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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Porque é que todas as Barbies têm os olhos azuis?

A Madalena, a entrar em pleno na adolescência, é capaz de revirar os olhos à própria mãe ao mesmo tempo que só pensa em Playmobil, faz-me perguntas como esta:
Porque é que todas as Barbies têm olhos azuis?

Francamente, eu nem sei se ela faz esta pergunta por ingenuidade e porque tem o cérebro mais ou menos limpo de preconceitos ou se é porque percebe que há coisas que não representam nada o mundo.

Haverá alguma boa resposta? Não sei. Talvez todas as Barbies tenham olhos azuis, porque a dado momento alguém pensou que uma rapariga bonita só podia ser assim: loura, magra e de olhos azuis.

E eu digo-lhe: talvez nem todas tenham. Porque tem uma barbie moreninha e mais gordinha. Mas ela insiste: "também tem olhos azuis". E eu penso que estas coisas -- ter a Barbie afro, ter a Barbie plus size -- são realmente o que parecem. Respostas ao politicamente correto. Só foram mudadas, porque alguém reclamou. A diversidade é muito popular, mas raramente espontânea. 

Viver aqui, viver agora

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É preciso tempo para ser boa mãe. É preciso tempo para ser boa jornalista. É preciso tempo para ser mulher. É preciso tempo para ser filha. É preciso tempo para ser amiga. É preciso tempo. Nunca imaginei chegar o dia em que perceberia, letra por letra, o que significa “precisar de tempo”. Mas essa ideia caiu em cima de mim como um pedregulho no verão. Precisar de tempo é a vida toda resumida numa frase.

Eu tinha acabado de fazer 41 anos, aquela idade em que a pessoa é efetivamente adulta, não há margem para erro. Nem a minha avó de 90 anos me acha mais uma menina. Eu sou uma mulher. É bom isso. Exceto quando percebemos que tudo o que ficou por cumprir ficará assim mesmo. Por cumprir. Não vamos fazer o sinal de visto nessa lista mental de coisas importantes a que associamos o nosso nome. Talvez, ok, alguns de nós ainda venham a realizar alguns desses planos, mas serão uma minoria. As coisas grandes que eu sonhei (talvez nem sequer tão grandes assim) vão ficar para trás. Nos últimos meses fiz o luto de tudo o que vai ficar por fazer. Algumas coisas eram importantes, porque com elas eu seria outra pessoa que já não vou ser. Como elas não vão realizar-se, e é a primeira que ponho as coisas assim, preto no branco, preciso (ainda) de o dizer muitas vezes porque dá pena abrir mão desses... sonhos. (Ou perceber que nunca vão passar disso).

Sou aquele desenho de “O Principezinho”: a cobra que comeu um elefante e agora parece um chapéu.

Está a custar. Mas adiante. A vida é assim mesmo. É o que é. E, imagine-se, não é o fim do mundo. É. É uma nova vida. E na nova vida eu preciso de tempo. Não para o que já não vou fazer, sim, mas, sobretudo, para o que já não quero fazer.

Não quero ser uma pessoa que anda à pressa, não quero fazer as coisas a correr, não quero ser uma maníaca da produção, não quero ter 30 coisas na minha agenda, não quero uma lista enorme de tarefas que me obrigam a correr de um lado para o outro. Para fazer muito é preciso fazer pouco. Assim. É preciso fazer pouco para fazer bem e, fazendo bem, passar à próxima etapa deixando a precedente bem fechada. Quero fazer nada. Quero que as minhas filhas façam nada. E nesse fazer nada executarmos apenas o que é realmente importante.

Como sempre acontece quando pomos pontos de interrogação nas nossas dúvidas, as respostas aparecem. A mim apareceram-me nas palavras e vidas das outras pessoas:

- Numa palestra/espetáculo chamado “Conversas Sérias”, Marta Gautier, psicóloga e humorista, fala de como baixou o volume na sua vida, procurando entender o vazio que sentia. De como, e porquê, decidiu tirar os filhos das atividades extra-curriculares porque quando punha a chave à porta já os odiava, de como deixou de comparecer a eventos de familiares e amigos, de como abdicou de privilégios. Não tenho nenhuma intenção de fazer essas coisas, tal como não me interessa a meditação ou qualquer coisa de espiritual ou religioso que se possa ler nestas palavras, mas, como aconteceu há cinco anos quando a ouvi falar de crianças e de como não temos de as tratar como flores de estufa temendo que fiquem traumatizadas, porque vão ficar, revejo-me nesse desejo dela de ter uma vida com menos coisas, mesmo que tenha de abdicar de algumas que hoje me fazem, e sempre fizeram, feliz. Todas materiais, por acaso.

- Numa entrevista com uma curadora de arte que me explicou que, apesar de amar o teatro, sempre que tinha de fazer um trabalho na universidade se virava para a arte contemporânea, a sua paixão dos tempos livres. “Não se deve desprezar o que o ócio nos dá”.

- No elogio da lentidão que é o trabalho da artista argentina Claire de Santa Coloma, vencedora do prémio Novos Artistas da Fundação EDP, cujas esculturas de madeira, quase rudimentares, são, palavras dela, “quase um ato de resistência” numa época em que temos de andar sempre rápido, mas em que “continuamos a pensar à mesma velocidade de sempre”. Fiquei muito tocada com o que ela disse.

E só para me incluir nesse grupo de lentos louváveis, para ser completamente honesta, passaram mais de dois anos desde que pensei neste assunto – em como é importante FAZER NADA – depois de uma conversa com a Cecília em que ela disse: “As crianças precisam de ter tempo para fazer nada e se confrontarem consigo próprias”.

A arte de fazer nada

Muitas coisas na minha experiência como mãe dizem-me que eu partia (e parto) dos pressupostos errados. Por exemplo, querer que façam coisas, preencher os dias. Além de se cansarem, não desfrutam, não pensam sobre o que está feito. Dizer isto não é parte mais complicada. Perceber como crescem melhor por estarem uma semana em casa a ver os filmes que gostam e não num atelier é fácil. O que é difícil é executar, pois, como todos os pais notam, as crianças são como esponjas e dá pena não aproveitar essas capacidades todas.

Passa-se outra coisa: quanto mais ignorantes somos mais queremos que os nossos filhos aprendam (falo no plural, mas é de mim que se trata). Talvez tudo isso seja desnecessário, porque, antes de mais, eles precisam de descobrir o que lhes dá prazer. E, para isso, precisam de fazer nada. E fazer nada é bastante diferente de não fazer nada. Na minha cabeça, pelo menos.

Fazer nada é procurar, observar, pensar.

Não fazer nada é deixar que outros decidam o que vamos fazer. Mandam-nos e nós vamos. Vamos para a sala, vamos para o quarto, vamos para a ginástica, vamos para a natação, vamos para o inglês, vamos às festas, vamos, vamos, vamos... Para quê? Para estarmos à altura de variáveis que simplesmente não controlamos: o futuro, o mundo.

Claro que se as crianças não souberem ler não podem enfrentar o mundo, mas há uma desproporção (palavra-chave) entre o que é essencial e o que se obriga os miúdos a aprender com base no “vão precisar”. Talvez nós tivéssemos “precisado”, mas será que os nossos filhos precisam?

Tento ver-me de fora como mãe e depois observar o que se passa à volta. Como explicar que as duas pessoas mais cosmopolitas que conheço, e das mais bem preparadas intelectualmente, vivam no mesmo bairro onde cresceram?

Podia continuar a elencar as muitas coisas que ouvi nos últimos meses. Do chef que diz que é preciso tempo para comer e para escolher o que se come, às pessoas amigas que partilham esta ideia de que é preciso levar uma vida tranquila. Das combinações para desmaterializar presentes de Natal às leituras aleatórias que posso fazer na internet. Posso falar de slow living, mas, a sério, eu nem quero pôr nome a esta ideia de reclamar tempo, porque estraga tudo, estraga o barato, leva-o para dentro do sistema e a mim parece-me, no fim de tudo, que a única coisa que estou a dizer é que é preciso viver como humana, dando tempo ao que precisa de tempo e, mais do que isso, dando o tempo certo a cada coisa. Viver aqui, viver agora.

 

[Crédito da foto: Nina Leen, Life, 1950]

Vamos tomar o pequeno-almoço à Tiffany?

Francamente, não sei como é isto não abriu o Telejornal, mas a partir desta sexta-feira vai ser possível fazer um BREAKFAST AT TIFFANY'S. A própria da Tiffany vai abrir um café/restaurante no quarto andar da loja da Quinta Avenida, chama-se The Blue Box Café e... respiremos fundo... a decoração é turquesa-cor-da-caixa-dos-presentes.

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Tiffany & Co

A Vanity Fair tem um artigo elucidativo sobre este novo lugar que só é pena não ter nascido quando série "Sexo em Nova Iorque" ainda era qualquer coisa. Diz, então, que é obra do novo diretor artístico da marca, Reed Krakoff, ex-Coach, um fã de peles e arquitetura com um fraquinho pelo modernismo. Os detalhes do CV fiquei a saber via New York Times, numa prosa de janeiro que dá a notícia da contratação e, de caminho, lança a dúvida: é ele o homem certo para recuperar a Tiffany? Malas de couro é uma coisa, joias é outra, opina alguém. E entrar na restauração? Parece que a resposta está dada, mas vamos ver quantos maluquinhos, como eu, acham que é de génio este passar de fornecedor de casas reais europeias para os anéis de noivado, para ser literatura, filmemúsica e, agora, hot spot em potência. O autor diz que é "experimental e experencial - uma janela para a nova Tiffany. Ou seja, luxo e elegância servidos com vista para o Central Park, café e croissant, como gostaria Holly Golightly, e ainda torrada de abacate, ovos trufados ou bagel de salmão para aqueles que exigem um pouco mais de uma refeição de 29 dólares, que, ainda por cima, está confirmado (e é de chorar!), não inclui vestido Givenchy nem pérolas. Uma pena.

 

A Web Summit passa-me um pouco ao lado. Tal como a cena dos robôs

Até ontem à noite, tinha passado uma existência tranquila e sossegada sem me preocupar um segundo o que se passa na FIL e na Web Summit.

Ponto 1: Estou a trabalhar e a tecnologia não faz parte das minhas atribuições.

Ponto 2: Talvez eu já tenha sido mais doida por coisas tecnológicas. Talvez eu achasses, vá-se lá saber porquê, que a Web Summit era uma feira para profissionais das start ups.

Ponto 3: Dá-me sempre a sensação que isto é bom para malta de 30 anos, solteira e com dinheiro para gastar em cocktails. Nada contra. Eu gostava de ter 30 anos e dinheiro para bebidas com nomes de lugares paradisíacos.

Mas parece que não é só isso, como explicam pessoas que sabem mais disto do que eu -- testemunhas A, B e C.

É mais um Rock in Rio para gente que prefere estar sentada. Mais uma vez, nada contra. São os meus preferidos.

A questão é que, alertada por uma notícia sobre a presença da antiga guarda-redes da seleção dos EUA, Hope Solo, uma criatura fascinante, pus-me a estudar o programa e só assim por alto fiquei a saber que Caitlyn Jenner ("A" Cailtlyn Jenner) vai cá estar. Na qualidade de pessoa que quase "partiu a Internet", algo, apesar de tudo, tecnológico? Não. Na qualidade de transgénero. Que era precisamente aquela em que a queria ouvir. Entretanto, amanhã vai cá estar Suzy Menkes, tão-somente a melhor jornalista a escrever sobre moda desde tempos imemoriais (do passado, presente e até mesmo do futuro). Vários e sólidos bons motivos para pôr os pés na FIL sem ser necessariamente para falar de unicórnios e venture capital e bytes e coisas dessas.

Adiante.

Parece que no meio de tanta coisa que pode mudar a vida, o mais sumarento foram as intervenções dos robôs. Não foi a única coisa, como se pode ler no ECO e no DN (órgãos de comunicação escolhidos absolutamente ao acaso), mas, digamos, é denominador comum a todos os jornais.

Uma tal de Sophia falou e disse que os robôs nos vão tirar os empregos. Que é, na verdade, o assunto que aqui que me traz. Medo, pânico, terror. As máquinas vão tirar-nos lugares. Ou melhor, vão tirar o lugar em todas as profissões meramente repetitivas em que um mínimo de emoção seja exigido. E, portanto, eu partilho desta apreensão total em relação às máquinas. Isto é o fim do trabalho não qualificado. Temos de nos preparar para minas sem mineiros. Temos de nos preparar para padarias sem padeiros. Meu Deus, o que é que isto quer dizer?

Quer dizer que vamos ficar sem fazer nada? Ou quererá dizer, talvez, que vamos ter de inventar robôs? E que vamos ter de estudar muito mais e durante muito mais tempo para nos capacitarmos para os trabalhos onde vamos ser precisos: criativos, rigorosos, minuciosos, interpretativos. Parece que no meio disto tudo o que vai ser mesmo impossível é dizer "fui para letras porque nunca gostei de matemática".

Welcome. Temos armas

Para se poder entrar nos EUA é preciso preencher uma autorização especial, fazem-nos revistas aleatórias antes sequer de pisarmos o avião, somos sempre culpados até prova em contrário e recebem-nos com sete pedras na mão. Talvez haja um sorriso, mas não é como nos filmes. Welcome, welcome. Ninguém deseja uma boa estadia. 

Mas depois anda-se pela rua e em qualquer esquina de um Estado conservador (ou nem tanto) se pode encontrar uma loja de armas, comprar uma metralhadora, entrar numa igreja e matar quase 30 pessoas. 

 

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