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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Não existe discriminação grande ou pequena. Existe e é para ser combatida

Vai por aí uma grande confusão sobre esta história do já chamado, com graça, Happy Meal Gate. Quando eu ia arrumar o assunto na gaveta das coisas passadas, aparece-me este texto do jornalista Pedro Ivo de Carvalho (PIV), que me deixa mesmo triste.

Primeiro, fico triste porque ele começa por explicar as razões que o levam a discordar da questão da discriminação e entra numa escalada de ridicularização às pessoas que consideram legítima e aceitável que se deixe de dividir os brinquedos por "de menina" ou "de menino" -- pessoas como eu -- que me chateia.

Apesar do que disse no post anterior, que sou uma dessas maluquinhas que consideram um avanço esta coisa de não se rotularem os brinquedos como sendo de menina ou de menino, na verdade não só não acho que seja maluca (estava a ser irónica) como acho que tenho razão e que é uma medida simples que promove a igualdade. Pronto, isto era a primeira coisa que queria dizer: não sou doida, não sou maluca, sou uma pessoa que até investe bastante tempo a entender estas questões e, precisamente, a diferença que fazem medidas simples como estas e outras, tão básicas como elogiar as competências intelectuais das raparigas em vez de elogiar apenas os seus atributos físicos. Podem ser giras, claro, e também se devem importar com isso, mas é bom que sejam reconhecidas por serem fortes, corajosas e outras características que, como se lê no tal inquérito que acompanhava a promoção do McDonald's, são claramente discriminatórias. Criatividade e culinária vs. trabalho de equipa e força?

Quando leio PIV dizer que é um inquérito "a que provavelmente nenhum miúdo responde", então... Está a brincar à contra-argumentação? Acha que se pode dizer o que quer que seja porque "provavelmente ninguém responde...". Estou a rebolar os olhos...

Parte do problema é este: não se trata de ter os brinquedos todos os iguais, não se trata de querer que todos os rapazes brinquem com kittys e as miúdas com transformers. Não se trata de nada disso. Tal como não se trata de um dia deixarmos de ter roupa de homem ou de mulher, porque efetivamente existe um corpo de mulher e um corpo de homem, embora nada nos impeça de irmos a essa secção e nos vestimos dos pés à cabeça com roupa do outro género. 

O que acontecia no McDonald's é que começaram a dizer "menino ou menina?" e, tal como eu, muitas pessoas devem ter começado a perguntar de seguida: "o que está em cada um?". Raramente vou ao Mac mas numa das vezes disse realmente ao senhor que por menino ou menina não ia lá porque uma das crianças dispensava bonequinhas. Era muito mais simples perguntar muito simplesmente: carro ou boneca? E a seguir cada um escolhe.

Mas se isto tinha maneira simples de resolver, mais difícil é escolher através daqueles ecrãs tácteis. A opção é apenas happy meal de menina ou de menino. Ora, a questão não é isto ser um ataque ao género de cada um. É, além disso, a gente NÃO saber exatamente o que lá está dentro.

A minha outra tristeza com a questão é esta:  "vamos guardar a discriminação para os casos graves". Realmente, eu também não acho que isto seja um caso de lesa-pátria. No entanto, quem sou eu e quem é qualquer uma das pessoas do mundo para dizer o que é um discriminação grave? Onde é que está a lista de critérios de gravidade da discriminação? Não me falem do Chris Rock nos Óscares. Desde logo porque lá porque o Chris Rock diz não quer dizer que seja lei. Depois porque eu nem sequer concordo com o que ele disse, não concordei logo na altura. "Nos anos 60 as pessoas tinham assuntos mais importantes", disse ele. Sim, e no século XIX eram escravas. E no XVIII eram capturadas por tribos africanas, entregues a portugueses e levadas em barcos imundos para outro continente, agrilhoadas. Que teria sido da Humanidade se nos anos 60 tivessem dito à Rosa Parks "minha senhora, os seus antepassados eram escravos, guarde a sua indignação para as coisas importantes, agora vir aqui chatear porque vai lá atrás na carreira. Tem lugar, já é bem bom". Ou, antes disso, "meu senhor, queixa-se de ser escravo e trabalhar de sol a sol? Os seus primos estão em Angola a fazer o mesmo e as suas casas nem paredes têm". Tudo é muito relativo.

Neste caso, boicotar os Óscares era inútil porque eles se fariam na mesma (disse-o o próprio Chris Rock), e foi vexatório para quem, como Will Smith, tem o direito de querer lá estar e considera que existe discriminação. Mas isso aconteceu pelo instrumento usado, não porque ele não tenha razão. Tal como o próprio Chris Rock reconheceu, o que se pede são oportunidades iguais. Porque elas não existem.

A mesma coisa com o Happy Meal. Ao atribuirmos valores de géneros às coisas contribuímos para o perpetuar dessa ideia de que existem profissões e atos de mulher ou de homem. O que, como sabemos, não é verdade.

Finalmente, a outra questão: o Mac não devia sequer ter brinquedos. Verdade. 100% de acordo. Mas, neste momento, não é disso que estamos a falar.

Pronto, é isto. Desculpem a maçada.

 

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