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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Não mando mas também quero fazer bem a minha profissão, ok?

Sem que perceba muito bem porquê, este fim de semana bati de frente com trabalhos o género "será que as mulheres não estão preparadas para mandar?"  (RTP) e "mulheres e poder -- como é que elas conseguem conciliar tudo?" (hoje, no DN).

Sobre o primeiro, queria apenas dizer isto: sou chamada a tomar decisões e agir em conformidade com elas, isto é, a mandar, todos os dias. Sinto-me 100% capacitada para o fazer. O que não tem nada a ver com ser mulher, homem, esquilo ou castor. São circunstâncias da vida. Assunto arrumado. É a história das "Mulheres e do poder -- como conseguem?" que me tira do sério. Porque:

1. Até parece que um pessoa quando não tem um cargo de chefia não tem de conciliar vida profissional e vida pessoal. Até parece que eu posso ser piorzinha no trabalho só porque tenho três filhas. O que é isso quer dizer? Eu tenho mais desculpa porque tenho mais crianças? Todas as pessoas sem filhos são excelentes profissionais, todas as mulheres sem filhos chegam a cargos de chefia? Persistir na ideia de que é uma grande dificuldade para as mulheres chegarem a cargos de chefia porque têm filhos é apenas muito cómodo. É muito cómodo afastar pessoas (mulheres, no caso) talentosas e profissionais do caminho. Sim, e lamento anunciar isto ao mundo, mas nem sempre os lugares de chefia estão ocupados pelos mais competentes. Não estou a dizer que não sejam competentes, estou a dizer que muitas pessoas chegam a cargos de chefia porque um conjunto de circunstâncias os levaram lá. Incluindo a de não terem filhos. Embora também seja uma injustiça achar que as mulheres sem filhos têm obrigatoriamente de chegar longe na profissão (só para acumular mais uma frustação se não conseguirem).

2. A minha vida profissional TAMBÉM é a minha pessoal. Ser jornalista, trabalhar agora no DN, também é parte do que eu, Lina Santos, sou. Como todos somos muitas coisas. E ainda bem. Sempre que usamos o verbo conciliar para nos referirmos às nossas obrigações diárias, partimos do princípio que elas estão em mundos opostos. E, na verdade, não estão. A minha vida é assim, não consigo contabilizar quanto é que ser jornalista afeta o meu ser mãe, nem o quanto ser mãe afeta o meu eu jornalístico. Só sei que eles se 'contaminam' (e ainda bem), só sei que isso é bom, só sei que isso é assim com tudo nesta vida. Como eu sempre ter gostado de televisão me ajudou durante uma importante fase da minha vida como jornalista. O que veio primeiro? Não sei. Mas parece que só quando falamos de mulheres, filhos e trabalho é que essa questão se põe.

3. Estas perguntas não se fazem aos homens, contribuindo para que permaneça a ideia de que as mulheres é que têm de se preocupar com o que há para jantar, o que há para vestir e se está tudo limpo, coisas que, vou chocar o mundo de novo, nada têm a ver com o facto de ser mulher e, mais choque, nada têm a ver com o facto de ser mãe (ver ponto 4).

4. O que fica destes trabalhos sobre conciliação da vida profissional e familiar é também a ideia de que ser mãe é uma tarefa, um emprego que as pessoas têm, algo que têm mesmo que fazer. É como se dissessem assim: se não fizer o jantar para os seus filhos não é tão mãe como se fizer. Ou se não der banho. Ou se não os for buscar à escola. Ora, tenho novidades: ser mãe não é um emprego. E não é o melhor emprego do mundo. Desde logo, porque, como sabemos, se fosse todos os presidentes de conselho de administração de empresas destes país o estariam a disputar, o que não é bem o caso. Ser mãe é uma RELAÇÃO que estabaleço com três seres humanos (como se diz aqui). Como quero que a relação funcione ocupo-me de as manter limpas, educadas, bem alimentadas (ordem aleatória) mas não é isso que faz de mim uma mãe. O que faz de mim uma mãe é o tempo que passo com elas nessas atividades e como tiramos partido disso. É o entretanto, é o intervalo. Pelo menos para mim.



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