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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

O presente é o passado

Em 1986, prestes a completar 10 anos, subi ao palco vestida de indiana na festa da escola. Estava na quarta classe e aquele era o meu último ano naquele estabelecimento de ensino. Sei que estive em outras, lembro-me vagamente de termos ensaiado uma marcha com a música "Lisboa Ladina, que Linda que Ela É", mas detalhes só me recordo dos da última:
- Tinha umas calças de balão com um cinto largo dourado. Fiz alergia ao material do cinto e no dia da festa a minha barriga estava cheia de borbulhas (deve ter sido um espetáculo bonito de ver).
- O tema era os Descobrimentos. Uma colega fazia de D. Henrique. Foi uma excitação gravar a voz dela num gravador para que depois se ouvisse bem na festa. Ela ia vestida de preto e a roupa foi inspirada no mais famoso quadro conhecido do D. Henrique, aquele que aparece em todos os livros de História de Portugal, nomeadamente aquele que foi obrigatório para os alunos da quarta classe de 1986.
- Havia um Vasco da Gama, para quem as indianas dançavam. Esse rapaz chamava-se Vasco (a sério!) e era o mais giro da sala. Foi emocionante e pavoroso rebolar para o rapaz mais giro da sala.
- Havia marinheiros e outras figuras históricas. Estávamos intrigados com o Adamastor porque a nossa professora o pintou, como se fosse pessoa, na nossa sala da terceira classe. O Adamastor era o medo e a excitação do desconhecido.
Havia medo de sair dali:
- Como seria estar numa escola com centenas de alunos?
- E andar de autocarro?
- Como seria termos tantas disciplinas, incluindo inglês?
- Os professores punham-nos na rua imediatamente se nos atrasassemos?
Mas havia também muita vontade de dar o mergulho.
Lembro-me de pensar se algum dia ia sentir saudades de fazer o caminho da "branca".

Sábado, 22 de junho de 2013. O meu afilhado, "finalista" de quarto ano, despediu-se da escola. A festa foi no sábado. Tinha os pais, os avós, a bisavó, amigos e conhecidos à volta... O tema eram superheróis e ele estava vestido de Batman. Dançaram ao som de "Bad" de Michael Jackson. A escolha musical pretendia agradar aos pais, acho eu. Havia muita gente a filmar e fotografar. Usavam microfones. Não faço ideia do que ele pensou sobre este dia. De que se vai lembrar?

Em 1994 entrei na universidade. Fiz descobertas extraordinárias:
- a existência de comunistas, pessoas de esquerda em geral, gente que via a RTP2, pessoas que viviam no mesmo país que eu mas com quem nunca me poderia ter cruzado;
- a existência de raparigas inteligentes que também eram giras;
Foi fixe encontrar pessoas que tinham preferido ler o livro a empinar o resumo da Europa-América mas, claramente, não basta ouvir a mesma canção. Não podemos ser amigos de toda a gente. Mas fiquei com os melhores. Adoro as pessoas de quem me tornei amiga e até há alguns que eu tenho pena de não ter conhecido melhor. Francamente, não há qualquer razão para isso não ter acontecido, o que dá muita esperança para o futuro.

Sábado, 22 de junho de 2013. Festa de anos de um amigo no Intendente. Foi como entrar no carro do Doctor do "Regresso ao Passado", mas com a vantagem de conhecer o presente. Nunca me senti totalmente à vontade entre freaks, hippies e aquele tipo de pessoas que estão, ou parecem, sempre disponíveis para pôr uma mochila às costas e ir para algum lugar, super intelectuais, escritores. 90% das pessoas que ali estavam eram assim. E há sempre aqueles 10% do meu ser que gostariam de ser assim. Acontece-me todos dias durante 10 segundos, mais naquele momento, naquela hora que passei ali a ouvir música dos anos 90 com seriedade (pelos vistos não fui a única que morreu para a música com os Strokes), rodeada das pessoas que nunca vou ser e que realmente não quero ser, embora seja suposto todos querermos ser assim, cool e revolucionários. Já estou metida em assados que cheguem. "Constituir família é a suprema rebeldia" (http://florcaveira.bandcamp.com/track/faz-filhos).

Presentes de fim de ano. Sim ou não?

A Vanda está com dúvidas sobre este assunto. Eu, que opino sobre tudo e um par de botas, penso que se ambos conseguem cumprir o objetivo "passar de ano" devem receber igual. Mas se queres premiar a competência com que o fizeram a pessoa que seguiu à risca as listas e se empenhou mais deve ser compensada. Na verdade, digo eu, são duas coisas completamente diferentes.

 

De vez em quando penso neste assunto. Compensar as crianças com coisas de que gostam -- brinquedos, idas a sítios que gostam, a tardes de brincadeiras com amigos que só veem na escola -- parece-me justo. Todos gostamos de ver reconhecido o nosso esforço. Mas não tenho a certeza que seja boa política oferecer presentes porque passam de ano. Afinal de contas, esse É o trabalho das crianças. Tinha pensado que talvez fosse interessante fazer como nas grandes empresas. Oferecer presentes quando cumprem determinados objetivos. Por exemplo, conseguir várias notas excecionais equivaler a uma prenda. Isto faz sentido?

Vamos fazer um resumo

Tu, Madalena, tens quase cinco anos e meio. É muita fruta! Tens passado horas e horas a desenhar. Sentas-te de joelhos na alcatifa da sala junto ao que devia ser um exemplar de mesas de centro dos anos 50 e fazes casas e pessoas. Com indisfarçável orgulho, disseste na semana passada que já sabes fazer t-shirts e calções. As tuas "pessoas" andam muito mais bem vestidas, de facto. Quando tens paciência, desenhas pestanas, dedos das mãos, orelhas com brincos e fartas cabeleiras. Na maior parte dos casos, esqueces-te sempre de um pormenor ou outro. Outra grande conquista: "Já sei escrever CCB". E é verdade. É um sigla, está certo, mas é um começo. Também escreves o teu nome e o da família, mas pedes ajuda muitas vezes.
Teresa. A tua frase favorita continua a ser "O iPad?", mas estamos a evoluir. Agora também temos o "unde tu bais, mãejinha?". Estamos bastante próximas nesta fase, a pouco mais de um mês de fazeres três anos. É chato (e triste) ter de sair de casa quando pedes que eu fique. Mas também é amoroso e querido ter-te sempre por perto. A parte da comida tem melhorado consideravelmente. Bem, por ti alimentavas-te a leite morno o dia inteiro. Mas já comes com mais agrado a sopa e um bom peixe cozido com batatas e legumes. Aos poucos, começas a deixar a fralda da noite. A mamã está impressionada. Levada pela tua irmã, também te tens entretido a desenhar. Riscos e mais riscos. O que já está claro é que também és canhota. Quais são as probabilidades de uma mãe canhota ter duas filhas esquerdinas?
Baby Francisca, contigo a conversa é outra. Muito gugu-dadá. Falas que te desunhas, Muitos, muitos sons. Estás grande e gordinha (é a minha sina, que se lhe vai fazer) e, de repente, diria mesmo, de um dia para o outro, aquela bebé bêbeda que mal se aguentava sentada passou a ficar ali muito compostinha e direita. Ontem diz que até ficaste deitada e te levantaste. Um amor. O lado menos interessante é que já reclamas a sério quando queres ver o mundo ao colo e não há ninguém disponível. Começou 'aquela' fase e nem está mal. Esperava por ela aos seis meses, já tens oito e meio. Em contrapartida, assistes de camarote às discussões das tuas irmãs, tão calma como sempre. Por mim, está bom.

Como ler

Desisti do "Na Síria". Estava a tornar-se demasiado técnico. A senhora escreve divinamente, mas já era muito tell, muitos cacos, muito deserto. Não tenho tempo. Até ter mais de 20 anos nunca achei que fosse possível desistir de um livro. Quer dizer, possível era. Uma pessoa vai "não lendo" até a obra em causa se perder nas coisas do dia a dia. Um dia descobri que era possível pousarmos um livro e nunca mais voltarmos simplesmente porque a leitura não nos entusiasmava. Não sou eu que desisto, é ele que não suficientementebom para mim. Tenho um caso destes com o Saul Bellow. Ai, os americanos. Ai, um escritor judeu. Ok, o livro era giro -- acho que era o "Ravelstein" (já nem sei) -- mas a meio fartei-me. E se uma pessoa não gosta, pá, passa a outro e não ao mesmo.

 

Portanto, virei-me para outro livro de viagem: "Dentro do Segredo", do José Luís Peixoto. Para ser completamente honesta, ando com ele debaixo de olho há uns tempos. Na festa dos 15 anos da SIC, o Manuel Fonseca, diretor de programas na altura, decidiu premiar jovens promessas numa gala televisiva. O espetáculo rendeu audiências mais fracas do que se podia esperar (se bem me recordo) mas as escolhas revelaram-se certeiras. Beatriz Batarda, Joana Vasconcelos e o José Luís Peixoto ganharam prémios. E quando, nos bastidores, lhe perguntámos, o que significava aquele prémio, ele, já não sei como disse qualquer coisa como isto: "Já não sei se sou eu que sinto se são as personagens que estão na minha cabeça". Há que admitir que isto soa um bocado estranho, mas gostei. Mas não foi só por isso.

 

Nem críticos, nem contracapas, nem badanas. Não há melhor publicidade a um livro do que o entusiasmo de um leitor. Pelo menos para mim. Se não tivesse ouvido a Margarida falar da "Câmpanula de Vidro" ou a Eva de "As Últimas Tardes com Teresa" nunca os tinha lido (e que triste isso seria). Agora, se não tivesse sido o entusiasmo da Maria João Gago com o Peixoto e da Caetano com este livro nunca lhe teria pegado. E o que estaria a perder, minhas meninas, o que estaria perder...

Praia, de novo

Três gajas em fato de banho na praia e duas com modelos iguais. Eu e outra. Em minha defesa só posso dizer que olho para a rapariga e continuo a achar que é giro. No entanto, note to Self, não voltar à secção de praia da Primark.

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