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Quem sai aos seus

Para a Madalena, para a Teresa e para a Francisca.

Parecendo que não, ser jornalista é difícil

Veja-se este assunto, um dos mais difíceis de ser jornalista: devemos ou não publicar imagens de mortos? Geralmente, do lado dos tablóides, aposta-se em mostrar tudo. Do lado dos jornais de referência, no não exibir esse tipo de fotografias. Houve uma altura em que era bastante (mais) fácil tomar uma decisão porque o que se via era o que os meios de comunicação mostravam. Entretanto, vieram as redes sociais. E mudou tudo. Porque podemos não ver mortos no El Mundo mas vamos ver um vídeo dos acontecimentos no mural de um amigo que partilhou do amiga da prima de um tio de uma pessoa que estava lá. É incontrolável e muda completamente a nossa perspetiva. A minha, pelo menos. Isto vem a propósito da capa do El Pais. É chocante ou é a equivalência à da carnificina? É sempre preferível sermos poupados a este espetáculo mas não será importante num caso destes vê-lo? Outro tema é a replicação destas imagens nas nossas redes sociais. As autoridades catalãs pediram que não fosse feito e concordo. É uma medida de higiene para não se amplificar o que vira um circo de horrores a favor dos terroristas. É bastante diferente do que pode fazer um jornal, que enquadra, noticia e edita a Informação que nos faz chegar. São linhas ténues, bem sei, mas acho que facilitam o caminho. Também há um debate super interessante neste caminho? Devemos noticiar atentados? Eu acho que sim, vamos fazer o quê? Sonegar informação? No entanto, não será que devemos tratar os alegados terroristas mais como criminosos e menos como gente que é guiado por algum motivo maior? Eles chamam-lhe daesh e o califado de não sei o quê, mas imaginemos que a todos nós que nos sentimos infelizes com alguma coisa nos dava para pegar em carros e atropelar gente?

T'estimo Barcelona

1. Atentados terroristas são atentados terroristas. São maus em Londres, Paris, Bruxelas ou em qualquer lugar, mas em Barcelona... Barcelona é a cidade onde vivi três anos, aquele sítio de onde me sinto um bocadinho. Embora a cidade de 2000-2003 já não seja a mesma, há coisas que se mantêm. Quando leio os nomes das ruas, sei realmente para onde vão, o que lá acontece, como se chega. Impressiona-me. A parte chocante é imaginar que coisas destas podem acontecer às pessoas que conheço. Mandei mensagens. Entre as respostas e as marcações de "seguro" via Facebook, parece estar tudo tranquilo, mas depois há aqueles que não dizem nada. Lembro aquelas pessoas com amigos e família em Londres, quando um louco esfaqueou gente numa zona de restaurantes. Sentiam angústia e, ao mesmo tempo, não queriam acreditar que algo pudesse ter acontecido. "Ah, de certeza que não se passa nada". É o que penso. Ah, eles são dali, é quinta-feira, deviam estar a trabalhar, não iam descer as ramblas, zona mais turística de todo o sempre, num dia de semana.

Marta, antiga colega de trabalho, conta-me no chat que por um mero acaso estava em Barcelona hoje numa zona um pouco acima das Ramblas. Telefonaram-lhe a perguntar se estava tudo bem, a contar o sucedido. Ficou assim justificada a quantidade de agentes policiais que começou a ver. Tentaram sair o mais depressa possível, mas foi tarde demais. Demorou três horas a fazer um caminho que habitualmente se percorre em 60 minutos. "E com um susto..." Não estamos no olho do furacão, mas impressiona porque podíamos ser nós. Nestas alturas leio sempre alguém dizer que estes crimes atentam contra o nosso modo de vida. Parece-me uma explicação demasiado simples, mas a consequência, tenho a certeza, é essa. Começa naquele segundo pensamento que temos marcando uma viagem (e se?) e continua quando vamos a um festival de música e percebemos que há polícia por todo o lado e que é mesmo para ser assim. Temos de ver polícias vestidos de polícia para nos sentirmos seguros. 

2. Estou a fazer atualizações nos La Vanguardia de dois em dois minutos. As autoridades pedem sangue e, ao mesmo tempo, pedem que não se mostre sangue -- "Por respeto a las víctimas y a sus familias, por favor, NO compartas imágenes de heridos en atropello de #Ramblas de Barcelona" -- e, pequeno que pareça este pedido, é tão importante não amplificar os feitos dos terroristas. É preciso parar de alimentar este voyeurismo de beira de estrada por mais tentador que seja. 

3. Talvez soe estranho dizer isto, preciso de "escrever alto", mas o que mudou mesmo nestes anos -- desde o 11 de setembro, valha a verdade -- foram as redes sociais, esta informação ao minuto, os canais de notícias, a internet no telefone. Havia Al Qaeda, havia ETA. Eram terroristas, mas essas coisas, pelo menos até às Torres Gémeas, quando tudo aquilo aconteceu em direto perante os nossos olhos (a quantidade de gente que diz que pensou que o segundo avião fosse uma imagem de repetição do primeiro ataque), eram um pouco longíquas. Em 2000 ou 2001, mas seguramente antes do que se passou em Nova Iorque, eu estava a jantar em casa com duas amigas quando sentimos um estrondo na rua. Foi uma coisa de segundos, passou, continuámos a conversar, não falámos mais sobre isso. A televisão estava apagada, os nossos telefones eram nokias, não tinham alertas. No dia seguinte, levantei-me para ir trabalhar às 07.00 e fiz o percurso do costume até à Diagonal. Encurtava sempre caminho por um prédio com arcadas e nessa manhã fiz o mesmo apesar de haver fita policial à volta. Ninguém me disse nada, eu nem pensei, ia distraída, não havia grande confusão. Foi quando cheguei ao trabalho que percebi que tinha explodido uma bomba. Em outra ocasião, um carro armadilhado matou um polícia municipal na Diagonal. Eu tinha medo, nunca na vida tinha estado tão perto de uma coisa assim. Uma colega disse uma coisa horrível, que nunca vou esquecer. Que vivia ao lado do Hipercor atacado pela ETA em 1987. Lembrava-se da confusão, mas muito pior do que isso. "Morerram vizinhos meus". 21 pessoas no total. Foi o ataque mais mortífero, o último até ontem. "Tens de viver com isso", disse ela. 

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As férias

A ideia era fazermos umas férias diferentes este ano. Andar mais, parar, seguir, sem muitas regras, apenas um trajeto em mente e, dado estarmos em agosto, lugares para dormir assegurados. Tracei objetivos ambiciosos no início: começar em Castelo Branco e ir descendo até às Minas de São Domingos. Daí para o litoral. E, convém dizer, também estava nos nossos planos fazer tudo isto de autocaravana. Infelizmente, mesmo típico nosso, fomos empurrando o assunto "mais para a frente" até que em Julho já não havia nada de jeito para alugar. Deu para fazer um "crash course" de caravanismo e perceber que me entusiasmam mais as carrinhas adaptadas do que as motorhomes. No próximo ano se verá...

Para já, dizer o seguinte: só regressamos este sábado e acho que é seguro dizer que está a ser um êxito. O que já vimos deste país...

Escrevo desde a piscina de Avis (começo, aliás). Três piscinas de diferentes tamanhos, relvado bem tratado e aquele típico bar de apoio hamburguers-pizzas-baguetes de atum, com as colunas ligadas para todo o recinto, a passar o Despacito. Nem seria verão de 2017 se não tocasse pelo menos uma vez. Acabámos aqui por força das circunstâncias. A praia fluvial não tem água suficiente. Essa seca que lemos nas notícias torna-se real nos muitos quilómetros de estrada que temos devorado. Aqui, na barragem do Maranhão, basta ver as marcas. Onde chegava, onde está.

Não passava aqui, pelo Alto Alentejo (ainda podemos usar esta designação?), há tanto tempo que me surpreende a quantidade de turismos rurais que agora existem, apesar de não ver assim tantos turistas. Existem dois Alentejos e nem é o alto e o baixo. É o do litoral e o do interior. Já tinha tido uma boa ideia desse assunto quando procurei alojamento nas Minas de São Domingos (na época para a autocaravana) e em Beja. A oferta é incomparavelmente menor. Ou talvez os hotéis, hostels e turismos rurais estejam fechados como estes em Cabeço de Vide: uma casa senhorial que esteve fechada durante anos, agora é um turismo rural... fechado; também há um hotel enorme, o Candelária, vazio -- diz-se que era de cinco estrelas. Era o sonho de um construtor civil com ligações a este lugar. Morreu e a história foi interrompida. A dimensão impressiona. Uma massa gigantesca, adormecida. Para Iá do portão trancado só consigo ver dois vasos do tamanho de pessoas e réplicas de animais. Não estou a inventar: eu vi um elefante de louça em ponto grande.

É uma imagem tão desconcertante como perceber que aqui vivem cada vez menos pessoas. Tão poucas que não chegam para manter restaurantes abertos. Alter do Chão, onde há um castelo medieval e uma coudelaria conhecida indicada em todas as placas, com direito a tradução em espanhol, inglês e alemão, não é uma vila muito mais agitada. É preciso fazer 40 km, até Portalegre, para quase tudo. Não é mau. A cidade é bonita e, para quem procura uma certa autenticidade (ou o que imagina ser autenticidade), está-se bem. Jantámos num restaurante chamado Poeiras, três estrelas Michelin no ranking Santos Costa. Comida saborosa, serviço hiper despachado (ainda nem bem me tinha sentado depois de arranjar as miúdas e já as lulas recheadas, as plumas na brasa e o arroz de pato estavam na mesa), atendimento muito simpático. Fazia 300 km de propósito para lá voltar. Ao nível da atração turística foi o que mais gostei. Não houve tempo para mais, verdade seja dita.

Coisa bizarra, os supermercados e mercearias estão cheios de produtos espanhóis. Mañanitas, pipas... Também há uma loja chinesa em cada esquina e, pasmemo-nos, com chineses incluídos. O que acontece neste país em que não conseguimos ter portugueses a viver em lugares onde se fixa gente vinda do país mais populoso do mundo? Como é que alguém descola de Pequim com destino ao Alentejo que até os portugueses esqueceram?

 

Feitos saltimbancos

Deixámos Lisboa no dia 1 de agosto, rumo a Porto Covo. Apesar de não ser a primeira vez que passamos férias no sudoeste alentejano, a vila cantada por Rui Veloso era um lugar desconhecido. A praia de São Torpes não nos convenceu mas a Praia Grande é ótima. E ao nível da descontração dá 15-0 ao Algarve. Não me interpretem mal, isto até podem ser só coisas da minha cabeça, mas assim que passamos Aljezur, carregamos no botão da "pose". Não confundir com o da "pausa". Esse é mesmo em Porto Covo. Aqui, quando a gente diz "chinelo no pé" é mesmo "chinelo no pé e calcanhar crestado de tanto pisar areia". Já nos estávamos a habituar aquela coisa de passar o dia na praia, tomar banho, sair para jantar e dar um passeio. Espero que as miúdas guardem memórias boas destes dias. Se bem que, claro, a gente nunca sabe.
Quando era miúda (adolescente até) tinha uma ideia romântica dessas férias em família que me eram descritas por colegas de turma. Quando voltavam à escola ainda tinham marcas desses momentos -- tranças, borrachinhas compradas em Ayamonte. Falavam de Armação de Pêra como um dos lugares mais incríveis do planeta e falo sobre isto todos os anos, porque ainda me parece extraordinário que eu pudesse sonhar com momentos assim. Eu só tinha uma semana de férias com os meus pais, e era uma semana espetacular (era MESMO), mas o meu pai detestava (e detesta) a ideia de ficarmos parados num lugar de papo para o ar. Era sempre a loucura! O problema é que agora começa a apetecer-me retomar esses tempos. Quando estava a marcar os lugares onde íamos assentar arraiais o António já dizia: "temos de ficar dois ou três dias em cada sítio". Portanto, três dias depois, fomos para a Zambujeira do Mar.

Caímos em cheio no Meo Sudoeste. Por um lado, queríamos fugir dele, por outro era irresistível. Fomos. É calmíssimo, na verdade. Ideal para fazer 'vida de Zambujeira do Mar', isto é, praia até fecharem a porta, jantar tardio e dançar noite dentro. Era como se o Clube da Praia se tivesse mudado para a Herdade da Casa Branca. Não que tenhamos ficado até tão tarde. Somos mais de ir à roda gigante, comer fartura e recolher às boxes. Neste caso, o para sempre no coração das nossas filhas, Zmar.

Há dúvidas sobre o que as cativou mais: as casinhas de madeira, onde experimentaram as alegrias do beliche? Era preciso não serem crianças para não gostarem de tal peça de mobiliário. Terá sido a pequenez dessa cabana, tão compacta? A piscina de 100 metros? A de ondas? Ou o passeio no mini-club para ver burros, araras, póneis e cabras? Ou o hiperpopulado pequeno-almoço? Há gente com fartura no Zmar e, todas as manhãs, aquela hora em que uma animadora chama para "a aula de zumba junto à piscina". Foi também o momento em que se abateu sobre mim uma certeza: se o Dirty Dancing saísse hoje, eu seria a mãe da Baby. 

 

Três dias depois, arrumámos a trouxa, tirámos o pó à pressa numa estação de serviço e comemos quilómetros até Évora, repleta de franceses, brasileiros, asiáticos, portugueses... Em pelo menos dois sítios, faltavam pessoas para atender com qualidade os muitos clientes que tinham pela frente. Um desses lugares foi o Café Arcada, um desses estabelecimentos à moda antiga, onde imagino sempre umas avozinhas com o cabelo cheio de laca a comer torradas e a sujar as chávenas de chá com batom e jovens intelectuais que vão mudar o mundo. Era pré-pagamento, uma pessoa a atender e outra a recolher louça suja nas mesas. Como dizer? Não me chateia nada pegar no tabuleiro e ir para a mesa (a empregada era de uma eficácia extraordinária), mas frustrou as minhas expectativas. O que eu queria mesmo numa pastelaria à antiga era serviço à antiga. Tirando isso, vale bem cruzar a porta giratória. E, é preciso dizer, tudo isto é uma nota de rodapé se comparada com a cidade, cheia de vida, música à noite na rua e esse encontro de épocas que é estar no templo de Diana (tão pequeno e magnânimo) rodeada de edifícios dos séculos XVII, XVIII e XIX e de caras para o melhor do século XXI que é a Fundação Eugénio de Almeida. Três coisas muito boas nos aconteceram à mesa. Pequeno-almoço no Pastelaria Conventual Pão de Rala, lanche na Fábrica dos Pastéis, jantar no Café Alentejo (foi preciso marcar para garantir mesa). Falhámos vergonhosamente a Capela dos Ossos, achei que era capaz de ser demais para as miúdas depois de saber que existe a seguinte inscrição: "Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos". Arrrrrrepiante! Mas fizémos um desvio para Guadalupe, pequena aldeia onde nos anos 60 foi descoberto o cromeleque dos Almendres. Para que servia? Não se sabe. Eu aposto que era a maneira megalítica de guardar lugar na praia.

 

Praias fluviais foram uma descoberta deliciosa nestes dias. Em Monsaraz, nesse lugar que nasceu com a barragem do Alqueva, as miúdas fartaram-se de rir quando lhes contámos que iam ver este lugar ao mesmo tempo que nós. Elas crianças, nós com mais de 40 anos. Aproveitámos para nadar bastante, sem corrente, e sem aquele sol inclemente que impede de sair do chapéu.  Havia franceses, espanhóis e italianos. Sempre gostava de saber como é que certos estrangeiros chegam a conhecer certas coisas deste país. A última paragem foi em Fronteira, a praia fluvial da Ribeira Grande ou da Ponte, junto a uma velha ponte, relvado e árvores por todo o lado. O rio não era vigiado, preferimos ficar a torrar à beira da da piscina municipal, depois de um incrível, mas mesmo incrível almoço.

Nestes dias, provámos casinhas de parque de campismo, tudo ao molho e fé em Deus num quarto, a casinha de madeira do Zmar, uma casa a sério. Viver como não vivemos habitualmente também fez parte da experiência. Já perdi a conta aos lugares onde fomos, onde paramos, onde passamos tempo, às conversas que temos no carro. Vamos todos tirar coisas diferentes destes dias. Essa é, afinal, a magia da coisa.

 

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Algumas notas avulsas destes dois, três dias de férias

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1. Só são férias quando perdemos a noção do tempo. 2. É uma sorte e uma felicidade poder dar férias às crianças, momentos que elas vão guardar numa parte qualquer do cérebro e usar um dia destes. (À luz do acidente com a aeronave ontem na praia de São João da Caparica, sinto ainda mais dever de me sentir grata) 3. Como é possível ter vivido 41 anos sem conhecer Porto Covo? 4. Já comemos tão bem! (Zé Inácio, Cais da Estação, Marquês...) 5. Segundo a nossa filha mais velha, "a mãe do campo é melhor do que a mãe da cidade".

Passito a passito, a mudança

O principal problema de sermos marginalizados por pertencermos a um grupo é, creio ter percebido bem, aquele que Ana Sousa Dias descreve na sua crónica deste fim de semana -- Também já fui a cigana (ou a preta) dos outros. Podemos ser, a qualquer momento, em outra circunstância, a bitch de alguém. Nem que seja só por isto, já devemos pensar duas vezes. 

Eu tenho imenso preconceitos. Vou assumir já para depois não ficarem surpreendidos com a quantidade de alarvidades que sou capaz de dizer ou pensar. Ainda me soa estranho ver duas pessoas do mesmo género beijarem-se na rua. A bem da verdade, estou a ficar tão velha que agora até me parece bizarro que um rapaz e uma rapariga se beijem em público (coisa mais parva, eu sei!). Olho duas vezes se vejo uma pessoa transgénero, e aqui a discriminação continua: elas são mais chamativas do eles. E no outro dia, para meu horror, mas sem poder voltar atrás usei esta expressão numa conversa de whatsapp: "ela veste-se como quem quer festa". Sobre mim pesa a história do mundo.

Em minha defesa quero dizer que quando uso a expressão "querer festa" deve ler-se "festa consentida". Também quero dizer que me policio para não dizer coisas como "assumiu que é gay", mas sim "tornou público", já que só se assumem erros e, por outro lado, espero que a pessoa já se tenha assumido perante ela própria (se for caso de assumir alguma coisa). Também procuro falar sobre igualdade às crianças, explico que as raparigas e os rapazes podem fazer exatamente o mesmo, porque não são as coisas que são de homem ou mulher, somos nós. E apoio mudanças institucionais que nos vão levar mais longe, ainda que seja lento.

Uma mulher andar de calças, algo tão banal hoje, era um escândalo há 100 anos, ainda olhado de lado há 50. Damos passos vagarosos a caminho de um mundo em que nos estamos pouco borrifando para o que os outros fazem, com tanto que não nos prejudiquem. E, nestes dias em que temos ouvido falar tanto de gays, transgénero, racismo, xenofobia, desigualdade, à boleia de pessoas que não vou nomear (se for marciano e quiser perceber o que estou a dizer, por favor faça google), que quando vejo o ator Liv Schreiber de mão dada com o filho, vestido de heroína, para a Comic Con só posso sentir esperança. Não sabemos porque é que o miúdo quer ir vestido de menina, e não importa.

 

Viajo nas férias dos outros (e nas suas maneiras de viver)

Se pudesse não fazia mais nada no tempo livre do que viajar. Os livros de viagens são bons para acalmar um pouco essa ânsia (e ansiedade) de conhecer novos lugares quando não podemos sair, mas, neste aspeto, o Facebook é imbatível. Chega o verão, chegam os destinos de sonho. Se for mau e excessivo, pode ser cansativo, não digo que não. Mas, como tudo, na dose certa, ou até bocadinho mais, é uma delícia. Boas fotografias e legendas elegantes são tudo o que preciso para viajar sem sair do lugar. E há muita gente, muita gente mesmo, com este dom de me fazer viajar sem sair do lugar.

Assim, por alto, este ano já estive na Coreia do Sul, em Amesterdão (duas vezes - em família e de mochila às costas), estou a caminho do Irão, já fui a Marrocos, estive em turismos rurais no Alentejo, fui à Serra da Estrela, aos Açores, instalei-me em arranha-céus na Ásia... Podia continuar a elencar as maravilhas por onde andei este ano. Adoro. Adorava mais poder ir, como é óbvio, mas assim posso sonhar e adoro sonhar. 

Há, no entanto, um caso especialmente espetacular. E se tivesse de atribuir um prémio através das fotografias do facebook, o grande momento das férias de verão são as fotografias de um amigo da adolescência com a mulher e os três filhos. Saem os primeiros raios de sol e eles começam a aproveitar a vida com os miúdos. E é maravilhoso, porque se eu pensar bem no assunto, o que é realmente incrível nas fotografias que partilha é a alegria que põem nas coisas mais simples. Não há cá filtros, nem poses que não sejam poses de crianças, não há roupinhas a condizer, não há manias. Sem ir mais longe, ontem contava como tinham ido ver o "Faísca", com fotografias tiradas naquelas diversões antes de entrar na sala de cinema. Não é nada que milhares de outros miúdos não tenham feito, mas a mim parece-me que eles o fazem com tanta alegria, apreciam tanto as coisas pequenas da vida que é impossível não pensar que eles retiram realmente imensa felicidade dos dias que vivem. 

Atenção, eu sei que o facebook não é a vida das pessoas, sei que estou apenas a ver uma pequena parcela do que lhes acontece, mas também não acho que a regra seja as pessoas postarem imagens de felicidade quando se sentem um caco. Na maior parte das vezes é apenas a vida a acontecer no momento em que acontece e isso é, por si só, maravilhoso. Deve ser por isso que aprecio tanto as postagens que ele faz. Na verdade, mais do que aprecio. Sinto que ele está a fazer coisas pelos filhos muito superiores a dar boas escolas, instruções precisas sobre o que devem ou não ser no futuro ou a enchê-los de coisas vagas como saber das porcarias cosmopolitas. Está apenas a viver o presente o melhor que pode e essa, embora não seja a minha maneira de funcionar, é que é a maneira certa. 

 

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