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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

As férias

A ideia era fazermos umas férias diferentes este ano. Andar mais, parar, seguir, sem muitas regras, apenas um trajeto em mente e, dado estarmos em agosto, lugares para dormir assegurados. Tracei objetivos ambiciosos no início: começar em Castelo Branco e ir descendo até às Minas de São Domingos. Daí para o litoral. E, convém dizer, também estava nos nossos planos fazer tudo isto de autocaravana. Infelizmente, mesmo típico nosso, fomos empurrando o assunto "mais para a frente" até que em Julho já não havia nada de jeito para alugar. Deu para fazer um "crash course" de caravanismo e perceber que me entusiasmam mais as carrinhas adaptadas do que as motorhomes. No próximo ano se verá...

Para já, dizer o seguinte: só regressamos este sábado e acho que é seguro dizer que está a ser um êxito. O que já vimos deste país...

Escrevo desde a piscina de Avis (começo, aliás). Três piscinas de diferentes tamanhos, relvado bem tratado e aquele típico bar de apoio hamburguers-pizzas-baguetes de atum, com as colunas ligadas para todo o recinto, a passar o Despacito. Nem seria verão de 2017 se não tocasse pelo menos uma vez. Acabámos aqui por força das circunstâncias. A praia fluvial não tem água suficiente. Essa seca que lemos nas notícias torna-se real nos muitos quilómetros de estrada que temos devorado. Aqui, na barragem do Maranhão, basta ver as marcas. Onde chegava, onde está.

Não passava aqui, pelo Alto Alentejo (ainda podemos usar esta designação?), há tanto tempo que me surpreende a quantidade de turismos rurais que agora existem, apesar de não ver assim tantos turistas. Existem dois Alentejos e nem é o alto e o baixo. É o do litoral e o do interior. Já tinha tido uma boa ideia desse assunto quando procurei alojamento nas Minas de São Domingos (na época para a autocaravana) e em Beja. A oferta é incomparavelmente menor. Ou talvez os hotéis, hostels e turismos rurais estejam fechados como estes em Cabeço de Vide: uma casa senhorial que esteve fechada durante anos, agora é um turismo rural... fechado; também há um hotel enorme, o Candelária, vazio -- diz-se que era de cinco estrelas. Era o sonho de um construtor civil com ligações a este lugar. Morreu e a história foi interrompida. A dimensão impressiona. Uma massa gigantesca, adormecida. Para Iá do portão trancado só consigo ver dois vasos do tamanho de pessoas e réplicas de animais. Não estou a inventar: eu vi um elefante de louça em ponto grande.

É uma imagem tão desconcertante como perceber que aqui vivem cada vez menos pessoas. Tão poucas que não chegam para manter restaurantes abertos. Alter do Chão, onde há um castelo medieval e uma coudelaria conhecida indicada em todas as placas, com direito a tradução em espanhol, inglês e alemão, não é uma vila muito mais agitada. É preciso fazer 40 km, até Portalegre, para quase tudo. Não é mau. A cidade é bonita e, para quem procura uma certa autenticidade (ou o que imagina ser autenticidade), está-se bem. Jantámos num restaurante chamado Poeiras, três estrelas Michelin no ranking Santos Costa. Comida saborosa, serviço hiper despachado (ainda nem bem me tinha sentado depois de arranjar as miúdas e já as lulas recheadas, as plumas na brasa e o arroz de pato estavam na mesa), atendimento muito simpático. Fazia 300 km de propósito para lá voltar. Ao nível da atração turística foi o que mais gostei. Não houve tempo para mais, verdade seja dita.

Coisa bizarra, os supermercados e mercearias estão cheios de produtos espanhóis. Mañanitas, pipas... Também há uma loja chinesa em cada esquina e, pasmemo-nos, com chineses incluídos. O que acontece neste país em que não conseguimos ter portugueses a viver em lugares onde se fixa gente vinda do país mais populoso do mundo? Como é que alguém descola de Pequim com destino ao Alentejo que até os portugueses esqueceram?

 

Feitos saltimbancos

Deixámos Lisboa no dia 1 de agosto, rumo a Porto Covo. Apesar de não ser a primeira vez que passamos férias no sudoeste alentejano, a vila cantada por Rui Veloso era um lugar desconhecido. A praia de São Torpes não nos convenceu mas a Praia Grande é ótima. E ao nível da descontração dá 15-0 ao Algarve. Não me interpretem mal, isto até podem ser só coisas da minha cabeça, mas assim que passamos Aljezur, carregamos no botão da "pose". Não confundir com o da "pausa". Esse é mesmo em Porto Covo. Aqui, quando a gente diz "chinelo no pé" é mesmo "chinelo no pé e calcanhar crestado de tanto pisar areia". Já nos estávamos a habituar aquela coisa de passar o dia na praia, tomar banho, sair para jantar e dar um passeio. Espero que as miúdas guardem memórias boas destes dias. Se bem que, claro, a gente nunca sabe.
Quando era miúda (adolescente até) tinha uma ideia romântica dessas férias em família que me eram descritas por colegas de turma. Quando voltavam à escola ainda tinham marcas desses momentos -- tranças, borrachinhas compradas em Ayamonte. Falavam de Armação de Pêra como um dos lugares mais incríveis do planeta e falo sobre isto todos os anos, porque ainda me parece extraordinário que eu pudesse sonhar com momentos assim. Eu só tinha uma semana de férias com os meus pais, e era uma semana espetacular (era MESMO), mas o meu pai detestava (e detesta) a ideia de ficarmos parados num lugar de papo para o ar. Era sempre a loucura! O problema é que agora começa a apetecer-me retomar esses tempos. Quando estava a marcar os lugares onde íamos assentar arraiais o António já dizia: "temos de ficar dois ou três dias em cada sítio". Portanto, três dias depois, fomos para a Zambujeira do Mar.

Caímos em cheio no Meo Sudoeste. Por um lado, queríamos fugir dele, por outro era irresistível. Fomos. É calmíssimo, na verdade. Ideal para fazer 'vida de Zambujeira do Mar', isto é, praia até fecharem a porta, jantar tardio e dançar noite dentro. Era como se o Clube da Praia se tivesse mudado para a Herdade da Casa Branca. Não que tenhamos ficado até tão tarde. Somos mais de ir à roda gigante, comer fartura e recolher às boxes. Neste caso, o para sempre no coração das nossas filhas, Zmar.

Há dúvidas sobre o que as cativou mais: as casinhas de madeira, onde experimentaram as alegrias do beliche? Era preciso não serem crianças para não gostarem de tal peça de mobiliário. Terá sido a pequenez dessa cabana, tão compacta? A piscina de 100 metros? A de ondas? Ou o passeio no mini-club para ver burros, araras, póneis e cabras? Ou o hiperpopulado pequeno-almoço? Há gente com fartura no Zmar e, todas as manhãs, aquela hora em que uma animadora chama para "a aula de zumba junto à piscina". Foi também o momento em que se abateu sobre mim uma certeza: se o Dirty Dancing saísse hoje, eu seria a mãe da Baby. 

 

Três dias depois, arrumámos a trouxa, tirámos o pó à pressa numa estação de serviço e comemos quilómetros até Évora, repleta de franceses, brasileiros, asiáticos, portugueses... Em pelo menos dois sítios, faltavam pessoas para atender com qualidade os muitos clientes que tinham pela frente. Um desses lugares foi o Café Arcada, um desses estabelecimentos à moda antiga, onde imagino sempre umas avozinhas com o cabelo cheio de laca a comer torradas e a sujar as chávenas de chá com batom e jovens intelectuais que vão mudar o mundo. Era pré-pagamento, uma pessoa a atender e outra a recolher louça suja nas mesas. Como dizer? Não me chateia nada pegar no tabuleiro e ir para a mesa (a empregada era de uma eficácia extraordinária), mas frustrou as minhas expectativas. O que eu queria mesmo numa pastelaria à antiga era serviço à antiga. Tirando isso, vale bem cruzar a porta giratória. E, é preciso dizer, tudo isto é uma nota de rodapé se comparada com a cidade, cheia de vida, música à noite na rua e esse encontro de épocas que é estar no templo de Diana (tão pequeno e magnânimo) rodeada de edifícios dos séculos XVII, XVIII e XIX e de caras para o melhor do século XXI que é a Fundação Eugénio de Almeida. Três coisas muito boas nos aconteceram à mesa. Pequeno-almoço no Pastelaria Conventual Pão de Rala, lanche na Fábrica dos Pastéis, jantar no Café Alentejo (foi preciso marcar para garantir mesa). Falhámos vergonhosamente a Capela dos Ossos, achei que era capaz de ser demais para as miúdas depois de saber que existe a seguinte inscrição: "Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos". Arrrrrrepiante! Mas fizémos um desvio para Guadalupe, pequena aldeia onde nos anos 60 foi descoberto o cromeleque dos Almendres. Para que servia? Não se sabe. Eu aposto que era a maneira megalítica de guardar lugar na praia.

 

Praias fluviais foram uma descoberta deliciosa nestes dias. Em Monsaraz, nesse lugar que nasceu com a barragem do Alqueva, as miúdas fartaram-se de rir quando lhes contámos que iam ver este lugar ao mesmo tempo que nós. Elas crianças, nós com mais de 40 anos. Aproveitámos para nadar bastante, sem corrente, e sem aquele sol inclemente que impede de sair do chapéu.  Havia franceses, espanhóis e italianos. Sempre gostava de saber como é que certos estrangeiros chegam a conhecer certas coisas deste país. A última paragem foi em Fronteira, a praia fluvial da Ribeira Grande ou da Ponte, junto a uma velha ponte, relvado e árvores por todo o lado. O rio não era vigiado, preferimos ficar a torrar à beira da da piscina municipal, depois de um incrível, mas mesmo incrível almoço.

Nestes dias, provámos casinhas de parque de campismo, tudo ao molho e fé em Deus num quarto, a casinha de madeira do Zmar, uma casa a sério. Viver como não vivemos habitualmente também fez parte da experiência. Já perdi a conta aos lugares onde fomos, onde paramos, onde passamos tempo, às conversas que temos no carro. Vamos todos tirar coisas diferentes destes dias. Essa é, afinal, a magia da coisa.

 

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