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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

No combate ao desperdício: coisas bonitas e silêncio

Neste exercício que é educar andamos sempre a fazer rewind e a lembrar como éramos na idade que têm agora os nossos filhos. Então, tenho vindo a descobrir que era uma pessoa que vivia aterrorizada com pequenos assuntos ao mesmo tempo que era incapaz de os pôr em palavras e partilhar com outras pessoas, da minha idade ou não. Ou porque não encontrava as palavras certas (acontece muito) ou porque não ligavam a essas minhas pequenas angústias (e, se calhar, tinham razão).

Uma dessas angústias era crescer e não ser sensata. Crescer e não saber que não podia pôr taparueres no forno, por exemplo. Ou não ser capaz de cozinhar. Ou não saber distinguir o importante do acessório. Continuo a ter essa dúvida muitas vezes e, claro, como tudo, também já sei que o que é fundamental para mim pode ser não o ser para outra pessoa. Mas, creio, nas coisas realmente sérias, acho que posso confiar no meu juízo. Já não é nada mau.

Em compensação, e digo isto como crítica forte e séria, às vezes tenho a sensação que esse assunto só me preocupa a mim. Nesta bitola de sensatez que se tornou o mural de Facebook, parece que há sempre alguém disponível a desviar as atenções do essencial para debater coisas que não têm importância nenhuma, que vão ser notas de rodapé na História (e olha lá!). Podia até elencar casos vários em que isto aconteceu, mas não quero entrar nesse jogo. Já bem basta ter decidido tocar nesta ferida.

Há uns tempos, cansada de polémicas instantâneas, decidi que ia contribuir ativamente contra o lixo facebookiano com uma medida simples. Combatendo o desperdício. É verdade que nem sempre consigo. Cedo à tentação. Atrai-me o abismo. Sinto a adrenalina da contenda. E arrependo-me sempre. Sempre. Chamo-lhe desperdício, porque é o que é. Puro desperdício. De energia, de tempo, de recursos, de palavras.

E, fazendo uma avaliação séria, é muito fácil descobrir que o que realmente me dá mais gozo ler, ver ou ouvir são as coisas bonitas. Sinto-me sempre melhor quando me exponho a coisas bonitas (o blogue da rapariga que até a dar más notícias tem níveleste bálsamo para o olhar ou a revista feminina do século XXI, só para dar três exemplos simples, e já nem falo dos podcasts ou de boa televisão) do que quando me perco nesses debatezinhos ou produtos de segunda. E quando digo coisas bonitas não é porque se fale apenas de coisas boas ou suaves, podem ser duras e deixar-me pensativa, mas contribuem para expandir o meu cérebro em vez de o atrofiar. E, honestamente, creio que é precisamente isso que é necessário para educar bem uma criança. Crianças, no caso.

Portanto, apesar da enorme dificuldade, o meu plano é ter uma atitude sã e ecológica, perder-me menos com o que não vale a pena e concentrar-me no que é realmente bom. Se não encontrar, posso sempre optar pelo silêncio. O silêncio é uma coisa bonita. Quero poder abrir este blogue dentro de um ano ou fazer um longo scroll no Facebook e constatar que tudo o que partilhei eram coisas que valiam a pena. Elevemos a fasquia.

 

...

Não é só isto, mas é muito isto: quase 41 anos e esta é a primeira tragédia de proporções homéricas que vejo no meu país. Aquele acidente de comboio aconteceu quando era pequena. Entre-os-Rios apanhou-me a viver em Espanha, tudo era longínquo. Creio ter explicado sumariamente o que me aflige -- imaginar o que as pessoas sofreram -- e ainda não estou preparada para voltar à vida normal, apesar dos telejornais já falarem da greve dos professores, da taça das confederações e outras coisas do género. Não estou preparada para voltar às fotografias cutchi-cuchi, as férias de verão dos miúdos, os resultados da bola, os concertos e os festivais, as peles bronzeadas. Preciso de chorar um pouco mais. Chorar pelas pessoas que morreram, pelas crianças, por quem sobreviveu, pela esperança e pela desilusão, porque podia ter sido eu ou a minha família, porque podiam ser amigos próximos. Se calhar, logo à noite já está tudo ok, mas agora (ainda) não.

Junho

Em junho, quando a escola acabava havia praia. Continuei a ir depois de terminar a primária e nessa altura tinha o privilégio de conviver com miúdas que achava muito à frente. Que preparavam a sua própria mochila e lanche. Que usavam biquínis fixes. Que sabiam jogar à sueca e à bisca. Havia a intrépida e divertida, as responsáveis, a brasa, e aquela rapariga que, apesar de ser da minha idade, também já era muito à frente. Aos 10 anos, distinguia-se, distinguiu-se sempre, pela capacidade de pensar pela sua própria cabeça. Nessa altura, eu não era capaz de pôr isto em palavras, mas era isto que se passa: ela era digna de admiração porque nunca ia com o rebanho.

Quando cumpriu uma década de vida, finalista do quarto ano, os rapazes da nossa sala mimaram-na com presentes de todas as formas e feitios, perante a estupefação das demais raparigas. Ela, além de ser das melhores alunas e uma das mais giras, ao contrário das outras miúdas, sempre foi ciosa das suas coisas e dos sentimentos. Não me lembro de a ver metida em confusões.

Tive-a sempre, mesmo sem pensar muito no assunto, por uma pessoa que manteve essa característica, esse brio com o que é privado, algo que gostaria de honrar neste momento, num equilíbrio impossível entre a empatia devida, a homenagem que devemos às pessoas que consideramos admiráveis e o respeito pela condição humana.

Que dia negro

Imaginar, imaginar apenas, o que passaram as pessoas que perderam a vida neste incêndio em Pedrógão Grande, 57 (pelo menos duas crianças)... Nem tenho palavras. 

 

Alguém que avise o meu marido, por favor

Passávamos à porta da Epic, a escola profissional da Etic, e digo ao António que aquela é uma escola da referência, ótima, e que não me importava que as nossas filhas a frequentassem. Foi como se tivesse tido que as queria na marginalidade.
- Que horror! Nem pensar! Eu bem passo aqui todos os dias e vejo-os a fumar.
E eu argumento que aqueles miúdos são ótimos, têm muito talento, boas notas e nada. O António está convencido que só nesta escola há miúdos que fumam e usam rastas.
:)

O brinquedo da moda ou como estou a cair na minha própria armadilha

A Teresa anda há duas semanas a pedir-me um certo e determinado brinquedo da moda que custa a bagatela de 70 euros (ou 90, se formos mesmo uns esbanjadores).

Já tentou a abordagem decente: "Mãe, podes dar-me um Hatchimal, por favor? Já tentou aos gritos: DÁ-ME UM HATCHIMAL! EU QUERO UM HATCHIMAL! E já tentou várias formas de chantagem. A da criança a quem é negado um animal doméstico, que é uma das suas preferidas e é usada para quase tudo: "Se não posso ter um cão, posso ao menos ter um Hatchimal? E a de fazer a pobre e velha mãe sentir-se culpada enquanto empreende uma viagem de trabalho até Madrid. "Tenho muitas saudades tuas, quero a tua atenção, isto só se resolve se me deres um Hatchimal". Os pedidos alternam entre a voz doce e os gritos desesperados.

Já lhe disse que lhe ofereço a coisa no aniversário em julho, mas a Teté quer já e quer agora e, portanto, até já tenho medo de chegar a casa ao fim do dia de mãos a abanar. Sei que vou ser confrontada com o terrível drama do hatchimal que a há de levar ao divã do psicólogo. Estou a ser coagida pela minha filha de seis-quase-sete anos.

Cansada de a ouvir, mas cansada mesmo, um destes dias cedi. Expliquei que não ia dar o brinquedo só porque sim. Se queres ter antes do aniversário, tens de ter 90% nos testes. (NR: sou muito pela recompensa do bom trabalho, seja com elogios seja com presentes). Infelizmente, não fui suficientemente clara nas regras. Não disse que tinha de ser em TODOS os testes e, portanto, esta minha filha, a legalista de serviço, ontem, saiu da escola com o teste de inglês na mão para que não me escapasse o 90% da nota.

Estou lixada.

PS: O objeto em causa é este, caros historiadores que encontrem este post dentro de mil anos.

PS2: Mas, calma, gente, apesar do que digo, o bicharoco só cá entra quando eu decidir. 

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