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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

É urgente uma revolução do pano do pó

Detesto tarefas domésticas e o que elas querem dizer na vida de uma mulher com filhos: submissão, pobreza, dependência, falta de qualificação, tradicionalismo acéfalo. Fazer camas, aspirar, limpar, lavar roupa e engomar é trabalho. Trabalho! E tem que ser visto dessa forma. A vida das mulheres melhorou assim tanto só porque trabalham fora de casa? É de uma vida em que depois de um dia de trabalho ainda lhes cai um monte de obrigações domésticas em cima que quero que as minhas filhas fujam. FUJAM!

Veneza

#1

Lá diz o povo e com razão, não há fome que não dê em fartura. Depois de uma semana no Brasil, passei os últimos quatro dias em Veneza. Uma canseira que esta minha vida de jetsetter tem sido. Mais uma vez, em trabalho. Desta vez, a propósito da inauguração em junho de 2017 da Casa da Arquitetura, em Matosinhos, e para o encerramento da Bienal de Arquitetura, com Álvaro Siza a passar o testemunho ao artista plástico José Pedro Croft, que representa Portugal na Bienal de Artes Plásticas. Passei a manhã de sábado na ilha operária de Guidecca.

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A caminho de La Guidecca. De vaporetto, quase a perder S. Marcos de vista   

Era lá que estava o pavilhão de Portugal, nada mais nada menos que uma espécie de barracão montado em torno de um edifício de Siza que ficou por terminar nesta zona há 10 anos. Enquanto esperávamos o arquiteto, liguei os dados (nesta cidade não havia wi-fi em lado algum) e sou atropelada pela notícia: Fidel morreu.

Quando me perguntarem "onde estavas quando o líder/ditador (riscar o que não interessa) cubano morreu?" posso encher o peito e dizer: com Álvaro Siza, o maior arquiteto deste país, uma das pessoas mais queridas com quem já falei profissionalmente.

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Depois da visita pela exposição, pedimos para conversar um pouco melhor com o arquiteto. Num café pequenino, nós sentados, Siza, 83 anos, a beber água e a minha cara de parva a pensar se lhe devia pedir um autógrafo ou uma selfie, como tinham feito antes de mim dezenas de estudantes.

O incrível é isto: a cada pergunta, e perante a nossa estupefação, ele pegava na caneta e garatujava o caderno para explicar melhor o que dizia. Não o meu, infelizmente. Se fosse, já tinha postado aqui, emoldurado e pedido a avalição técnica de um perito de arte.

Pessoa mais querida e disponível para ouvir os outros o Siza. Não quero agora endeusar o senhor, isso leva sempre por maus caminhos (vide Fidel Castro), mas mostra sempre uma grande disponibilidade e um grande amor pelo seu trabalho. É admirável. Por exemplo, na preparação para a exposição encontrou-se com os moradores destes bairros de habitação social começados a construir nos anos 80. Houve quem se queixasse do barulho, houve quem se queixasse da casa de banho, que não têm janela. "É o pecado do arquiteto", diz ele. Querer sempre a beleza. E, depois, como é próprio dos arquitetos, tem uma enorme paciência. Ah, como admiro os arquitetos

 

#2

Da Bienal vi pouco, o que foi uma pena. Alejandro Aravena, chileno, Prtizker este ano, era o boss desta edição escolheu como título Reporting from the Front, o que teve o condão de afastar as estrelas do business e trazer para aqui gente já com experiência que trabalha perto das pessoas. É maravilhoso vermos aqueles projetos milionários de Herzog et De Meuron, Jean Nouvel ou Zaha Hadid, mas há vida para lá disso. Muita gente faz coisas incrivelmente boas e até tecnológicas sem precisar de falar em domótica ou de construir em mil metros quadrados. Só tirando partido do que já existe, mesmo que o que exista seja lixo ou, vá, para não ferir as peles mais sensíveis, desperdício.

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Mais: por incrível que pareça, para quem pensa que os tempos de Le Corbusier não voltam, fala-se de novo em cidades em altura. Por exemplo, esta torre construída em Tirana. O projeto é do gabinete belga 51N4E e, boas notícias, o trabalho desta malta há de estar representado na primeira expo da Casa da Arquitetura (16 de junho de 2017, Matosinhos, já apontei na agenda).

Só queria dizer mais uma coisa a propósito da passagem pela Bienal e é esta: as minhas fuças cruzaram-se com as de Alejandro Aravena, himself, atravessando a nave do Arsenale. Para quem não está familiarizado com o indivíduo, deixo uma foto e uma observação: a foto não faz jus à pessoa. Como é óbvio, só um de nós tem fuças e não é ele.

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#3

Veneza é uma Disneylândia da História, mas é, também, tão encantadora que é impossível não gostar, mesmo em trabalho, quando se vive a cidade numa correria para ir do ponto a ao ponto b para qualquer coisa. Mas foi também graças ao trabalho que pude ver e viver coisas diferentes. E não é apenas as coisas que se veem, é a maneira como as vemos. “É preciso observar, mas também é preciso aprender a olhar”, como diz Álvaro Siza num dos documentários da exposição. É como se estivesse a falar para mim.

Tinha 13 anos quando estive em Veneza pela primeira vez com os meus pais. Nessa época andámos por várias cidades italianas e nem ficámos em Veneza, mas sim em Mestre, a cidade mais próxima, em terra. Recordo o passeio de gôndola e nunca me esqueci do impacto de estar na praça de S. Marcos. Essa sensação não se repete por mais vezes que lá volte. Só a primeira impressão é que conta.

Em 2007, o António e eu fomos lá. Ficámos numa locanda muito querida, recomendada pela Inês e pelo Filipe, em Canareggio. Foram dias impecáveis, entre o ano novo e o batizado do meu primo Rodrigo (parece que vou sempre a Veneza antes do batizado de um filho da minha prima Elsa).

Lembro-me de andarmos muito. Lembro-me de passarmos tempo em Rialto e lembro-me do Palácio dos Doges. Do palácio, não das pinturas. Nem me lembrava que lá havia um Bosch. Esta viagem, há quase 10 anos, foi também a última antes de termos filhos. Em junho desse ano fomos a Nova Iorque, mas já estava grávida, não conta. É outra vida. Na verdade, pois, nunca voltamos à cidade que conhecemos, mas descobrimos uma nova, que vemos com os olhos impregnados de tudo o que vivemos desde então. (Ok, sei muito bem que não descobri a pólvora, mas preciso de assinalar isto para dizer que senti mesmo isto.)

#4

Apesar de ser a terceira vez que estive em Veneza, nunca tinha posto as pés na Giudecca nem nos Giardini, uma zona mais afastado de S. Marcos e ausente da lista de coisas obrigatórias a fazer na cidade quando se vai por poucos dias. Percebe-se. Com tanto para ver, quem se vai meter num parque? Só os malucos das Bienais, os donos de cães, corredores ou moradores. Precisamente por ser mais afastada do centro, vivem por aqui mais pessoas, o que é quase uma raridade. Apenas 50 mil pessoas habitam esta cidade que recebe 20 milhões de turistas por ano.

Comprovei o assunto este domingo, pela fresca, às 08.00, quando calcei as sapatinhas e fui fazer uma corridinha higiénica para queimar as calorias do Amoretto da noite anterior e fazer check na minha lista de localidades portuguesas e estrangeiras onde já corri (Lisboa, Londres, Viseu, Ericeira, Porto, Paris...). Devo dizer que éramos muitos. E, imagino, boa parte deles seriam também turistas.

É uma coisa que a pessoa percebe logo, e aceita: os estrangeiros e os trolleys com rodinhas fazem parte da paisagem de Veneza. Mas, segundo as pessoas com quem estava, é proibido circular com as malas à noite. Aliás, à noite não circula nada. Passeámos quase sozinhos por aquelas estreitas calles (rua, no dialeto veneziano, é igual à palavra espanhola). Nós e, pelo menos um ratinho, avistado na noite de sábado, junto a uma ponte, quando voltávamos do jantar.  

Desta refeição não reza a história (com exceção do tal Amoretto à sobremesa), mas, sem dúvida, é obrigatório dedicar umas linhas ao que comi numa enoteca pequenina, junto a Rialto, cujo nome não fixei -- Bacalà amantecatto (bacalhau amanteigado sobre cama de polenta branca), raviolis e tiramisú, servidos por uma daqueles italianos louros, grandalhões, que nem dá espaço para conversa quando percebe que está perante forasteiros. Decide ele o que se vai comer e quem não gostar já sabe: porta da rua, serventia da casa. A acompanhar o meu novo vinho de estimação, Pinot Grigio. Ponto número 1, sinto-me chique ao pronunciar as palavras pinot grigio. Ponto 2, até uma moderada apreciadora de vinho, como eu, percebe que aquilo é outra louça.

#5

Regressar é ter a certeza que valeu a pena ir. Tudo o que lemos, vemos e conhecemos fica no que fazemos a seguir. As viagens com os meus pais valeram por todas as matérias que dei na escola. Sabemos que a praça de S. Marcos é grande, mas estar lá é perceber como somos pequenos. Sabemos que Veneza foi construída sobre ilhas e que tem canais, mas sentir o seu cheiro, às vezes bastante mau, é outra coisa. E é isso que quero fazer pelas minhas filhas. porque de todas as coisas que temos de fazer como pais, atapetar o cérebro dos nossos filhos com coisas bonitas é a que me parece mais importante. E viajar não é apenas apanhar um avião, é ver o que está ao nosso redor. Há sempre algo novo para descobrir.  Note to self: empenhar-me mais neste assunto.

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Então, o primeiro dia foi assim

Peguei no carro (há tanto tempo que não pegava no carro para ir para o trabalho) e fiz-me à estrada. Ainda não tinha entrado no Eixo norte-sul e já havia fila. Ó diabo... Estamos mal. Afinal, era apenas um acidente. Uma coisa que não acontece todos os dias. Cheguei em 10 minutos à nossa nova morada: Rua Tomás da Fonseca. Demorei o mesmo tempo, ou mais (a mim pareceu-me mais), à procura de lugar, mas quando finalmente consegui fiquei a dois passos da entrada. Senti-me uma lucky bitch.

O meu colega Fernandes, rapaz avisado, já tinha andado a inspecionar o território no fim de semana, pelo que me limitei a segui-lo até à entrada. Temos quatro elevadores para nos levar onde queremos. O DN está no piso 5 e foi pintado em branco e azul (as cores do jornal, of course). Veio tudinho, direitinho para o meu lugar. Exceto a cadeira. Passei o dia na dela e, não vão acreditar, é muito melhor do que a minha. Vou rezar para que a velha não apareça e me arranjem uma nova. :)

Abri as caixas e revi mentalmente os lugares que tinha destinado a cada coisa. Guardei tudo e chamei a mim uma prateleira de um armário. A mesa ficou pequena para os dois ecrãs e caixa do computador, mas, acho que ficou bem.

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Em cima da CPU guardei os brinquedos que tenho ido acumulando ao longo dos anos, mais as conchas que a filha da Filomena pintou e me deu quando era criança. Agora já anda na universidade, meu Deus! Há uma vaca nordestina, dois pinguins que saíram no menu de crianças do Burger King, uma carrinha do Panda, um Pato Donald que não como lá foi parar e um pisa papéis que veio de Paris com o Amadeo de Souza-Cardoso este ano. As decorações são o meu arame farpado, impedem-me de atafulhar a área de cadernos e livros e papelada vária.

A caneca das canetas é da Hello Kitty.

À esquerda, esperando fita cola, fotografias e outras imagens interessantes com que vou decorar a caixa do computador.

No pequeno espaço entre a mesa e o bloco de gavetas está uma velha lancheira do Ruca, caída em desgraça na minha casa.

Está tudo.

Fiz o lugar meu.

 

Último dia no Marquês

Tinha 22 anos quando entrei naquele edifício pela primeira vez. Ia toda contente: três meses de estágio, que me pareceram imenso (mal calculando como era irrelevante o trabalho do estagiário). Pareceu-me bom prenúncio. Todos os domingos, quando passava no Marquês de Pombal, dizia à minha mãe que o DN ia ser o primeiro sítio onde ia trabalhar. O segundo ia ser o Expresso. Não podia adivinhar que este havia de sair do centro da cidade muito antes do Diário de Notícias.

Lembro-me do fumo, das pessoas começarem a trabalhar tarde, do Luís Delgado, que vinha todas as tardes escrever a sua crónica da página 2, no tempo em que as pessoas iam escrever às redações, do José David Lopes, com quem aprendi tantas coisas, de só existir um computador com ligação à Internet. Lembro-me muitíssimo bem da porta que me ficou na cabeça. Com uma giratória tão linda, a que me ficou na memória foi a que dá acesso à redação.

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Voltei ao 266 da Avenida da Liberdade no dia 21 de abril de 2004, embora, como ela diz, para nós sempre foi o 111 da Rodrigues Sampaio. A incansável, e pragmática, Luísa recebeu-me nesse primeiro dia no 24horas com computador, mail, login e tudo pronto para começar a teclar. Lembro-me muitas vezes desse gesto. Pela simpatia e pela responsabilidade. Se me acolhiam tão bem, tinha de corresponder com trabalho. Subi ao 5.º andar e por lá fiquei até julho de 2009. Foram os melhores dos tempos, foram os piores dos tempos. Todos temos um sítio, o meu é este.

Quando voltei de férias, nesse ano, fui para o DN, quando as artes e os media estavam juntos. De novo, os piores dos tempos, os melhores dos tempos. Num cantinho pouco iluminado, costas com costas com o Internacional. Depois ao lado da Sociedade. Encostada a um pilar. Finalmente, ao lado da secretaria de redação, pertinho da janela.

Aprendi tudo sobre jornalismo neste edifício extraordinário, meço cada sílaba e acho pouco, e hoje foi o último dia.

Foram 12 anos a correr para o Marquês, a apreciar mais e mais aquele edifício feito para ser redação, cinco andares por fora, mais três subterrâneos, prémio Valmor em 1940. Impressionada com os painéis do Almada ou a passar por eles sem os ver, sempre com medo de ficar entalada na porta giratória, sempre a lembrar-me do Clark Kent. Orgulhosa das nossas letras góticas. "São como as do New York Times", disse-me uma rapariga americana que entrevistei este verão no Primavera Sound. Devia ter-lhe dito que estavam em grande numa das principais praças da capital.

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Empacotei 12 anos de trabalho numa caixa de 40x40 centímetros e colei uma etiqueta, a 92. Sou a filha que vê os pais desmancharem a casa onde cresceu. Onde fiz a primeira manchete, onde as minhas filhas nasceram, onde me ri tanto, onde vivi angústias, onde chorei, onde conheci pessoas maravilhosas. Fiz amigos que duram até hoje, maiores do que qualquer prédio de betão, por mais premiado que seja. Sinto nostalgia, não tristeza (passámos por três despedimentos, sei bem a diferença).

A partir de segunda estamos nas Torres de Lisboa, mas para quem nos lê não vai fazer diferença nenhuma. Continuamos nos quiosques e no nosso site. Os jornais são as pessoas que os fazem. E nós continuamos cá.

O inominável ganhou

Nem celebridades nem apoio dos media tradicionais. Nem ideias nem sensatez. Nem sequer um expressivo apoio partidário. Não precisou de nada disso para chegar a quem tinha de chegar. O que é que nos está a escapar?

Sampa

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Sempre fui uma dessas estranhas pessoas que tem um blogue para não contar tudo. Por exemplo, em 2009, passei seis dias em São Paulo e não escrevi uma linha sobre esse assunto. Referi que tinha estado numa viagem e segui em frente. Mas os tempos, já dizia Bob Dylan, estão a mudar. Estou de volta a Sampa, acompanhando a digressão da Orquestra Gulbenkian, como podem ler no DN, e já confirmei que não era ilusão de ótica: São Paulo é mesmo uma das cidades mais espetaculares onde já tive o prazer de ter estado. Falta-me Los Angeles. Falta-me Buenos Aires. Falta-me Caracas. Falta-me Copenhaga. Falta-me Praga. Tudo cidades onde iria de caretas já no fim de semana, mas São Paulo, garanto, é incrivel.

É feia. Cheia de prédios. É cinzenta. Chove de maneira esquisita e as pessoas estão sempre apressadas. Há muita pobreza e não aquele tipo de pobreza alegre e colorida que a gente vê no Rio de Janeiro e que até passa nos filmes. São Paulo é dura. Debaixo do viaduto, uma família mobilou uma assoalhada. O piso 0 do MASP (Museu de Arte de São Paulo) é um vão que congrega todo o tipo de misérias -- pobres, doentes, gente em busca de qualquer coisa. Está sujo. Andamos uns passos mais e o arranha-céus seguinte tem heliporto. São Paulo, a cidade com mais tráfico de helicópteros do mundo. Tinha 500 mil habitantes em 1912. A zona metropolitana da cidade tem hoje 20 milhões. Duas vezes Portugal, nem é preciso dizer.

Na Avenida Paulista já sobra pouco desse tempo que a rua eram palacetes de magnatas das plantações. Sobram poucos, dois deles em muito mau estado. Os prédios tomaram conta da cidade, o que não é mau nem bom, é o que é. A cidade mudou.

E, ao mesmo tempo, tem restaurantes magníficas, montras de fazer inveja ao que se vê na Oxford Street, em Londres. Tem mulheres altas, bonitas, louras, bem vestidas que caminham sem esforço de saltos altos com as malas caras apoiadas no pulso. Tem patricinhas, tem o Morumbi das novelas de antes, a Vila Madalena das de agora. Tem casinhas que deviam ser de gente e agora são lojas ou lanchonetes. "Moça, deixa eu preparar seu lanche". Tem muita gente com cães, muitas lojas para eles. Fala-se muito de reciclagem. Há um programa na TV que se chama "Verdejando" e grafitis por todo o lado. Judeus. E japoneses. É a cidade do mundo com mais japoneses depois de Tóquio. E arménios: existem 50 mil, construíram três igrejas e uma escola. São Paulo é exatamente como cantava Rita Lee: "há um jeito americanês de sobreviver". Nova Iorque na América do Sul. 

 

 

 

 

 

Hillary vs. Trump

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Nunca vamos saber como é que nós, pessoas que acham Trump um palhaço e escolhiam Hillary no boletim de voto sem pestanejar, estamos a prejudicar o que consideramos ser o caminho do bem. O raciocínio é este:

Vamos imaginar que estou descrente na política e que a opção que me dão é Hillary Clinton. Só na comparação é que esta senhora se safa. Porque ela é muito má.

Um americano que conheci há um mês dizia-me "ela não vale nada". Mas ia votar por detestar Trump e ver nele o que está à vista - ausência total de uma ideia ou um projeto, ignorância política e outras falhas de curriculo. 

Depois de ter ficado muito espantada com as palavras dele, calhou ver em direto o terceiro debate Clinton/ Trump. Ela esteve péssima. Entre outras coisas, não foi capaz de explicar por que razão foi paga por uma multinacional de energia para dar uma conferência onde tinha dito exatamente o contrário daquilo que se propõe fazer como presidente, por exemplo. Atrapalhou-se em muitas respostas. Percebi, finalmente, o que o senhor americano queria dizer.

Mas já ninguém pensa nisto de forma distanciada. Sem que se pense muito escreve-se que Trump é ridículo e perdeu e que Hillary é ok e ganhou. Na manhã seguinte, as notícias dos jornais falavam em claras vitórias de Hillary, mas ela não esteve melhor do que ele, porque neste debate eles responderam a coisas diferentes, mais dirigidas a cada uma deles. Ele esteve mal, como de costume, mas ela também.

E isto vem ao caso para dizer o seguinte: parece que há mesmo muitos, muitos eleitores que estão a ver uma pessoa que patina em respostas simples, uma mulher do sistema que já lhes falhou e não querem votar nela. Da mesma maneira que eu digo "como é que podem votar no Trump?", uma parte da América pergunta "como podem não ver que ela tem pés de barro?". Então, sempre que chamamos burro ao Trump estamos a insultar as pessoas que se sentem enganadas pelo sistema e que, achando que há um mundo contra elas, reforçam o apoio a um candidato xenófobo, racista, violento, egoísta, sem sentido de Estado. Para eles, Hillary é a manutenção do status quo que já falhou. Votar em Trump é uma espécie de lição que querem dar. 

Não resulta, claro.

Não podemos mudar as regras da democracia porque um louco se candidatou. Só podemos pôr evidência as suas contradições com muita força e, talvez, só talvez, deveríamos mostrar menos interesse pela sua figura mediática, que é, sem dúvida, mais interessante do que a dela. Já vi na capa de um jornal noticiarem que Clinton ia à frente nas sondagens com a foto dele em maior destaque. Isto não é culpa dos jornalistas, não é teoria da conspiração. É o espírito do tempo. Pessoas como Trump estão para os media como a luz para as borboletas.

Sobram-me dúvidas, muitas dúvidas, sobre a real utilidade de uma tomada de posição a favor de Clinton como fez o New York Times. Será que tomar essa posição, sensata em si, não é mais uma acha na fogueira dos que se sentem abandonados pelo sistema e, por isso, mais uma razão para apoiar Trump? Não é dos New York Times, dos intelectuais, da América sem armas que fogem os apoiantes de Trump.

Não tenho dúvidas sobre quem é melhor, só tenho dúvidas sobre como o apoio que lhe é dado reforça as convicções de quem não gosta dela.

 

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