a construir nos anos 80. Houve quem se queixasse do barulho, houve quem se queixasse da casa de banho, que não têm janela. "É o pecado do arquiteto", diz ele. Querer sempre a beleza. E, depois, como é próprio dos arquitetos, tem uma enorme paciência. Ah, como admiro os arquitetos

 

#2

Da Bienal vi pouco, o que foi uma pena. Alejandro Aravena, chileno, Prtizker este ano, era o boss desta edição escolheu como título Reporting from the Front, o que teve o condão de afastar as estrelas do business e trazer para aqui gente já com experiência que trabalha perto das pessoas. É maravilhoso vermos aqueles projetos milionários de Herzog et De Meuron, Jean Nouvel ou Zaha Hadid, mas há vida para lá disso. Muita gente faz coisas incrivelmente boas e até tecnológicas sem precisar de falar em domótica ou de construir em mil metros quadrados. Só tirando partido do que já existe, mesmo que o que exista seja lixo ou, vá, para não ferir as peles mais sensíveis, desperdício.

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Mais: por incrível que pareça, para quem pensa que os tempos de Le Corbusier não voltam, fala-se de novo em cidades em altura. Por exemplo, esta torre construída em Tirana. O projeto é do gabinete belga 51N4E e, boas notícias, o trabalho desta malta há de estar representado na primeira expo da Casa da Arquitetura (16 de junho de 2017, Matosinhos, já apontei na agenda).

Só queria dizer mais uma coisa a propósito da passagem pela Bienal e é esta: as minhas fuças cruzaram-se com as de Alejandro Aravena, himself, atravessando a nave do Arsenale. Para quem não está familiarizado com o indivíduo, deixo uma foto e uma observação: a foto não faz jus à pessoa. Como é óbvio, só um de nós tem fuças e não é ele.

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#3

Veneza é uma Disneylândia da História, mas é, também, tão encantadora que é impossível não gostar, mesmo em trabalho, quando se vive a cidade numa correria para ir do ponto a ao ponto b para qualquer coisa. Mas foi também graças ao trabalho que pude ver e viver coisas diferentes. E não é apenas as coisas que se veem, é a maneira como as vemos. “É preciso observar, mas também é preciso aprender a olhar”, como diz Álvaro Siza num dos documentários da exposição. É como se estivesse a falar para mim.

Tinha 13 anos quando estive em Veneza pela primeira vez com os meus pais. Nessa época andámos por várias cidades italianas e nem ficámos em Veneza, mas sim em Mestre, a cidade mais próxima, em terra. Recordo o passeio de gôndola e nunca me esqueci do impacto de estar na praça de S. Marcos. Essa sensação não se repete por mais vezes que lá volte. Só a primeira impressão é que conta.

Em 2007, o António e eu fomos lá. Ficámos numa locanda muito querida, recomendada pela Inês e pelo Filipe, em Canareggio. Foram dias impecáveis, entre o ano novo e o batizado do meu primo Rodrigo (parece que vou sempre a Veneza antes do batizado de um filho da minha prima Elsa).

Lembro-me de andarmos muito. Lembro-me de passarmos tempo em Rialto e lembro-me do Palácio dos Doges. Do palácio, não das pinturas. Nem me lembrava que lá havia um Bosch. Esta viagem, há quase 10 anos, foi também a última antes de termos filhos. Em junho desse ano fomos a Nova Iorque, mas já estava grávida, não conta. É outra vida. Na verdade, pois, nunca voltamos à cidade que conhecemos, mas descobrimos uma nova, que vemos com os olhos impregnados de tudo o que vivemos desde então. (Ok, sei muito bem que não descobri a pólvora, mas preciso de assinalar isto para dizer que senti mesmo isto.)

#4

Apesar de ser a terceira vez que estive em Veneza, nunca tinha posto as pés na Giudecca nem nos Giardini, uma zona mais afastado de S. Marcos e ausente da lista de coisas obrigatórias a fazer na cidade quando se vai por poucos dias. Percebe-se. Com tanto para ver, quem se vai meter num parque? Só os malucos das Bienais, os donos de cães, corredores ou moradores. Precisamente por ser mais afastada do centro, vivem por aqui mais pessoas, o que é quase uma raridade. Apenas 50 mil pessoas habitam esta cidade que recebe 20 milhões de turistas por ano.

Comprovei o assunto este domingo, pela fresca, às 08.00, quando calcei as sapatinhas e fui fazer uma corridinha higiénica para queimar as calorias do Amoretto da noite anterior e fazer check na minha lista de localidades portuguesas e estrangeiras onde já corri (Lisboa, Londres, Viseu, Ericeira, Porto, Paris...). Devo dizer que éramos muitos. E, imagino, boa parte deles seriam também turistas.

É uma coisa que a pessoa percebe logo, e aceita: os estrangeiros e os trolleys com rodinhas fazem parte da paisagem de Veneza. Mas, segundo as pessoas com quem estava, é proibido circular com as malas à noite. Aliás, à noite não circula nada. Passeámos quase sozinhos por aquelas estreitas calles (rua, no dialeto veneziano, é igual à palavra espanhola). Nós e, pelo menos um ratinho, avistado na noite de sábado, junto a uma ponte, quando voltávamos do jantar.  

Desta refeição não reza a história (com exceção do tal Amoretto à sobremesa), mas, sem dúvida, é obrigatório dedicar umas linhas ao que comi numa enoteca pequenina, junto a Rialto, cujo nome não fixei -- Bacalà amantecatto (bacalhau amanteigado sobre cama de polenta branca), raviolis e tiramisú, servidos por uma daqueles italianos louros, grandalhões, que nem dá espaço para conversa quando percebe que está perante forasteiros. Decide ele o que se vai comer e quem não gostar já sabe: porta da rua, serventia da casa. A acompanhar o meu novo vinho de estimação, Pinot Grigio. Ponto número 1, sinto-me chique ao pronunciar as palavras pinot grigio. Ponto 2, até uma moderada apreciadora de vinho, como eu, percebe que aquilo é outra louça.

#5

Regressar é ter a certeza que valeu a pena ir. Tudo o que lemos, vemos e conhecemos fica no que fazemos a seguir. As viagens com os meus pais valeram por todas as matérias que dei na escola. Sabemos que a praça de S. Marcos é grande, mas estar lá é perceber como somos pequenos. Sabemos que Veneza foi construída sobre ilhas e que tem canais, mas sentir o seu cheiro, às vezes bastante mau, é outra coisa. E é isso que quero fazer pelas minhas filhas. porque de todas as coisas que temos de fazer como pais, atapetar o cérebro dos nossos filhos com coisas bonitas é a que me parece mais importante. E viajar não é apenas apanhar um avião, é ver o que está ao nosso redor. Há sempre algo novo para descobrir.  Note to self: empenhar-me mais neste assunto.

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