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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Então, vamos lá falar sobre isto de ser rico (ou pobre)

A coisa mais triste deste país (e só conheço bem este portanto não falo dos outros) é que a Direita acha que todos os pobres são calões e a Esquerda pensa que todos os ricos são ladrões. A minha falta de paciência para estas posições, para esta politiquice, está nos limites. A sério. Adoro política, debates intensos para chegar a uma conclusão sobre como melhorar a vida de todos nós, todos os que vivemos num mesmo território sujeitos às mesmas leis, mas o que se passa na arena partidária é tão frustrante... 

É importante dar esta seca, para explicar o que me parece óbvio: a "taxa Mortágua" para imóveis que valem mais de 500 mil euros (da Esquerda), seguida da declaração "temos de perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro" é tão absurda como dizer que esta medida afeta sobretudo a classe média (a Direita). Acham que é o mesmo? Põem a mão na consciência e acham que os grandes prejudicados são as pessoas que auferem 25, 30 mil euro anuais?  

Tenho seguido o caso com interesse e gostava de perguntar onde para o bom senso. Sim, onde? Ficou no Algarve de férias? Está a fazer um brunch no Chiado? Ainda não lhe passou a moca do Boom? Também tenho uma recomendação: casem-se uns com os outros, minha gente. Já diz o povo: só se estraga uma casa.

A chicha da questão começa com esta pergunta: com 500 mil euros a pessoa é um acumulador de património, mas se a casa valer 499 mil já está tudo ok? Ou mesmo 400 mil? E isso é per capita ou cá em casa podemos ter 5 imóveis de 499 mil euros cada um? 

Francamente, o que gostava mesmo era que houvesse um comentador, um político, uma alminha qualquer que dissesse isto: todos os contribuintes são iguais perante a lei. Isso não quer dizer que todos pagam o mesmo, significa apenas que todos são tratados da mesma maneira. Parece uma coisa complicado, mas não. É simples. 

Pagamos consoante o que recebemos. Pagamos segundo o que temos. E acabemos de vez com a casuística, e com essa coisa muito enervante que é a riqueza das pessoas ser avaliada segundo a escala Mortágua, Costa, PCP, PSD ou o governante de turno. Dá-se o caso de ontem até ter ouvido Catarina Martins dizer que as pessoas podem ter uma segunda casa, de férias, e não era isso que estava em causa. Porque é costume uma pessoa desfrutar da sua condição de pobre num apartamento em Albufeira durante o mês de agosto. A sério, onde é que isto vai parar? 

É muuuuuuito enervante esta coisa do achismo ter sido elevado à categoria de ciência, opondo "os porcos capitalistas que têm casas de mais de meio milhão de euros" e, do outro lado, "as miseráveis gentes trabalhadoras que fazem poupanças comprando andares" e as que, na bitola Martins, têm casa de férias.  

Portanto, parabéns a ambos, falem com a minha mão. Não quero saber quais foram as vossas intenções, quero que haja tributação em função do que se tem e da sua proporção. Se são proprietários têm de pagar. E se têm mais do que uma casa têm de pagar por mais essa casa e, possivelmente, um suplemento porque têm património que ocupa espaço e recursos mas que não usam para viver, que é o direito que está consagrado. Se as casas estão no Airbnb, alugadas a estudantes, a prostitutas ou vazias só porque são como o juiz Carlos Alexandre e gostam de colecionar casas, problema de cada um. 

Comecemos por aceitar que temos de pagar impostos. Quem tem rendimentos e propriedades, tem de dar uma parte deles. Não é que devemos pagar impostos, armados em bonzinhos, como se isto fosse um concurso de popularidade para entrar no Céu. É pagar para o bem comum. Para que os pequenos fios invisíveis que nos prendem ao mundo se mantenham ligados -- estradas e pontes, investigação científica e cultura, escolas, hospitais e tribunais. Não é porque gostemos, é porque tem de ser. É para não cair a ponte de Entre os Rios e pensarmos que se não tivessemos fugido aos impostos talvez a manutenção tivesse sido melhor. Ou, Deus nos livre, temos uma doença (o diabo seja cego-surdo-mudo) e concluímos que, apesar de termos roubado ao fisco, temos direito aos mesmos tratamentos que uma pessoa que tenha tudo em dia. Quem é que quer viver com esse peso na consciência? Os impostos, entendo, servem, ou deviam servir, para manter e criar igualdade e progresso. 

Depois de nos termos conformado com a ideia de que temos mesmo de pagar para o bem comum é que podemos começar a questionar que raio de impostos é que nos estão a impor, sem explicação. E concluímos, mias uma vez, que é apenas uma bravata ideológica do BE, a sanha contra os ricos de Mortágua e Martins, que, helàs, não inclui gente que possui uma casa de férias desde que não tenha custado 500 mil euros. Uma casa inteira, má ou boa não interessa, que deixa pegada ecológica e social, da qual se paga luz, água, gás e IMI, mas que não pode ser considerada riqueza, a não ser, talvez, que apareça na Caras Decoração. Poupem-me. (Se é que ainda se pode usar este verbo). 

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